Pensando a longo prazo – Sobre a ciência

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Em comentários anteriores, fizemos um resumo geral das concepções expressas em A Tolice da Inteligência Brasileira. Como vimos, elas se debruçam, nem sempre brevemente, sobre uma série enorme de temas, todos eles de importância para elaborar o que o próprio Jessé Souza chama de “teoria crítica” sobre a realidade brasileira.

 

Tais temas abrangem, para ficar nos que mais interessam para a elaboração dessa “teoria crítica”, o significado da ciência, a relação da consciência humana com a realidade circundante, a singularidade das sociedades avançadas e atrasadas, a ideologia, o culturalismo / patrimonialismo, o economicismo, a relação entre o Estado e o mercado, o marxismo, a superestrutura da sociedade, a relação entre os contextos nacionais e internacionais, e as contradições do Brasil atual.

 

Em diversos trechos de A Tolice... é particularmente patente a tentativa de desqualificar o marxismo. Isto, como também já dissemos, no momento em que as contradições das sociedades capitalistas atingem um grau que evidencia justamente a necessidade de retomar o materialismo histórico, a dialética materialista e a análise crítica do modo de produção, circulação e distribuição do capital, que compõem a teoria crítica marxista, como condição para fazer “uma análise concreta da realidade concreta” do mundo e do Brasil.

 

Na prática, Jessé tenta substituir aquela “teoria crítica”, necessária para traçar as estratégias e táticas da luta de classes, por outra “teoria crítica”, que tem por base o idealismo, “às vezes dialético, às vezes metafísico”, de Max Weber. O que nos impõe tratar, desde logo, o que A Tolice... decreta como “caráter bifronte da ciência”. Isto é, a ciência seria “tanto... mecanismo de esclarecimento do mundo, quanto... mecanismo de encobrimento das relações de poder que permitam a reprodução de privilégios injustos de toda espécie”.

 

Um exemplo significativo desse “caráter bifronte” da ciência, segundo A Tolice..., seria o “uso indevido” de Max Weber e de sua obra. Ou seja, aparentando um viés “dialético”, Jessé procura uma forma de defender as concepções de Weber, mesmo que para isso desqualifique a ciência como instrumento de detecção da verdade e confunda ciência com conhecimento.

 

Tomemos o exemplo de Newton (e de Galileu, ou vice-versa), ao afirmar que o espaço e o tempo constituíam o cenário cosmológico. É evidente que, para chegar a essa conclusão, Newton pode contar com a invenção das lunetas e telescópios, que permitiram enxergar pelo menos uma parte do cosmos, ou universo. E que Galileu, para inventar a luneta, pode contar com o avanço das técnicas óticas, que lhe forneceram lentes bem mais potentes.

 

De qualquer forma, Newton fez com que o conhecimento humano se transformasse em conhecimento científico, ou ciência. Negou o conhecimento anterior sobre o espaço e o tempo, até então pura especulação filosófica, e introduziu um conhecimento com dados cientificamente verificáveis. Em outras palavras, Newton fez ciência negando o conhecimento errado.

 

É evidente que Newton, da mesma forma que ocorreu com muitos outros que contribuíram para o desenvolvimento das ciências, não ficou livre de manter outros conhecimentos errados, como a ideia de que o cosmos seria inerte, apenas o cenário imóvel no qual os eventos do universo seriam exibidos. O problema da teoria de Jessé consiste em que, mesmo a parte do conhecimento de Newton que se tornou ciência para “esclarecer o mundo”, também serviria para “encobrir a realidade”.

 

Ou seja, repetindo, confunde “ciência” com “conhecimento”. Newton tinha um conhecimento parcial dos cosmos. Uma parte de seu conhecimento demonstrou estar de acordo com aquela realidade, ser científico, enquanto outra continuou aferrada ao encobrimento da realidade. Portanto, o que tem aquele “caráter bifronte” é o conhecimento.

 

O desenvolvimento do conhecimento científico, ou a transformação do conhecimento errado em ciência, tem se confrontado sempre com essa dualidade, tanto no estudo da natureza quanto no estudo da sociedade. Compreender essa dualidade contraditória do conhecimento na busca da ciência é um dos desafios mais importantes do atual estágio da luta de classes, não só no Brasil, mas em quase todo o mundo.

 

As lutas de classe, na diversidade de seus diferentes aspectos econômicos, sociais e políticos, demandam conhecimentos científicos de diferentes tipos, a começar pelos métodos de investigação, ou de pesquisa, da realidade econômica, social e política. Isto é, de imediato nos coloca frente a frente com o conhecimento filosófico, já que o núcleo dos métodos científicos continuou adstrito à filosofia, e é a base para a investigação ou pesquisa em qualquer das ciências naturais e sociais.

 

Newton e muitos outros cientistas não tinham (e não têm) noção clara a respeito das diversas relações existentes entre o conhecimento e a realidade. Isto é, nem sempre concordam que:

 

a) nosso conhecimento é reflexo (sempre parcial) da base material (natureza e sociedade) em que vivemos;

 

b) esta base material, assim como os próprios pensamentos que procuram conhecê-la, estão sempre em movimento (são históricos), em virtude de suas contradições internas e externas;

 

c) essas contradições, à medida em que se desenvolvem, incluindo a ação consciente e inconsciente dos humanos, tendem a transformar as formas daquela base material (natureza e sociedade) em outras formas;

 

d) as novas formas surgem embrionariamente nas antigas, mas só as substituem quando as antigas desenvolveram toda a sua potencialidade, criando as próprias condições para sua substituição pelas novas.

 

O conhecimento desses aspectos do método (lógico e histórico) do desenvolvimento da realidade, em suas diferentes formas, é fundamental para a apreensão do conhecimento científico. Se Newton tivesse uma noção clara dele, e de como utilizá-lo em suas pesquisas, provavelmente não teria defendido um cosmo inerte.

 

Poderia ter afirmado que o espaço e o tempo são partes da matéria cósmica em movimento, e que estão estreitamente relacionados, como uma totalidade em unidade e oposição, desenvolvendo-se desigualmente.

 

É lógico que teria tirado a vez de Leibnitz, Einstein e outros, mas o conhecimento humano sobre o universo poderia estar mais avançado. No caso de Jessé Souza, talvez ele pudesse ter trabalhado, em sua A Tolice..., a noção de superação do capitalismo, partindo do pressuposto científico de que tudo que existe, inclusive essa formação econômico-social, como as que a precederam, é datada.

 

Por suas próprias contradições internas, na melhor das hipóteses, a formação capitalista deve ser suplantada por outra formação que aproveite todos os seus avanços técnicos e científicos e permita a toda a humanidade usufruí-las. Na pior das hipóteses, a formação capitalista pode ser totalmente destruída, levando consigo a humanidade.

 

Portanto, se falamos em luta de classes no momento em que o modo de produção, circulação e distribuição capitalista alcançou uma globalização quase completa, o Brasil dentro dela, não podemos fugir de encarar a necessidade de tratar cientificamente tais assuntos, como forma de superar os conhecimentos incompletos e/ou errados a respeito.

 

Leia também:

 

Pensando a longo prazo – VI

 

Pensando a longo prazo – V

 

Pensando a longo prazo – IV

 

Pensando a longo prazo – III

 

Pensando a longo prazo – II

 

Pensando a longo prazo

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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