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“A CPI da Merenda é uma vitória, mas não acredito que os culpados serão punidos” Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Segunda, 11 de Julho de 2016
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Estudantes e professores da rede pública de SP protagonizaram movimentos marcantes em 2015, mas o fato é que a política de austeridade do governo estadual do PSDB continua a alcançar seus objetivos, inclusive auspiciada por seu braço militar. Após o escândalo do desvio de verbas da merenda, que tem até o presidente da Assembleia Legislativa citado, houve nova onda de ocupações, no caso de Escolas Técnicas, encerrada com a instalação de CPI. Sobre toda a conjuntura, falamos com Maria Eduarda Gomes da Silva, secundarista que participou da ocupação da E.E. Antonio Alves Cruz.

 

“Muitas salas foram fechadas, cerca de 1800 em todo o estado. Estão fechando muitos turnos, especialmente os noturnos. A reorganização está acontecendo. Alckmin arrumou um jeito de fazê-la na surdina para desmobilizar, mas quem está todos os dias dentro das escolas percebe. O governador arrumou uma forma de passar por baixo dos panos e nós estamos buscando um jeito de barrar tal política”, explicou.

 

Apesar de uma análise positiva do movimento de ocupação das escolas, uma das grandes surpresas da história recente da política brasileira, Maria Eduarda destaca a dificuldade em superar todos os artifícios da máquina do poder em satisfazer seu desejo de redução da rede pública. Além disso, relata diversos casos de abuso policial nas desocupações realizadas nos últimos meses, inclusive a respeito de ameaças de estupro, tema cada vez mais frequente no debate público brasileiro.

 

“Na verdade, o governo quer impor sua vontade sem perguntar e ouvir. O governador tentou fazer nas escolas um grêmio, pelego, apoiado pelas direções, dentro de padrões que hoje em dia não dão mais certo (...) No ano passado, queríamos a revogação da reorganização e na prática só conseguimos o adiamento. Mas não creio que tenha sido uma derrota. Acho que são vitórias parciais, não tem nada ganho. Eles ainda vão se defender, fazer suas manobras, nós ainda vamos para as ruas porque infelizmente fomos tirados à força, contra nossa vontade e violentamente. A CPI da Merenda foi uma vitória, mas, infelizmente, ainda não tivemos vitórias maiores, apenas alguns passos”.

 

A entrevista completa, realizada em parceria com a webrádio Central3, pode ser lida a seguir.

 

 

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como avalia a onda de ocupações de escolas públicas que começou em São Paulo e ganhou outros estados, a exemplo de Goiás, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: É complicado fazer uma análise do movimento quando ainda está acontecendo. O que aconteceu em 2015 foi algo completamente inesperado e nem os primeiros estudantes a ocupar escolas esperavam uma repercussão do tamanho que houve. Estavam tentando vários meios de se manifestar e não eram ouvidos, até que se tomou a decisão de ocuparem as escolas.

 

A E.E. Diadema foi a primeira escola ocupada. Logo depois, a E.E. Fernão Dias, no que se seguiu uma onda de ocupações. Foi impressionante em 2015. Em 2016, também houve algumas ocupações em São Paulo que ninguém estava esperando.

 

A ocupação é uma tática para conseguirmos algumas melhoras na educação. E são melhoras que estamos precisando. Infelizmente, o ensino público está mais do que precarizado. Nesse sentido, o governo trouxe no ano passado a ideia da “reorganização”. Com a resposta das ocupações, o governador Alckmin prometeu que a reorganização não aconteceria. Mas está acontecendo, com cerca de 1800 salas fechadas.

 

A avaliação que tenho é de ter sido algo novo e inesperado, mas, infelizmente, agora vemos o cerco se fechar cada vez mais, pois o governo e seus representantes já estão mais preparados para combater o movimento dos estudantes. O movimento em si foi muito legal, pois a escola esteve aberta, com aulas públicas para toda a comunidade e realmente fez com que o aluno se sentisse parte da escola, e não somente a visse como lugar onde vai ter aula e depois ir embora.

Correio da Cidadania: Portanto, continua a reorganização escolar, com seus fechamentos de sala e deslocamentos de turmas, por baixo dos panos.

