Brasil-Estados Unidos – interesses na situação do Irã

 

 

 

 

Em seus primeiros meses de gestão, Barack Obama, malgrado os efeitos da crise econômica recebida de George Bush Jr., desfrutava de boa popularidade entre os governantes ocidentais, em especial os sul-americanos.

 

Dois deles chamaram-lhe de maneira positiva a atenção: Michelle Bachelet, do Chile, e Lula da Silva. O motivo era a afinidade com os ideais liberais, inesperada caso se acreditasse que a sigla a que ambos pertenciam – respectivamente, socialismo e trabalhismo – fosse de fato observada.

 

Em entrevista no final de junho de 2009 na Casa Branca, o presidente mencionou que Lula da Silva, apesar de a origem política vir do sindicalismo e, por conseguinte, ser considerado um dirigente de extrema-esquerda, havia sido bastante pragmático, ao ter implementado, na sua visão de mundo, reformas de mercado que haviam proporcionado prosperidade ao Brasil - http://www.presidency.ucsb.edu/ws/?pid=86323.

 

Em acréscimo à postura vigente destes países da América do Sul, o corifeu estadunidense enfatizou que a pauta concernente à democracia, direito de propriedade, economias de mercado e primado do direito não era exclusiva dos Estados Unidos, mas, sim, das comunidades por meio das quais ela era estimada como uma forma perspicaz de afluência. Portanto, não havia dúvida da conexão ideológica entre os gigantes do continente americano.

 

Divergências naturalmente existiam entre ambos, mas no tocante à intensidade de um determinado tópico, como era o caso do Irã que, em função do regime de feitio teocrático desde 1979, passaria a manter uma prevenida distância dos Estados Unidos e de seus aliados do Oriente Médio, mas não do Brasil.

 

Entretanto, a discordância entre a Casa Branca e o Planalto sobre aquela sociedade não impedia manifestações aproximadas sobre assuntos do cotidiano persa, embora por diferentes motivos no que dizia respeito à prioridade – um por segurança regional; o outro por economia.

 

Interessado em beneficiar-se também dos reajustes expressivos do petróleo na época, o Brasil buscou avivar-se com o polêmico país - de modo excepcional, 2009 foi momento de baixa significativa do produto, se estimado o período de 2004 a 2014.

 

Ao cabo do último ano da gestão de Fernando Henrique Cardoso (2002), as exportações ao mercado iraniano não chegaram sequer a meio bilhão de dólares. Em 2010, derradeiro ano da administração de Lula da Silva, elas superariam os dois bilhões, não obstante o relativo declínio em 2008 e 2009 – pouco acima de um bilhão. O nível promissor ainda seria mantido até a primeira metade do mandato de sua sucessora, Dilma Rousseff - http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/balanca-comercial-brasileira-mensal-2?layout=edit&id=1210.

 

Diante do quadro daquela fase, Brasil e Estados Unidos discordariam sobre a fidedignidade do resultado do processo eleitoral do Irã, visto que a Casa Branca aludiria com cautela à parcela da população local descontente com a lisura do pleito, questão reconhecida de maneira parcial pelo próprio Conselho Guardião da Constituição. Mesmo assim, Barack Obama reconheceria o triunfo de Mahmoud Ahmadinejad.

 

Ele havia sido declarado reeleito, com mais de 60% dos votos. Todavia, manifestações contrárias à vitória ocorreram e a postura do governo foi a de reprimi-las à virga férrea. O desdobramento seria o registro de dezenas de mortos e centenas de encarcerados, ao menos, nas semanas seguintes -  https://www.theguardian.com/world/blog/2009/jul/29/iran-election-protest-dead-missing. No tocante à violência, os dois dirigentes lamentaram-na.

 

Em escalas diferenciadas em termos econômicos, Brasília e Washington desejavam a proximidade com Teerã, um dos principais parceiros deste até 1979. Do ponto de vista norte-americano, a questão era mais difícil, haja vista o ressentimento mútuo em decorrência das consequências da Revolução Iraniana, momento em que a geopolítica médio-oriental alterou-se de modo abissal. Com o encerramento da Guerra Fria, houve avanços, mas a desconfiança recíproca ainda prevalece até os dias de hoje.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

 

 

 

 

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