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Estados Unidos: resistir à onda policialesca Imprimir E-mail
Escrito por Nicole Colson   
Terça, 19 de Julho de 2016
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A morte de dois homens negros pelas mãos da polícia – Alton Sterling em Baton Rouge, Louisiania, e Philando Castile em Falcon Heights, Minnesota – horrorizou o mundo e manifestantes saíram às ruas em grande número em todo o país para proclamar que as vidas negras também têm valor.

 

Com a mesma rapidez, um homem que matou 5 agentes da polícia e feriu outros mais em Dallas, Texas, durante uma manifestação do movimento Vidas Negras Valem (Black Lives Matter - BLM, em inglês), deu aos meios de comunicação e às autoridades a oportunidade de retirar a atenção sobre a epidemia de violência policial para culpar aqueles que foram protestar. Micah Xavier Johnson, um veterano afro-americano que serviu no Afeganistão, abriu fogo contra a polícia durante uma marcha da BLM em Dallas no último 7 de julho. Não há evidência, incluindo a confusão imediata que rodeou o ataque, de que Johnson estivesse conectado com o protesto.

 

Mas as autoridades imediatamente utilizaram a oportunidade para difamar o movimento, sugerindo que o ataque era parte de um plano coordenado com a participação de ao menos quatro franco-atiradores, como a polícia afirmou inicialmente, e os meios de comunicação avidamente repetiram.

 

Logo, líderes políticos e comentaristas conectaram o movimento dos protestos contra o acosso e a violência racista da polícia ao tiroteio em Dallas, e demarcaram que o BLM aceitara algum tipo de responsabilidade pelo ataque de Johnson.

 

Como era de se esperar, o The New York Times advertiu que o “BLM enfrenta agora talvez a maior crise de sua curta história. Está tratando de distanciar-se do franco-atirador afro-americano de Dallas que saiu a matar policiais brancos, ao mesmo tempo em que tenta refutar o coro de que detratores os acusam de inspirar este ataque mortal”.

 

Certamente, nem o New York Times nem ninguém em posições de poder fazem o mesmo, ou seja, o chamado à polícia a fim de aceitar responsabilidade pública e coletiva pelos assassinatos que ocorrem várias vezes ao dia, em todo o país, pelas mãos dos seus agentes. Nesses casos, dizem se tratar de uma “maçã podre”, um “caso isolado”. Chris Cuomo, da CNN, teve o descaro de perguntar a Valeria Castile, mãe de Philando Castile, sobre sua reação aos eventos de Dallas, sem se incomodar em fazer uma só pergunta sobre a perda do filho ou sobre o terrível vídeo gravado enquanto ele agonizava.

 

A mãe afligida respondeu: “Eu? Não sei nada do que aconteceu em Dallas. Meu filho morreu outro dia e eu não durmo há mais de 48 horas. Por isso não sei, não assisti televisão e não posso responder a essa pergunta. Ninguém se aproximou de mim no que concerne a Philando. E outra: desde que meu filho morreu assassinado, executado pela polícia de Minnesota, ainda não pude ver seu corpo”.

 

***

 

As arrebatadoras imagens das mortes de Sterling e Castile, o primeiro enquanto rendido na calçada, e o segundo em seu carro enquanto sua namorada e filha de 4 anos de idade observavam, trouxeram à tona a cada vez mais diária realidade da violência racista da polícia. Suas mortes, a um dia e mil milhas de distância, foram imediatamente unidas na mente de pessoas em todo o mundo e provocaram a onda de protestos supracitada.

 

A maioria dos manifestantes foi chamada improvisadamente, aos poucos, por ativistas seguindo seu instinto de querer falar contra o terror policial. Os manifestantes saíram às ruas em cidades de todo o país. De Portland, Oregon, onde milhares se reuniram no centro da cidade, a Portland, Maine (cidade de mesmo nome em outro estado), onde centenas protestaram em frente a um quartel da polícia.

 

Em Oakland, Califórnia, onde recentemente acusações de abuso sexual e racismo conduziram à demissão de três chefes de polícia em questão de pouco mais de uma semana, mais de 2000 pessoas marcharam, na maior demonstração de força do movimento BLM contra a violência policial em muitos meses. Em um dado momento, um grupo de manifestantes bloqueou a estrada interestadual 880 e formou uma parede humana.

