Brasil-Estados Unidos – a proximidade sem embaraço entre Lula e Obama

 

 

 

 

 

Em meio ao corrente processo de destituição de Dilma Rousseff da presidência da República, sobejam afirmações, como maneira de defesa política de sua iníqua administração, relativas a uma suposta altivez da política externa das gestões trabalhistas ao longo de quatro mandatos ou independência concernente a interesses dos estadunidenses.

 

Na prática, a proximidade entre os dois países, indistintamente da agremiação à frente do poder, tem sido real. Durante a gestão de Lula da Silva, o dirigente democrata, Barack Obama, era elogiado em público pelo brasileiro, como, por exemplo, na época de sua visita a países da área médio-oriental em maio de 2009.

 

No mesmo período, a indicação de Thomas Shannon, servidor de carreira do Departamento de Estado, para ser o embaixador foi acolhida de modo positivo pelo Planalto. Fluente em português e espanhol, o diplomata havia trabalhado no país no início da carreira (1989 a 1992) -  http://www.state.gov/r/pa/ei/biog/55306.htm. Ele substituiria Clifford Sobel, após apenas três de exercício.

 

Uma das questões prementes daquele momento relacionava-se com a possibilidade de exportação do etanol ao mercado norte-americano, dificultada por causa da alíquota de 2,5% do imposto de importação do produto além da imposição de um adicional acima de 14 centavos de dólar por litro para vários países - https://www.cbo.gov/sites/default/files/111th-congress-2009-2010/reports/07-14-biofuels.pdf.

 

Cerca de 98% do biocombustível consumido no território norte-americano era produzido internamente – em torno de 40 bilhões de litros. A tendência seria a de ampliar mais a quantidade. Em que pesasse o interesse de Brasília, Shannon observava que a eventual redução da tarifa não dependeria da vontade do Executivo tão somente. Lá, o Congresso dispõe de poderio maior para resguardar a produção local, se comparado com seu similar brasileiro.

 

A forma alternativa para comerciar o etanol seria a de o Brasil valer-se de parcerias junto a países centro-americanos com os quais os Estados Unidos mantivessem acordos de livre comércio. No entanto, a relação inverter-se-ia de maneira surpreendente nos meses seguintes: o país passaria a importar mais que exportar o produto, de sorte que a sugestão do embaixador caducaria.

 

De acordo com um importante diário britânico - https://www.theguardian.com/world/2009/jun/02/obama-lula-world-bank - a identificação ideológica entre os dois governos no primeiro semestre de 2009 era tão próxima que Lula da Silva teria sido cogitado por Barack Obama para presidir o Banco Mundial, a despeito de não ser cidadão estadunidense, tradição vigente até aquela fase.

 

Seu possível concorrente seria o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh. Um ou outro nome demonstrava a vontade de Washington de valorizar o multilateralismo e, ao mesmo tempo, de alinhamento, ao ir de encontro ao posicionamento da gestão predecessora, a do republicano George Bush Jr.

 

De todo modo, a Casa Branca indicaria de fato o primeiro estrangeiro para a instituição em março de 2012: o sul-coreano, embora residente desde os primeiros anos em território norte-americano, Jim Yong Kim.

 

Por fim, Moises Naím, editor da Foreign Policy, em entrevista à BBC afirmou que a política econômica da gestão de Lula da Silva situava-se mais à direita que a de Barack Obama - http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/06/090530_eua_esquerdas_bruno.shtml.

 

Destarte, razão havia para que os democratas se entusiasmassem com os trabalhistas como singulares colaboradores na governança global, abalada por uma crise econômica de extensão sem precedentes no pós-Guerra Fria.

 

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

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