Deficiente é a sociedade!

 

 

 

 

Escritor e conferencista, as palavras são a matéria-prima de minha vida. Como observou Machado de Assis, “as palavras têm sexo. Amam-se uma às outras. Casam-se”. E acrescento: têm ideologia, não são neutras.

 

Há palavras e expressões que, com o tempo, desabam do paraíso ao inferno. São rejeitadas pelo crivo implacável do politicamente incorreto. Porque estão impregnadas de preconceitos.

 

Na minha infância, chamava-se aleijado quem tivesse uma deficiência física que lhe dificultasse a mobilidade. Depois, deficiente físico. Em seguida, portador de deficiência física. Mais tarde, pessoa portadora de necessidades especiais.

 

Ora, toda a terminologia do parágrafo acima recai sobre a caracterização do indivíduo, quando deveria caracterizar a sociedade. Ela é a deficiente, pois torna esse indivíduo um ser com dificuldades de interação e integração, em especial quando lhe faltam equipamentos sociais que lhe facilitem atividades e mobilidade.

 

Cadeirantes e caminhantes (outras palavras equivocadas!) são, perante a lei, iguais em direitos. Há, porém, uma diferença. Por serem portadores de uma anomalia física, cadeirantes possuem também direitos especiais (rampa de acesso, estacionamento, toalete amplo etc.) que eu não possuo. Ou melhor, possuo enquanto idoso.

 

Não seria mais adequado deslocar a terminologia da limitação física para a sociedade? Ela, sim, é que transforma a diferença em restrição e preconceito. Sugiro, portanto, que sejam chamadas de pessoas portadoras de direitos especiais. Como o são também idosos, indígenas, LGBTod@s etc.

 

Quem sabe, assim, a sociedade deixe de encará-las como problema, quando o problema reside na falta de equipamentos sociais e garantias de pleno usufruto de seus direitos, os universais e os especiais.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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