 

Em Chicago, centenas assistiram a várias manifestações, onde depois de marcharem através do festival “El Gusto de Chicago”, os participantes começaram a bloquear intersecções de vias.

 

Em Portland, Oregon, o protesto atraiu milhares, mas os manifestantes se viram obrigados a fugir, por questões de segurança, quando um “ativista” da direita local, Michael Strickland, repetidamente tentou provocar socialistas e esquerdistas e sacou uma arma contra os manifestantes antirracistas.

 

Houve milhares nas ruas de Nova York, incluindo a jovem de 16 anos, Lotoya Francis, que disse à revista Time: “Este é o novo movimento por direitos civis, e quero ser parte disso. Estamos muito mais enojados (com a violência do Estado e das polícias) desta vez”.

 

Apesar da narrativa dos meios de comunicação a descrever o movimento BLM como uma ameaça à paz, os manifestantes encontraram partidários entre os espectadores. O chicaguense Greg Tully, cujo carro ficou parado no trânsito dos bloqueios da Avenida Michigan, saiu de seu veículo para observar a marcha. “Eu posso esperar”, disse Tully ao Chicago Sun-Times. “Creio que isto é mais importante do que alguém chegar a tempo em algum lugar. Estão lutando por reconhecimento”.

 

Em St. Paul, centenas rodearam a mansão do governador, ocupando a rua por 9 dias com uma faixa  colocada em todas as portas de casas da região proclamando: “Justiça para Philando”. Na noite de 9 de julho, as manifestações ocuparam a estrada interestadual 80 e enfrentaram os agentes antidistúrbios. Como era de se esperar, a polícia culpou “agitadores externos” pelos protestos.

 

Em Louisiania, o sargento Don Coppola, porta-voz da polícia, disse em comunicado: “Parece que o protesto na Delegacia da Polícia de Baton Rouge ficou mais violento ao passo que chegava mais gente de fora”. Mas segundo Darren Bowers, cuja noiva Ariel Bates foi uma das detidas, a polícia antagonizou a multidão. “Ela me disse que eles saltaram sobre ela e sua prima na calçada”, disse Bowers ao Chicago Tribune. “Não estavam na rua nem nada. Estavam protestando de maneira pacífica. Para que eles têm uma equipe antidistúrbios então?”

 

***

 

A polícia pôde passar para a ofensiva em Baton Rouge e em todo o país graças à matança perpetrada por Micah Johnson em Dallas, tornando-a em um ato vinculado ao BLM.

 

A polícia de Dallas afirmou inicialmente que até quatro franco-atiradores estavam envolvidos. A polícia deteve três pessoas, antes de silenciosamente deixá-las ir. Como Steven Rosenfeld escreveu para a Alternet sobre a cobertura dos meios de comunicação, “a mensagem foi o estereótipo de uma conspiração de franco-atiradores negros fortemente armados, lançando uma versão doméstica de guerra racial”.

 

Somente mais tarde as autoridades reconheceram que houve só um atirador, Johnson. Em seu parecer, a polícia disse que ele apenas queria “matar brancos, sobretudo policiais”. Johnson foi morto pelas Forças Especiais de Dallas, que utilizou uma bomba detonada por um robô.

 

Apenas questionada pelos meios de comunicação, a morte por controle remoto de Johnson representa uma alarmante escalada de militarização da polícia. E se a polícia tivesse usado o mesmo método contra os outros três supostos franco-atiradores que no final eram totalmente inocentes? “O fato de que a polícia tenha armas como esta, e outras como drones e tanques, é um exemplo da militarização da polícia e da aplicação da lei, e esta direção está equivocada”, disse a ex-presidenta do Grêmio Nacional de Advogados, Marjorie Cohn, para a Common Dreams.

 

Enquanto isso, os meios de comunicação falaram pouco sobre o fato de que Johnson era um veterano de guerra que serviu no Afeganistão. Na era da “guerra contra o terror”, a violência imperialista dos Estados Unidos vai aos poucos chegando em casa, sendo as famílias dos ex-soldados, e especialmente os veteranos de guerra, suas vítimas.

