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José Arbex Jr: “há uma linguagem de ódio e intolerância que foi legitimada pelo Brexit” Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, da Redação   
Terça, 05 de Julho de 2016
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No dia 24 de junho, os povos do Reino Unido votaram pela saída de seu Estado da União Europeia. Soma-se uma política europeia de austeridade econômica que, para a opinião pública, muitas vezes pode responsabilizar a figura do imigrante. Para analisar a conjuntura e seus desdobramentos, conversamos com o jornalista José Arbex Júnior, que foi além do Brexit e estendeu sua análise às disputas de hegemonia dentro do grande capital - que podem ser refletidas globalmente, o que ensejou comentários  sobre o atual caos político do Brasil.

 

“O Brexit deu uma moldura ideológica, justifica a ação da não ideologia e da não plataforma política – a não ser o racismo, a xenofobia e a truculência. E isso pode ser resumido no mote do governo Temer: ordem e progresso. Ou seja, a brutalidade da polícia e a privatização de tudo. Com isso juntamos a votação do Brexit com aquilo que está acontecendo em termos de ideologia no mundo e no Brasil”, analisa Arbex.

 

Logo no começo da entrevista, José Arbex Jr. fala sobre duas tendências em disputa sob o ponto de vista do capital. A primeira aponta para uma espécie de estado global, seria construída a partir de grandes acordos e tratados comerciais; a segunda seria uma espécie de reação, com o fechamento dos Estados Nacionais a partir de leis xenofóbicas e posterior transformação em Estados Policiais.

 

“A destruição da Síria é fundamental para os EUA ampliarem seu controle sobre o Oriente Médio. É um processo em que o grande capital vai destruindo os Estados Nacionais e se apossando das riquezas das populações, tomando terras e expulsando as pessoas dos seus lugares de origem para acumular dinheiro. A mesma lógica que conduziu ao Brexit é a que conduziu a destruição dos Estados Nacionais no Oriente Médio e o problema dos refugiados”, analisa.

 

Para o entrevistado, no caso do Brexit há uma predominância dessa segunda tendência e a disputa que movimenta internamente o grande capital global está na raiz de toda a conjuntura mundial. “Não sei o que vai acontecer na Inglaterra. O ideal seria surgir uma corrente de esquerda que dissesse nem Cameron, que representa ficar na UE do jeito que está, nem Boris Johnson, que representa sair dela, mas uma UE dos trabalhadores, aberta aos imigrantes, que promova o encontro dos povos e que não adote políticas de austeridade. Ou seja, uma UE que garanta conquistas sociais”.

 

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

 

Correio da Cidadania: Qual sua avaliação do referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado “Brexit”? Que razões foram determinantes para o resultado?


José Arbex Jr.: Hoje no mundo inteiro temos duas tendências do ponto de vista do capital. Uma delas é a estruturação da economia em grandes acordos comerciais e comunidades de negócio no sentido de garantir um livre fluxo de capitais e aprofundá-lo. Os exemplos são o TPP (Trans Pacific Partnership) que os Estados Unidos estão firmando com países do sul do Pacífico como os tigres asiáticos, Taiwan e também inclui Peru e Chile; outro acordo é o Transatlântico, basicamente entre os EUA e a União Europeia, agora incluindo o Reino Unido caso se separe da União Europeia (UE); e um terceiro acordo, na minha opinião o mais grave de todos, que pouca gente está prestando atenção e o Brasil acabou de aderir, o TISA (Trading Services Agreement) um acordo sobre comércio de serviços que ainda está sendo formulado.

 

O que são esses serviços? Tudo. Por serviço entende-se educação, saúde, seguros, enfim, tudo o que imaginarmos pode ser incluído na categoria “serviços”, que assegura 80% do PIB dos EUA. E mais ou menos 75% do PIB do Brasil. Se prestarmos atenção às cláusulas do acordo há elementos complicados. Por exemplo, suponhamos que um país que faz parte do acordo resolva privatizar os serviços de fornecimento de água. Passados um ou dois anos as empresas não conseguem fornecer água para a população por alguma razão e o dado país decide rever o contrato. Pelo acordo, este país não pode reestatizar o serviço. Em outras palavras, privatizou para sempre.

 

Outro exemplo: se um congresso de um país passa uma lei que diminua os lucros de uma empresa, essa empresa tem direito de contestar a lei em uma corte internacional. Pensemos que há uma empresa explorando um determinado minério de ferro no subsolo de um rio qualquer. Nesse contexto, o Congresso passa uma lei limitando a exploração do subsolo do rio por conta de dejetos químicos que podem estar contaminando a água – vai diminuir o lucro da empresa. Se o país é signatário do TISA, não pode fazer isso.

