Quando vamos falar sobre fascismo?

 

 

Quando a janela das esperanças parece se fechar é sinal de que precisamos agir. Não costumo propagar o termo fascismo para descrever o conservadorismo que sempre grassou por aqui. Na maior parte do tempo observamos as jogadas da política institucional, mas nos esquecemos de olhar para o tecido social, para o que ocorre do nosso lado.

 

A renúncia e delação de Eduardo Cunha, a vaquinha para Dilma viajar contra o golpe, os atos do usurpador Temer, o silêncio de Lula, a crise dos estados, as Olimpíadas que se aproximam em uma cidade caótica como o Rio de Janeiro, muitas coisas nos chamam atenção de uma forma imensa, talvez pela reverberação midiática que nos “informa”. E deixamos de lado aquilo que se forma como uma espécie de fascismo societal, cada vez mais presente em ações que tendem a se naturalizar.

 

Uns dirão que é bom ter cuidado ao falar de fascismo, ainda mais em uma democracia em construção. Mas como entender que a polícia, ou seja, o Estado, atire e mate com um tiro de fuzil um menino que saiu para comprar pipoca no Borel, zona norte do Rio de Janeiro? Que dizer dos seguidos tiroteios, que agora serão mapeados por um aplicativo (Fogo Cruzado: http://fogocruzado.org.br/)?

 

O Estado, através da polícia militar, é um elemento propagador do extermínio de populações, em especial as mais marginalizadas. O fim da polícia militar passa a ser fundamental para qualquer iniciativa de ampliação das ações políticas e cidadãs que combatam a faceta fascista do Estado, que é marcante nas execuções sumárias tanto quanto na possível nomeação de um militar que apoia o golpe de 1964 para dizimar índios sob o pretexto de presidir a Funai, o que, depois da pressão indígena, não se concretizou.

 

Além do Estado e de uma polícia exterminadora, fica evidente que aumenta a tensão entre grupos intolerantes e minorias. Um exemplo recente foi o assassinato de um estudante da UFRJ no Campus do Fundão com todas as indicações de um crime de ódio contra homossexuais. Travestis são alvo permanente de violências deste tipo, as mulheres também, assim como negros e pobres, estes cada vez mais alvos preferenciais da polícia. Por outro lado, um político como Bolsonaro se mostra cada vez mais popular, mesmo com as recentes ameaças ao seu mandato. Não pretendo traçar um quadro exaustivo aqui, tão somente sinalizar que existe uma acentuação de ódio e intolerância entre grupos que pode refletir o que alguns chamam de fascismo societal na medida em que visam a anulação do outro que é odiado.

 

E como fazer frente a isso? Sem querer apresentar uma solução, que pode parecer pretensiosa, penso que os grupos que se mostram como alvos estão se organizando de forma autônoma, em várias frentes. Ainda que isso ajude no sentido da denúncia, diminui muito pouco o risco de continuarem sendo alvos. Não acho que existam muitas instituições capazes de dar conta da articulação desses grupos no momento, mas novas instituições ou arranjos entre grupos podem surgir para desempenhar tal papel, a envolver vários grupos e fazer frente tanto ao fascismo societal quanto ao Estado, que se faz assassino em muitas situações – e, neste caso, a experiência dos atores-alvos são as mais importantes para a eficácia das ações.

 

Nada é tão simples, mas parece importante pontuar que, de um lado, a sociedade de controle teorizada vem se materializando, com o aumento de seus tentáculos; de outro, proliferam grupos intolerantes que, em boa parte, se organizam no vácuo deixado pela ausência de trabalhos de base comunitária que grupos políticos desempenharam, em especial até o final dos anos 1980. Esse processo não é espontâneo e vem se desenvolvendo em consonância com o arremedo de democracia que construímos nos últimos 30 anos. Aliás, trata-se fundamentalmente de constituir a democracia, que não existe de fato neste contexto, salvo para eleger representantes que na maioria das vezes estão contribuindo para o problema exposto.

 

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador da UERJ.

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