 

Do mesmo modo, os comprovados fatos de assédio e violência racista da polícia foram retorcidos mais além do reconhecimento. Um péssimo artigo do Washington Post informou que Philando Castile havia sido parado pela polícia pelo menos 52 vezes nos últimos anos, e ainda teve o descaro de perguntar: “Foi pelo perfil racial?”

 

“Johnson recebeu pelo menos US$6,588 em multas, ainda que mais da metade de um total de 86 violações foram descartadas segundo documentos judiciais”, reportou o artigo do Post. “Foi Castile um péssimo motorista que teve má sorte? Ou foi discriminado por oficiais que singularizam os condutores negros como ele, para pará-los, como vários dos membros de sua família alegaram? Talvez nunca saibamos a resposta”.

 

É sério? Nunca saberemos? Milhões de pessoas nos Estados Unidos conhecem a resposta. Philando Castile foi vítima de racismo, assim como Alton Sterling, igual a Freddie Gray, Tamir Rice, Sandra Bland, Ramarley Graham, Laquan McDonald e tantos outros através do país.

 

A morte de cinco agentes de polícia em Dallas não muda o quadro. Como Diamond Reynolds, a namorada de Philando Castile que o viu morrer diante de seus olhos, disse à Cuomo, mostrando uma incrível moderação: “Isto é maior que Philando, maior que Trayvon Martin, maior que Sandra Bland, maior que todos nós. Hoje, só quero justiça para todos”.

 

De fato, na própria conta do Washington Post, 512 pessoas foram baleadas e assassinadas pela polícia nos EUA em 2016, 24 casos a mais este ano do que no mesmo período do ano passado. Como o jovem manifestante de 16 anos, Brian Cuchanan, disse ao Times enquanto marchava contra a brutalidade policial em Nova York na semana passada: “O tiroteio em Dallas é uma tragédia, mas também o é sair da sua própria casa e não se sentir seguro ao caminhar pelas ruas”.

 

***

 

Buchanan fala por todos os que têm se levantado contra a violência racista da polícia. Mas, agora, uma campanha de difamação em processo tenta etiquetar o movimento BLM de racista contra os brancos.

 

Por exemplo, a página de internet direitista Drudge Report anunciou com um grande título: “As vidas negras matam”. O New York Post fez eco com o título: “Guerra civil”.

 

Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, qualificou o movimento BLM como “inerentemente racista” e “antiestadunidense”, em uma aparição na Face the Nation, programa jornalístico da CBS. Giuliani tratou de minimizar a importância da brutalidade policial racista, alegando que o verdadeiro problema dos Estados Unidos é a “violência entre os negros”. “O verdadeiro perigo para as crianças negras”, disse Giuliani, inventando uma estatística, “é que em 99 de 100 casos será outro negro que vai matá-las”.

 

Pior ainda foi o locutor de rádio, membro do Tea Party e ex-membro do Congresso, Joe Walsh, que saiu nas redes sociais ameaçando com violência não só o movimento BLM, mas a Barack Obama. “Agora, isto é uma guerra”, escreveu Walsh. “Tenha cuidado Obama. Tenham cuidado os vândalos do BLM. A verdadeira América cairá sobre vocês”.

 

Se Walsh fosse negro e o presidente a quem ameaçou fosse branco, já estaria na prisão. Mas não estaríamos falando da “verdadeira América”, pela qual Walsh quer dizer que sejam os Estados Unidos racistas.

 

Depois da morte dos policiais em Dallas e a furiosa reação que sobreveio, necessitamos mais do que nunca lutar contra o ataque ideológico que amplifica a narrativa dos “valentes” policiais que “põem suas vidas na linha de frente” em busca de silenciar os que demandam justiça para Philando Castile e Alton Sterling.

 

Na realidade, a tarefa da polícia nem sequer aparece na lista dos dez trabalhos mais perigosos dos Estados Unidos. De acordo com estatísticas do FBI, 2015 foi, junto ao ano de 2008, o segundo mais seguro para os policiais, um recorde.

 

***

 

O slogan repetido nos meios de comunicação, “as vidas azuis valem” (azul em referência ao uniforme dos policiais nos EUA), está desenhado para fazer com que as vidas negras valham menos. Como Natasha Lennard escreveu na revista Rolling Stone:

 

“Na mesma semana em que milhares de pessoas como nós saímos às ruas para insistir que uma vez mais as vidas negras têm valor, os acontecimentos em Dallas forçaram a extração de um número de falsas equivalências. A primeira delas é que se dizemos que as vidas negras valem, temos que dizer o mesmo das vidas azuis”.