 

Esse acordo é secreto e só estamos sabendo que ele existe porque vazou no WikiLeaks há dois anos. O Brasil aderiu agora, em 2016, pela mão de José Serra. Isso é gravíssimo. Você acaba com as leis nacionais, com o Estado nacional e cria um governo mundial que é composto pelas corporações, pelas empresas. Se continuar nessa toada, seremos governados por grandes corporações em breve.

 

Essa é uma tendência: as grandes corporações fazendo mega-acordos, diminuindo até quase acabar a existência do Estado nacional. Cria-se uma lei internacional dirigida por essas corporações e pronto: ficamos reféns das corporações. É uma tendência mundial. A outra tendência é o contrário. Uma propensão a se proteger dessa nova ordem dentro do Estado Nacional com leis xenofóbicas e racistas, a transformar o Estado Nacional em um Estado Policial, com leis extremamente duras de controle e a negação dos grandes acordos comerciais, assim como das políticas sociais distributivas e liberdades civis.

 

As duas tendências estão acontecendo. Neste “não” à União Europeia, o que vale é os interesses britânicos como país. Não querem mais os imigrantes lá dentro e foi o que aconteceu. É um retrocesso porque se você olha para a história da UE pode encontrar um aspecto bem positivo, progressista até, que são as leis de changing. Ou seja, abolir as fronteiras nacionais e permitir o fluxo de pessoas sem precisar apresentar passaporte. Um espanhol pode ir para a Itália sem precisar de um passaporte. Nenhum país lá dentro precisa de passaporte. Foi muito progressista porque apontava para a união entre os povos. Mas agora está acabando essa história. É uma tragédia.

 

O que está havendo no mundo é um choque entre essas duas tendências do capital, e nenhuma das duas são boas. Numa você conduz ao poder das corporações e na outra ao fechamento dos Estados Nacionais, podendo até chegar a governos neonazistas. Não é por acaso que na Áustria o partido neonazista perdeu as eleições por 0,5% dos votos. Os dois casos são graves, em ambos podemos ver um processo de desagregação da ordem mundial. O que aconteceu no Reino Unido foi a predominância de uma das tendências por pouco, afinal, não foi uma esmagadora maioria, mas uma pequena diferença.

 

Correio da Cidadania: Onde entram as políticas de austeridade adotadas pela União Europeia desde meados de 2008 na conjuntura? Pode ter influenciado a disputa no Reino Unido?


José Arbex Jr.: A política de austeridade influencia, mas temos de ter em conta que a xenofobia é um sentimento irracional. Se você fizer a conta na ponta do lápis, lá na Inglaterra, é mentira dizer que aquilo que está sendo gasto com imigrantes esteja prejudicando o trabalhador inglês. Não é verdade. Se você somar os impostos que os imigrantes pagam e tudo o que contribuem para a economia britânica é muito maior do que o valor que a Inglaterra gasta recebendo imigrantes. Porém, se você é um trabalhador inglês, está desempregado (ou tem medo de ficar desempregado), com o salário achatado e a vida dura, e vê do seu lado um sujeito que veio do Afeganistão ou do Paquistão empregado, talvez ganhando mais, dentro do seu país, é muito mais fácil, do ponto de vista psicológico, atribuir a culpa (pelo medo que está sentindo) ao paquistanês. É mais fácil do que pensar que, na verdade, é um processo global, pois o capitalismo não está conseguindo se recuperar da crise que se instalou em 2007 e há um problema geral de concentração de renda, cada vez maior em um número cada vez menor de pessoas. É um raciocínio complexo.

 

Hoje, as 62 famílias mais ricas do planeta somadas têm mais dinheiro do que a metade mais pobre da humanidade. É muito mais fácil atribuir a responsabilidade ao cara que está do teu lado do que fazer todo um raciocínio que mostre que a crise não é culpa dos imigrantes, mas do sistema capitalista. Existe um componente psicológico que faz com que a austeridade e o desemprego assumam a forma do imigrante. Aí o sujeito acha que gritando “fora imigrante” ele vai resolver o problema, e não vai. O sentimento é irracional.

 

No final das contas, é o que Hitler usou. Quando havia a hiperinflação em Weimar e a econômica ia de mal a pior, o Hitler encontrou a fórmula: a culpa é dos judeus. Pronto. Está resolvido o problema. Dos judeus, dos socialistas, ciganos e homossexuais. É só matar todo mundo que compõe esses segmentos que se resolve o problema. Ou seja, é um sentimento irracional, mas os adeptos o adotam como forma de conseguir tranquilidade psicológica. É o que estamos vivenciando hoje.

 

Correio da Cidadania: O que esperar do período de transição e posteriormente de uma União Europeia sem o Reino Unido?