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: Muitas salas foram fechadas, cerca de 1800 em todo o estado. Estão fechando muitos turnos, especialmente os noturnos. A reorganização está acontecendo. Alckmin arrumou um jeito de fazê-la na surdina para desmobilizar, mas quem está todos os dias dentro das escolas percebe. O governador arrumou uma forma de passar por baixo dos panos e nós estamos buscando um jeito de barrar tal política. O ano de 2016 começou com algumas manifestações e ocupações. Por outro lado, também tivemos o referido fechamento de salas e turnos.

 

Correio da Cidadania: Como está a relação com a comunidade escolar, professores, diretores, pais de alunos?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: As direções têm posições um pouco complicadas. Elas não são muito afeitas aos movimentos estudantis. Do meu ponto de vista, vejo que a direção não gosta de alunos que pensam diferente. Neste ano, por exemplo, tentamos fazer uma ocupação e sentimos muito ódio por parte da diretora, assim como em outras escolas.

 

Dos professores é mais difícil falar porque vai de cada um. Na minha escola tem professores que ajudam muito e ficam do nosso lado. Acho que o fato de o professor trabalhar na educação o faz querer as coisas melhores e, assim, nos ouvirem. Fizeram no ano passado a maior greve da história categoria e os alunos estavam com eles. Assim, muitos professores nos apoiam.

 

Há outros que, infelizmente, acabam não nos apoiando e por vezes incitam o ódio contra alunos ocupantes, o que é muito complicado. Tem professor que persegue aluno dentro de sala de aula, muitas vezes por ordem da direção. Sempre há problemas com a direção, que persegue os alunos ocupantes, mas muitos dos professores nos apoiam e estão na luta pela educação conosco.

 

Correio da Cidadania: Como avalia a postura do governo no diálogo com as demandas dos estudantes?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: Com o governo não está havendo nem o mínimo de diálogo possível. Ele diz que quer diálogo, mas não se abre para o diálogo. No ano passado, não abriu quase nenhuma vez. O governo não quer dialogar, exceto quando está desesperado demais. Na verdade, quer impor sua vontade sem perguntar e ouvir. O governador tentou fazer nas escolas um grêmio, porém, infelizmente sabemos que o grêmio criado por ele é pelego, apoiado pelas direções, um grêmio dentro de padrões que hoje em dia não dão mais certo.

 

Correio da Cidadania: O que pode contar da questão da merenda? Tem esperança de que a investigação de desvios a esse respeito marque um ponto de virada?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: Foi uma vitória conseguir a CPI da Merenda, uma coisa que estávamos pedindo muito. Mas não acredito que os políticos que desviaram valores relativos à merenda serão pegos na CPI. Eles vão dar um jeito de se esconder. De qualquer forma, é uma vitória.

 

No ano passado, queríamos a revogação da reorganização e na prática só conseguimos o adiamento. Mas não creio que tenha sido uma derrota. Acho que são vitórias parciais, não tem nada ganho. Eles ainda vão se defender, fazer suas manobras, nós ainda vamos para as ruas porque infelizmente fomos tirados à força, contra nossa vontade e violentamente. A CPI da Merenda foi uma vitória, mas, infelizmente, ainda não tivemos vitórias maiores, apenas alguns passos.

 

Correio da Cidadania: O que pensa da abordagem da mídia sobre as ocupações escolares?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: Normalmente, não acompanho a grande mídia até porque em casa não temos acesso, mas pelo que vejo a realidade é sempre pouco mostrada. Mostra a situação de um modo que permita falar que os estudantes estão agindo mal, contra tudo, e põe as pessoas em pânico.

 

A mídia nunca mostra o que está acontecendo, não aborda o que está fora do discurso oficial. É uma abordagem muito errada para quem deve contar o que realmente está acontecendo. Sempre fica naquele velho estilo sensacionalista, em busca de notícias sobre violência. Raramente mostra o que acontece de verdade.

 

Correio da Cidadania: E o que comenta de alguns movimentos de desocupação de escolas que se viu em alguns locais?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: Fico triste porque acho que as pessoas ainda não conseguiram perceber que, apesar da ocupação e da perda dos dias de aula, não é uma perda total, pois com a ocupação ganhamos mais experiência, fazemos e aprendemos muito lá e nos consideramos peças fundamentais dentro de sala de aula, lutando pela escola pública e tendo liberdade dentro dela. Fico muito triste com essa coisa de apoiarem a desocupação.