 

“Não vou repetir esse mantra porque não precisa ser dito. Sabemos disto porque a morte de cinco agentes policiais nesta semana provocou a imediata resposta do presidente, assim como o assassinato de dois agentes em Nova York em 2014. Dessa forma, reluz quando vale. Se bem as declarações do presidente no início da semana sobre a morte de Alton Sterling e Philando Castile foram sentidas, dezenas de homens negros desarmados são assassinados por policiais sem um comentário presidencial. Por exemplo, a polícia dos Estados Unidos matou mais de 100 homens negros desarmados só no ano passado. O fato é que há mortes demais como essas para Obama falar sobre todas, uma por uma; e isso faz com que tais vidas pareçam não terem valor para a sociedade.

Os comentaristas e políticos que convenientemente ignoram as mortes de Sterling e Castile e de tantas outras vítimas da brutalidade policial, ou pior ainda, sugerem que as vítimas de alguma forma “mereceram”, deveriam ser denunciados em termos mais fortes e claros”.

 

Castile, Sterling e as centenas de outros assassinatos pela polícia neste ano não morreram porque não cumpriram com as ordens policialescas prontamente, ou porque resistiram, ou porque foram hostis ou rudes com a polícia. Suas mortes podem ser atribuídas a um sistema no qual a repressão policial anda de mãos dadas com o racismo e a discriminação.

 

Nos próximos dias e semanas, nós que nos opomos ao racismo e à brutalidade policial teremos que trabalhar ainda mais duro para construir o movimento e combater as calúnias dos que dizem que nós, não eles, estamos promovendo a violência.

Nicole Colson escreve para o Socialist Worker.

Tradução ao espanhol de Orlando Sepúlveda e ao português de Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

 

Anatomia de um golpe fracassado

Presidente turco soube mobilizar, além de sua base islâmica, juventude urbana contrária à quartelada. Tenentes que tentaram assumir poder cometeram erros grosseiros. Sua vitória seria trágica. Além disso, o país continua à deriva de um sistema político autoritário, de viés islâmico, e diversos parlamentares oposicionistas parecem em vias de enfrentar processos judiciais – ou prisão – por opiniões expressas em discursos.

David Barchard

Ser acordado à meia noite por notícias de uma tentativa de golpe era provavelmente a última coisa que alguém poderia esperar na Turquia, numa sexta-feira. Sim, concorda-se em geral que o país está em situação política delicada, enfrentando desafios armados do Daesh (Estado Islâmico), dos militantes curdos e, segundo o governo, de um movimento dirigido por um clérigo exilado, que vive desde 1999 na costa leste dos Estados Unidos. Além disso, continua à deriva de um sistema político autoritário, de viés islâmico, e diversos parlamentares oposicionistas parecem em vias de enfrentar processos judiciais – ou prisão – por opiniões expressas em discursos.

Mas quando, por volta das onze da noite, o primeiro-ministro Binal Yildririm anunciou que uma intentona estava aparentemente em curso, a incredulidade foi geral. Os militares já dominaram a vida do país, uma força pretoriana que os políticos institucionais não puderam (ou talvez não quiseram) enfrentar. Mas quando os islâmicos chegaram ao poder, em 2002, os militares não se levantaram – apesar de sua evidente contrariedade. E entre 2008 e 2012, seu poder foi reduzido por meio de uma série de prisões e processos por conspiração. O próprio presidente Erdogan, ao final, envolveu-se na disputa.

Testemunhei o último grande golpe militar na Turquia, em 12 de setembro de 1980. Foi anunciado um pouco antes da alvorada. Sua organização e desdobramentos foram planejados com extremo cuidado. No momento da deflagração, os políticos já haviam sido presos e afastados. A lei marcial entrou em vigor imediatamente, em todo o país. Uma junta foi anunciada e empossada. Havia tanques em todas as esquinas e um toque de recolher geral.

Acima de tudo, o golpe militar de 1980 ocorreu num momento em que a política do país estava completamente bloqueada; a economia em ruínas; os cidadãos comuns pediam um governo forte e estabilidade – por isso, aceitaram a mudança, ao menos num primeiro momento, com grande alívio; inclusive porque os militares sublinharam que tudo estava ocorrendo “dentro da cadeia de comando”.