José Arbex Jr.: A coisa vai de mal a pior pois não há uma alternativa à esquerda. O que temos são grupos que estão surgindo e se fortalecendo de uma forma positiva, como o Podemos na Espanha ou o Syriza na Grécia, ou mesmo o fenômeno da campanha do Bernie Sanders nos EUA, que é impressionante.

 

Sanders conseguiu juntar mais de 7 milhões de apoiadores que contribuíram com grana para a campanha, em uma plataforma participativa de denúncia das corporações. Mas, de toda forma, ainda são grupos que estão surgindo sem uma clareza muito delimitada de estratégias para o futuro. São grupos ainda um pouco confusos que expressam a indignação contra o capital, a vontade de mudar as coisas, só que não está claro como querem fazer a mudança.

 

Um exemplo é nos EUA. Muitos apoiadores do Sanders que não suportam a Hillary Clinton – candidata que representa a primeira tendência supracitada, dos mega-acordos comerciais – estão falando em votar no Trump contra a Hillary, sendo que o Trump representa a segunda tendência, de fechamento dos Estados Nacionais, racismo e xenofobia. Isso dá um exemplo da confusão que está instalada. Se você apoia o Sanders, como pode votar no Trump? Não faz sentido. Mesma coisa se hipoteticamente aqui no Brasil um sujeito fosse apoiador do Plínio de Arruda Sampaio; aí, quando o Plínio cai fora da disputa eleitoral, como vingança o sujeito vota em um Russomano qualquer. Isso mostra o tamanho da confusão.

 

Não sei o que vai acontecer na Inglaterra. O ideal seria surgir uma corrente de esquerda que dissesse nem Cameron, que representa ficar na UE do jeito que está, nem Boris Johnson, que representa sair dela, mas, sim, uma UE dos trabalhadores, aberta aos imigrantes, que promova o encontro dos povos e não adote políticas de austeridade. Ou seja, uma UE que garanta conquistas sociais.

 

Se olharmos para a UE, veremos o que está acontecendo hoje na França, onde os trabalhadores estão se revoltando contra a austeridade e sendo reprimidos com uma violência brutal – na França, um país tradicionalmente combativo. Se isso acontece na França, imagina no resto da UE. Não vejo uma saída positiva, acho que as coisas vão piorar muito.

 

Correio da Cidadania: Como relaciona o resultado no Reino Unido com a experiência da Grécia e do Syriza?


José Arbex Jr.: O Syriza surgiu de um movimento da juventude contra o status quo, contra a ordem imposta e os programas de austeridade. Era um movimento que estava se fortalecendo muito. Esse movimento resolveu lançar um candidato para o parlamento, o Tsipras. Quando ganhou o candidato, aconteceu com o Syriza uma coisa semelhante à que aconteceu no Brasil.

 

Por aqui o Lula foi eleito em 2002, começamos a agitar o slogan de “Lula lá” e quando o Lula estava “lá” começamos a agir como se estivesse tudo resolvido. O Lula eleito, o PT progressista no poder, o Lula vai fazer o que a gente quer. De certa forma, isso começou a esvaziar a combatividade dos movimentos sociais brasileiros. Acho que na Grécia aconteceu a mesma coisa.

 

O Tsipras chegou ao poder, o Syriza começou a depositar esperanças no Tsipras, o governo começou com um discurso combativo, mas a base do Syriza saiu das ruas e começou a se acomodar a uma nova situação. E na hora do “vamos ver” o Syriza começou a ceder às pressões de bancos da Alemanha e da França em um momento que esteve completamente desmobilizado. O mesmo aconteceu no Brasil com o golpe contra a Dilma, feito em um momento em que os movimentos sociais estavam completamente desmobilizados. Depois de 13 anos de programas sociais e subvenções do governo os grandes movimentos sociais, incluindo o MST e toda a base do PT, entraram em um processo de acomodação, de abandonar a militância e deixar o governo trabalhar. Isso desmantelou o PT e o movimento dos trabalhadores, a CUT etc.

 

Acho a perspectiva eleitoral péssima. Hoje em dia, em qualquer eleição no Brasil para o poder executivo eu votaria nulo ou não votaria. Votaria em um candidato para o parlamento, deputado ou senador, porque acho que a campanha teria um caráter de propaganda, de divulgar ideias. Eu só aceitaria ser presidente do Brasil se estivesse representando um movimento de massas com força suficiente para eu chegar e falar que “sou o presidente do Brasil, tenho uma delegação do movimento de massas para fazer a reforma agrária radical, para proibir remessas de lucros para o exterior”, enfim, para fazer as mudanças que têm de ser feitas. Um presidente de esquerda só conseguiria tocar um projeto transformador tendo a devida sustentação nas ruas. Se não tiver, qualquer presidente eleito acabará sendo refém das grandes forças que controlam o Estado. Sou contra a esquerda ter candidatos para o poder executivo no atual momento.