 

Acompanhei uma ocupação aqui em São Paulo que teve esse problema, que foi o Emygdio de Barros, onde o período noturno estava violento e agressivo e ia para cima dos ocupantes, que apanharam muito. Houve meninos que saíram desmaiados da ocupação porque os anti-ocupações eram violentos. Acho que muito da violência é incentivada pelo corpo docente da escola. Havia diretores e professores lá que falavam para os caras irem e desocupar na marra. Na minha escola davam um ponto positivo na nota para quem conseguisse entrar e ter aula. E o movimento contra as ocupações começou junto com as ocupações.

 

Na minha escola, logo que foi ocupada, a direção ligou para os pais dos alunos e marcou uma reunião com todos que eram contra para falar sobre o assunto e nem sequer convidaram os ocupantes para que colocassem seu ponto de vista.

 

O pessoal contra a ocupação muitas vezes era agressivo, muito violento, ao ponto de nem querer conversar. Aí a gente conversava e, do lado de lá, alguém falava: “eu concordo com tudo que você falou, mas eu quero ter aula”. As pessoas não entendiam muito o propósito da ocupação, que apesar de impedir as aulas buscava uma melhoria em geral.

 

A educação está precarizada e a gente precisa melhorar de alguma forma. Ocupar escolas foi um jeito que funcionou para chamar atenção. É uma tática muito importante e fico triste de ver pessoas que vivem a mesma precarização que eu não apoiarem as ocupações por conta de algo imediatista. Ainda faltam professores, outros profissionais, há goteiras em todas as escolas e muitas outras coisas. É uma situação bem complicada.

 

Correio da Cidadania: Qual o horizonte dos estudantes a respeito da continuidade desse protagonismo político, em meio a um contexto de crise política, econômica, social e institucional que abala o país?

 

Maria Eduarda Gomes da Silva: No primeiro dia que o Temer assumiu ocorreu uma desocupação superviolenta em vários lugares, tive amigos presentes. Inclusive na minha escola, onde eu estava tentando ocupar e dialogar com as pessoas. Mas foi tudo muito complicado e agressivo. Agora perdemos o momento, porque uma reintegração de posse não precisa mais passar pelo judiciário. Pode ser feita pela polícia sem passar pelo judiciário e a polícia não é nada carinhosa, é superviolenta e comete abusos contra as meninas.

 

Tem meninas que desceram do camburão e foram ameaçadas. Falaram para descer só as meninas e diziam “aquele é o camburão do estupro”. Por conta dessa violência, pelo menos aqui em São Paulo vamos dar um tempo.

 

Por outro lado está tendo a ocupação das universidades, que é uma coisa incrível. A gente queria unificar os movimentos há um tempo e agora temos respaldo. Assim, vemos que a repressão policial é muito forte contra um movimento secundarista que ocupa escolas pedindo melhoras na educação. Mas mesmo com a situação caótica de São Paulo, vamos continuar a luta.

 

Houve um ato que acabou graças à violência policial. Duas meninas foram parar no hospital. Tenho amigas que ficaram dias com a perna inchada por conta do cassetete porque eles bateram. Eu fui atingida por estilhaços de bomba de gás e efeito moral. Infelizmente, é um momento delicado, se você anota o nome do policial ou tira uma foto, ele vai atrás de você depois. Teve um aluno que relatou que um policial disse que o conhecia e ameaçou bater nele. Tem coisas como essas registradas, vivemos um momento muito complicado com todas essas violências, o que fica ainda mais difícil quando não podemos denunciar arbitrariedades e abusos.

 

A repressão passa por cima de vários direitos humanos, do ECA e de mais uma série de coisas. Não há punição para quem comete violação, mas estamos na luta, pois a educação só tende a ser sucateada cada vez mais, se levarmos em conta os cortes orçamentários.

 

Para responder, temos os nossos companheiros e companheiras: estudantes que estão na luta, muitos professores que nos apoiam e agora também os estudantes universitários. Seguiremos tentando fazer nossa voz ser ouvida.

 

 

Áudio da entrevista


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Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3.

 

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Última atualização em Segunda, 18 de Julho de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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