Gaza começa a sair do sufoco

 

 

Durante nove anos, Israel fechou Gaza para o mundo, bloqueando o estreito por terra, mar e ar.

 

Em três guerras, a aviação e as forças blindadas israelenses destruíram hospitais, escolas, fábricas, casas de comércio, usinas elétricas, redes de água e dezenas de milhares de casas.

 

Especialmente depois da última guerra, países europeus e árabes doaram recursos para a reconstrução do estreito.

 

Pouco ou nada se consegue fazer, pois Israel proíbe a entrada de materiais de construção como o concreto, alegando que poderiam ser usados para erguer plataformas de lançamento de mísseis.

 

Resultado: o desemprego em Gaza chega a 60%, a maioria das pessoas depende do fornecimento de alimentos da ONU e desenhava-se uma crise humanitária para os próximos anos.

 

Chocado com essa situação, o cardeal Renato Raffaele Martino comentou em 2009: “observe as condições de Gaza, cada vez mais ela lembra um imenso campo de concentração”.

 

E o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, em 2016, declarou em visita à região: “o bloqueio de Gaza sufoca seu povo, põe sua economia de joelhos e impede os esforços de reconstrução. É uma punição coletiva para a qual deve haver uma responsabilização”.

 

Mas quem irá responsabilizar Israel, protegido pelo veto salvador dos EUA no Conselho de Segurança da ONU?

 

Finalmente uma luz pode ter sido acesa no fim do túnel.

 

Há três anos, a Turquia estava com suas relações diplomáticas rompidas com Israel, desde o assassinato pelos fuzileiros israelenses de 10 ativistas turcos no navio da Flotilha da Liberdade, que levava suprimentos a Gaza.

 

Agora, por interesses geopolíticos, os dois países decidiram reatar seus vínculos.

 

Mas a Turquia fez três exigências:

 

– que Israel pedisse perdão;

 

– que indenizasse as famílias dos mortos em 20 milhões de dólares;

 

– que suspendesse o bloqueio de Gaza.

 

As duas primeiras foram aceitas pelo primeiro-ministro Netanyahu sem maiores problemas.

 

Libertar Gaza era bem mais difícil. No entanto, chegou-se a uma forma conciliadora.

 

O bloqueio continuaria, mas os turcos teriam direito de usar o porto israelense de Asklod para levar a Gaza alimentos, remédios, materiais de construção e outros produtos não-militares.

 

Ao mesmo tempo, a Turquia se obrigava a fazer investimentos na infraestrutura para resolver as crises de água e energia de Gaza.

 

O povo de Gaza voltaria a contar com a água e a energia elétrica necessárias com a construção de novas usinas.

 

E rapidamente, pois uma carga de 10 mil toneladas de água foi enviada já neste 8 de julho pelo governo de Istambul.

 

Além de novas residências, os turcos construiriam um hospital com 200 leitos e novas escolas.

 

O acordo turco-israelense permitiria, ainda, a implantação pelos turcos de grandes projetos na Palestina, inclusive na zona industrial de Jenin.

 

Alguns pontos não ficaram claros, como a abertura dos controles da fronteira para os habitantes de Gaza entrarem e saírem do enclave à vontade.

 

Também resta saber se no futuro os israelenses não introduzirão restrições alegando razões de segurança nacional. O que provocaria um impasse.

 

Difícil, pois Netanyahu quer a preservação do acordo, já que considera que trará grandes vantagens econômicas a Telavive.

 

Ele pretende substituir a Rússia como fornecedor de gás por Istambul. O que também me parece difícil depois do presidente Erdogan ter feito as pazes com Putin, desculpando-se pela derrubada, não intencional segundo o presidente turco, do avião russo na fronteira da Síria.

 

Não há lugar para pessimismo tanto de parte do governo de Istanbul quanto do Hamas, que governa Gaza.

 

Eufórico, Yildirim, o primeiro-ministro turco, declarou à imprensa: “nossos irmãos palestinos de Gaza têm sofrido muito e, com esse acordo, nós tornamos possível que eles respirem aliviados”.

 

O acordo representa uma “vitória diplomática para a Turquia” e tem o apoio do governo da Palestina e do Hamas, disse Khaled Mershaal, chefe do comitê político do movimento.

 

Ahmed Youssef, uma autoridade sênior do Hamas, afirmou ao Middle East Online que o acordo foi um bom negócio que permite à Turquia ajudar tanto aos palestinos quanto a ela própria.


De fato, o governo Erdogan tornou-se o campeão da causa de Gaza, engrandecendo-se junto aos povos árabes e à opinião pública ocidental.

 

O que vem em bom momento, agora que os países civilizados estão olhando torto para ele devido à perseguição que move contra a imprensa independente do seu país.

 

Embora apoiando o acordo, o Hamas lembra que o desbloqueio de Gaza foi parcial. E conta com que a Turquia continue pressionando pela abertura total.

 

Em uma manifestação pública, o Hamas elogiou o presidente turco por “uma longa história de apoio e solidariedade com a Palestina”, esperando que o “protagonismo turco termine com o cerco de Gaza e interrompa as incursões israelenses”. E Khaled Mershal confirmou em Doha que as autoridades turcas garantiram ao Hamas que farão o possível em favor desse objetivo.

 

Já o Fatah, com quem o Hamas disputa a liderança da revolução palestina, demonstra ceticismo.

 

Enquanto o Hamas governa a faixa de Gaza, o Fatah administra (sob controle de Israel) parte da Palestina, através da chamada Autoridade Palestina, presidida por Mahmoud Abbas.

 

Ele acusou seu parceiro de “ignorar as regras diplomáticas entre amigos e ignorar completamente a Autoridade Palestina, ao aceitar o acordo em troca de se manter no governo da faixa”. Hanan Ashrawi, membro do comitê executivo, declarou ao Middle East Online: “Trata-se de um pacto de interesse mútuo entre Turquia e Israel”.

 

A crítica mais séria é que o acordo prejudica a reunificação da Palestina, pois consagra a divisão entre Gaza e a Palestina ocupada por Israel.

 

Agora, Gaza terá de conter suas ações contra o governo de Telavive. Afinal, graças ao acordo, seus principais problemas estarão sendo resolvidos. E a execução deles vai depender do ”bom comportamento” das autoridades do estreito.

 

Enquanto isso, o Fatah ficará praticamente sozinho na luta pela independência da Palestina.

 

E mais: apesar de Israel não participar da reconstrução de Gaza, ela irá gradativamente saindo dos escombros, livrando o governo de Telavive de uma das maiores causas do seu isolamento internacional.

 

Em termos políticos, estas críticas não deixam de ter sua validade. Mas humanamente não se pode negar ao sofrido povo de Gaza a chance de pôr fim ao seu calvário. Ver sua região reconstruída e, assim, todos readquirirem o direito de uma vida, pelo menos, razoavelmente digna.

 

Não se pode continuar a manter os terríveis sacrifícios que o povo de Gaza vem encarando há muitos anos, quando surge uma esperança concreta de emergir do inferno para um mundo melhor.

 

É preciso lembrar ainda que a luta pelo desbloqueio total de Gaza continuará. E com o apoio expresso da Turquia, a quem Israel interessa agradar, suas chances serão maiores.

 

Ainda que o renascimento de Gaza faça cessar as lágrimas que se derrama por ela, os povos do mundo não esquecerão o cerco desumanamente imposto por Israel.

 

Motivo suficiente para que a luta contra o cerco siga ocupando espaço nos “corações e mentes” da humanidade.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o mundo.

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