Nada disso ocorreu agora. Os organizadores agiram, estranhamente, no final da noite, ao invés do início da madrugada. Não foram capazes de bloquear a TV e as mídias sociais. Assumiram o controle de alguns pontos – as pontes que cruzam o Estreito de Bósforo – mas fracassaram quando tentaram bloquear a estação terrestre de satélites Gölbsi, na periferia de Ankara. Por isso, a população pôde saber que 42 pessoas foram mortas, na batalha pela estação. Os golpistas parecem não ter prendido políticos – muito menos o presidente e o primeiro-ministro.

Eles também não tinham a aparência de legitimidade que nasce, na Turquia, do controle da cadeia de comando. O chefe do comando geral, general Hulusi Akar, foi capturado e preso. Muitos outros generais recusaram-se a se somar ao golpe. Em uma ou duas horas, estavam emitindo apelos contra a quartelada. Parece que a força aérea, normalmente considerada o braço mais radical dos militares, não se envolveu, e os líderes do golpe eram oficiais com grau de coronel ou inferior – inclusive um conjunto de tenentes, muito jovens para terem peso no exército. Tentaram tornar pública a declaração de constituição de uma junta, denominada “Conselho de Paz”, que, no entanto, não tinha assinaturas. Falou-se em lei marcial, mas ela não chegou a ser implantada.

Tornou-se claro, ao contrário, que os golpistas enfrentavam oposição não apenas dos 50% do eleitorado turco – islâmicos conservadores – que apoia o presidente Erdogan, mas também de liberais e da classe média que se opõem fortemente a ele. Os jovens turcos cresceram com memórias – às vezes narrativas exageradas – do golpe militar de 1980, da repressão contra a esquerda que veio em seguida, dos julgamentos em massa, da tortura e das mortes sob tortura. Os militares, vale dizer, promoveram uma liberalização da economia, mas a memória de sua aspereza persiste. Ninguém atiraria flores aos tanques turcos, num golpe deflagrado hoje.

E, na Turquia de 2016, o clero islâmico também joga um papel mais aberto que no passado. Nas primeiras horas da manhã de sábado, os minaretes e as mesquitas emitiram um chamado especial à oração, chamando os fiéis a defender a pátria.

O presidente Erdogan, em férias num hotel em Marmaris, costa sudoeste, retomou rapidamente a iniciativa, apesar da falta de apoio em seu entorno. Deu entrevistas à TV, usando a câmera de seu celular – e no meio da noite havia encontrado um pequeno avião para levá-lo de volta a Istambul.

O fato de ele poder fazer tal viagem em meio a uma tentativa de golpe revela a falta de planejamento e a aparente falta de apoio dos golpistas, entre o conjunto dos militares. Boa parte do exército e toda a força policial (na Turquia, uma instituição em geral pró-islâmica) permaneceram leais ao governo. Houve banho de sangue em escala considerável – 265 pessoas morreram até agora, em conflitos em Ancara e Istambul. Houve bombardeios nas proximidades do palácio presidencial, matando cinco pessoas, e a Grande Assembleia Nacional também foi alvejada.

O primeiro-ministro Yildririm diz que mais de 2800 oficiais foram até agora detidos, entre eles cinco generais. A agência turca de notícias, dirigida pelo governo, diz que dez membros do Conselho de Estado, a instância administrativa mais alta, foram presos, e mais de 2700 juízes foram removidos. Novas prisões e julgamentos inevitavelmente virão. É mais provável que, em vez de se diluir, a tendência ao autoritarismo se aprofunde.

Mas a Turquia livrou-se de um governo militar, dirigido pelo que teria sido provavelmente um regime de jovens oficiais – ou, ainda pior, um mergulho provável em guerra civil entre apoiadores e oponentes do governo eleito –, num momento em que ainda luta de modo áspero contra o terrorismo.

David Barchard é escritor e jornalista focado nos aspectos gerais das relações turco-europeias ao longo dos últimos.

Originalmente publicado na Prospect Magazine.

Tradução de Antônio Martins, do Outras Palavras.

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Última atualização em Sexta, 22 de Julho de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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