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Pensando a longo prazo – IV Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Qui, 14 de Julho de 2016
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A Tolice da Inteligência Brasileira reitera, em seus capítulos finais, que “os conflitos reais que racham a sociedade contemporânea brasileira” têm por base “a contradição das classes sociais” em relação aos projetos de construção de uma “sociedade para 20%” ou de “um Brasil para a maioria da população”.

 

Ainda segundo ele, a “última década de crescimento econômico brasileiro... foi obra do esforço e do trabalho da parte de baixo da população brasileira, que logrou dinamizar a economia e a sociedade como um todo”. Porém, “os dois pilares da (des)inteligência brasileira colonizam não apenas os que apoiam o Brasil para 20%, mas também os que querem um projeto mais inclusivo”.

 

Ou seja, os dois “projetos” em pauta na sociedade brasileira estariam contaminados pelo “economicismo” e pelas opiniões de “Sérgio Buarque e Raymundo Faoro... os pensadores chaves para compreender o Brasil moderno”. O “economicismo” e o “culturalismo conservador”, “os dois pilares da inteligência brasileira”, seriam “parte importante da tibieza da proposta inclusiva”.

 

Já nos referimos à estreiteza do pensamento de Jessé sobre os “dois projetos”. E teremos que voltar, em comentários posteriores, à ausência de uma caracterização mais precisa do “projeto para a maioria da população”. Mas vale a pena comentar, de imediato, mesmo rapidamente, a adesão do próprio Jessé ao “economicismo”.

 

Ele supõe, como vimos, que a última década de crescimento econômico foi obra do esforço e do trabalho da parte de baixo da população brasileira, que teria logrado dinamizar a economia e a sociedade como um todo. Ou seja, Jessé parece ignorar que todo crescimento econômico, em qualquer época e em qualquer lugar, foi sempre obra da parte de baixo da população. Tanto no escravismo e no feudalismo quanto agora no capitalismo. Supô-lo como algo “inédito” não passa de tautologia, uma redundância.

 

Depois, processos econômicos que dinamizem a economia e a sociedade como um todo (ampliando a participação dos de baixo na produção econômica), especialmente no modo de produção, circulação e distribuição capitalista, dependem também de políticas macroeconômicas, políticas sociais (incluindo educação, cultura, saúde etc.) e por aí afora. E, ainda mais, do nível e da intensidade da luta de classes, o que envolve disputas ideológicas e políticas.

 

É verdade que a “inteligência capitalista”, ou burguesa, acredita que o “mercado perfeito”, e sua correspondente teoria econômica, sejam capazes de resolver todos os problemas de seu desenvolvimento. No entanto, o revolucionamento das forças produtivas, as contradições de classes, e as crises cíclicas e esporádicas do capital, têm mostrado que a economia é, acima de tudo, moldada por relações sociais, cuja análise precisa ser realizada pela “economia política”, não pela simples “economia” ou, menos ainda, pela “econometria”.

 

Assim, não foi por acaso que o Estado ganhou proeminência e se tornou um instrumento estratégico na condução do desenvolvimento capitalista. Isso apesar dos teóricos econometristas do “mercado perfeito” continuarem ativos. Como também não é por acaso que a análise do desenvolvimento capitalista dependa da existência de uma “ciência verdadeiramente crítica”, que não só desmascare “as ideologias que nos fazem de tolos”, desconstrua “a fragmentação míope que a ótica econômica unilateral cria para a percepção do mundo como ele é”, mas também demonstre a “relação entre as classes”, relação que compreende cooperação e luta.

 

Apesar disso, a “ênfase” de Jessé no aspecto relacional, que deveria “esclarecer tanto a exploração de classe escondida sob ‘formas não econômicas... quanto sua justificação e encobrimento... ‘ainda que tenham consequências também econômicas”, é expressão de sua confusão a respeito das relações econômicas e sociais propriamente ditas, e das demais relações (ideológicas, políticas, culturais etc.) contraditórias que os homens estabelecem nas sociedades.

 

As relações econômicas e sociais têm sido essenciais para a sustentação e desenvolvimento das sociedades humanas em sua relação simbiótica com os demais aspectos da natureza. Elas têm sido a base, a infraestrutura, de todas as demais relações, e têm se organizado em torno das relações de trabalho e de propriedade desde que os homens surgiram como espécie. O trabalho, porém, como condição da própria existência dos seres humanos, não parece fazer parte do interesse de A Tolice da Inteligência Brasileira.

 

Nessas condições, para esse texto, tanto faz que a divisão sexual do trabalho (ainda existente em algumas tribos indígenas brasileiras) tenha sido substituída pela divisão social entre proprietários privados de meios de produção e proprietários apenas de força de trabalho. Isso num processo histórico de modificações que passou pelo patriarcado, escravismo, clientelismo, feudalismo e mercantilismo, antes de alcançar o capitalismo.

 

Assim, em todos os casos, o trabalho (produtivo, comercial e distributivo) se tornou obrigação exclusiva dos proprietários de força de trabalho, isentos da propriedade de meios de produção. Mas a apropriação da produção realizada pelo trabalho se tornou o privilégio “justo” dos proprietários dos meios de produção, embora “injusto” para os produtores, mesmo que estes não se deem conta.

 

Essas relações econômicas e sociais contraditórias tornaram-se as relações básicas de todas as sociedades humanas, historicamente formadas como decorrência do desenvolvimento das forças produtivas do ser humano, no curso dos últimos cinco a seis mil anos.

 

Tais relações econômicas e sociais, sempre juntas, em cooperação e em conflito, abrangem a dialética das contradições de classe. Elas têm se refletido nas mentes humanas através de pensamentos, também contraditórios. Os proprietários dos meios de produção não só acham “justos” seus “privilégios” como procuram inúmeros argumentos para convencer os produtores (os “de baixo”, proprietários apenas de sua força de trabalho) daquela “justeza”.

 

Em toda a história da humanidade, desde o momento em que a divisão de classe entre proprietários e não proprietários de meios de produção se estabeleceu, é possível encontrar argumentos culturais, incluindo crenças naturais e religiosas, assim como códigos legais, destinados a fazer com que os pensamentos justificativos da dominação (econômica, social e política) de uma classe sobre outras também se tornassem os pensamentos dos dominados.

 

Ou seja, os pensamentos, ou formas ideológicas, por mais que se diferenciem em função das realidades diferentes que cada classe social vive, são distorcidos pelo fato de as classes que possuem “o poder econômico” terem condições de se impor não só como classes que detêm os “poderes social e político”, mas também como classes que, através de inúmeros mecanismos de difusão de suas ideias, conceitos, pontos de vista, modismos, exercem influência sobre o pensamento de todas as demais classes.

 

O Santo Graal dessa hegemonia tem sido sempre a manutenção, a continuidade eterna, o respeito sacrossanto, à propriedade privada. Este é o verdadeiro pomo de discórdia, nem sempre evidente, entre as classes. A “exploração de classe”, seja nas formas econômicas e sociais, seja nas formas que Jessé chama de “não-econômicas”, tem por base aquela propriedade. Sem tocar nesta questão, tudo o mais sobre a luta contra a “justificação e o encobrimento” da exploração de classe se torna parte da ideologia dominante. Infelizmente, a discussão sobre tal questão está ausente de A Tolice da Inteligência Brasileira.

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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