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Ode a Éder Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito   
Qui, 14 de Julho de 2016
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O primeiro título, como visitante, ante sua maior legião imigrante, contra o favorito, time do artilheiro e destaque do torneio. Gol de um herói improvável para adornar todo um épico digno de Camões e um Portugal que já conquistara o mundo bem antes de existirem as Copas.

 

Um time que se renovou e chegou à fase final do Campeonato Europeu de Seleções sem grandes pretensões, ainda que seu treinador Fernando Santos tenha dito em amistoso vencido pelos franceses em 2014: “preparem-se para jogar aqui de novo”.

 

Não se trata de utilizar o momento para afirmar que agora “o futebol respira”. Sempre o faz, seja com o ar de Pequim ou das montanhas do Tibete que agora descobriu na commodity respiratória um bom caminho para o reatamento com a potência.

 

O título português não tem lógica nenhuma. A comparação com a Itália copeira é tentadora, mas tirar o zero em domínio alheio é uma circunstância muito pouco contornável.

 

De repente, pensar nesta especificidade deu alguma senha, se pensarmos bem.

 

A primeira Euro realizada nos moldes das Copas de 1982-1994, com toda a receptividade da nova fórmula, alterou o manual de escalada de quem aponta para o cume da montanha.

 

Classificar-se em terceiro sem vitória já rendeu grandes e traumáticos frutos no futebol.

 

O mais impressionante é que os primeiros 20 minutos davam uma única indicação: atropelo, Griezmann artilheiro e mais uma vez a França a impor sua força local.

 

Cansamos de criticar a dinâmica dos jogos, deveras espelhados e previsíveis, a ponto de até compararmos ao handebol. No meio, uma mídia que martela de forma incansável sua narrativa de heróis escolhidos antes do desfecho.

 

A semifinal entre Portugal x País de Gales não foi celebrada pelo avanço de duas armadas precárias e desprovidas de qualquer virtuosidade. Dizem que foi o duelo de dois craques do Real Madrid que levaram seus times até lá, ainda que as batalhas anteriores não tenham fornecido tantos elementos a comprovar a tese.

 

Posto isso, chama mais atenção, ao menos para alguns, que o time mais limitado tenha passado o primeiro quarto de tempo perdendo todas as divididas, a contrariar qualquer roteiro dos “underdogs”.

 

Em uma dessas, a estrela maior é moída entre dois franceses famintos. Tenta se manter, mas acaba por sair. “Não pode, tem que ficar com uma perna em campo!”, bradamos na sala de estar.

 

Payet pareceu deprimido pela dividida que tirou Cristiano do jogo e, depois de 20 minutos esfuziantes pela ponta esquerda, desaparecia para nunca mais ser visto.

 

O tempo passava e uma juventude que não chegou a atravessar o oceano em 2014 mostrava sua cara. A defesa se assentava e Nani assumia o papel que muitos acreditaram estar reservado à sua estadia em Manchester, para onde fora contratado com a finalidade de duplicar o poder do cristianismo.

 

Por alguma razão insondável, o time do capitão de última hora da vitória francesa em 1998 esfriava em campo e as ameaças quase sumiam do radar. “Um centroavante!” era a última pedida de cada treinador.

 

Gignac teve a bola na trave de Rensenbrink em Buenos Aires para lamentar até seu último suspiro. E a esquadra rubro-verde confirmava seu sexto empate.

 

No tempo extra, aquele que entrou com o desespero de quem sabia estar desfrutando da melhor hora da vida ganha todas as suas partidas individuais e empurra seu time adiante.

 

Impressionante como o pouco cotado Éder, palíndromo de rede, entrou em campo sedento e consciencioso do tamanho da oportunidade que a vida lhe atirava na cara. Por cima e por baixo, ganhava todas as bolas dos bleus, cuja condição física chegou a parecer imbatível em momentos como quando Sissokho e Pogba embalavam suas carreiras e armavam o time.

 

Mas participar de tantos mundiais e europeus deu alguma matreirice aos portugueses, que souberam diminuir o nível das ameaças. Cada um a fazer sua parte, de acordo com os próprios limites, com o providencial frescor de Renato Sanches, João Mário, Raphael Guerreiro e cia.

 

Quando a prorrogação já se encontrava naquele momento em que ninguém mostra a pretensão de chamar a responsabilidade, surge a fenda perfeita, o momento em que a cancha se abre para que um Viola no Brinco de Ouro em 1988 reapareça na história do futebol. O melhor em campo, cujo espírito sobrava ante as almas penadas e extenuadas, arranca o espaço necessário, tira o chute certeiro e carimba seu passaporte para a glória eterna.

 

Um golaço, a explosão da torcida ilustra o tamanho da surpresa e desata a loucura, sem direito à austeridade.

 

Os minutos finais escorrem sem dramas, a catarse já tinha magnetizado os atletas que apenas cumpriam as ordens do relógio. Não poderia haver reação, Portugal já estava decidido a abraçar a glória de uma vez por todas. A tragédia grega agora jaz noutro colo. E a imortalidade mostra-se uma deusa sem trajes de gala.

 

Leia também:

Aonde estão os imortais?

 

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3.

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