 

Correio da Cidadania: Pensando na esquerda brasileira, como podemos vislumbrar uma reorganização desse setor em meio a esta conjuntura? É possível compor um novo projeto com os setores ligados ao lulismo?


José Arbex Jr.: Cuidado! Temos que entender o que é o PT. O PT não é Lula, não é Dilma, não é José Dirceu e não é o conjunto dos seus parlamentares. O PT é algo muito mais profundo que aconteceu na história brasileira e diz respeito à organização da base dos trabalhadores brasileiros, em um processo inédito em 500 anos de história, que começou com um movimento inicialmente tutelado pela Igreja Católica através das comunidades eclesiais de base (CEBs) nos anos 70, mas cresceu fora do controle da Igreja e não era controlado nem pela burguesia como o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, tutelado por Vargas) e nem tutelado pelo stalinismo, através de PCB ou PCdoB. Ou seja, o PT foi um movimento que nasceu na sociedade brasileira sem a tutela de ninguém. Esse movimento não foi derrotado. Qual foi a grande derrota que sofreu? Nenhuma. Uma parte desse movimento foi cooptada, o lulismo.

 

Outro dia tive um debate com o Zé Maria, do PSTU. Ele colocou sua posição e fez uma crítica bastante dura ao lulismo. E eu falei pra ele no debate: “não tiro nenhuma vírgula das críticas que você fez à direção do PT. Concordo com a crítica, mas a questão que te coloco é a seguinte: é possível falar na história do Zé Maria sem falar do PT?” Ele olhou para mim espantado e disse que não. Isso porque a militância dele surgiu no PT, ele era petista antes do PSTU. Prossegui: “então, vamos inverter a pergunta: é possível falar do PT sem falar do Zé Maria?” Não, porque ele fez parte do PT, assim como toda a cúpula do PSTU nasceu no PT. Então, eu falei: “Zé Maria, por mais que você ataque a direção do PT de hoje, não dá para falar da tua história sem falar do PT e vice-versa, você é petista”. Ele ficou me olhando espantado. A seguir, perguntei para todos os presentes: “quem aqui não é petista?” Tinha um rapaz de uns 40 anos e eu falei para ele: “eu não conheço você, não sei seu nome, não sei se você é casado, tem filhos ou não, mas te digo o seguinte: se você é casado, tem filhos e está nesse debate hoje, você educou seus filhos com valores petistas”. Ele levantou e falou que era isso mesmo. É claro que sim, temos quatro décadas de brasileiros que cresceram embalados por valores petistas. Os valores da greve de 1979: proletariado contra a burguesia, ética, moral, solidariedade entre as pessoas, camaradagem etc.

 

Cheguei a essa conclusão no dia 19 de março, no auge do desespero quando parecia que o Lula seria preso a qualquer momento. Houve uma manifestação na Paulista com mais de 200 mil pessoas. A mídia mentiu sobre aquela manifestação, a Paulista estava lotada, você não andava meio centímetro sem esbarrar em alguém e eu me senti na Suíça. Todo mundo se esbarrando e pedindo desculpas. Quando um idoso ia passar o povo abria caminho. Havia um clima de felicidade, de alegria, todo mundo rindo. Isso porque foi a primeira grande manifestação em muitos anos na qual aqueles petistas foram para a rua e se encontraram. E estava um baita clima ameno, educado e tranquilo. É o PT e esse PT não foi derrotado. E digo mais: na conjuntura mundial, só tem um país que tem tal trunfo na mão: o Brasil.

 

O PT hoje é uma exceção positiva no mundo porque representa uma força organizada de trabalhadores da nação brasileira que não foi derrotada. Por que o Syriza foi derrotado tão facilmente? Porque nasceu em 2012 como um partido e as eleições foram em 2014. O Syriza ganhou as eleições com dois anos de história, elegeu um primeiro ministro, daí aconteceu todo o desastre e eles não tinham resistência. O movimento que formou o PT tem 40 anos de história, é outro patamar. Isso não morreu. Criou ramificações. Por que em pleno festival de Cannes, há artistas como Jack Nicholson usando camisetas do PT ou da Dilma em plena entrega de prêmios em Cannes? Por causa da Dilma ou do Lula? Não. É por aquilo que o PT representa. Por isso que eu disse para ter cuidado. Uma coisa é o PT e sua representação no imaginário do povo brasileiro, outra coisa é o lulismo, o dirceuzismo, a corrupção etc.

 

São coisas diferentes. Claro que todas têm uma referência no PT, mas se não entendermos a diferença podemos cometer graves erros. Há poucos dias fui em uma atividade de professores estaduais na periferia e o clima estava um pouco depressivo. Quando comecei a falar tais coisas, dava para ver na cara das pessoas que elas começavam a se erguer. O clima mudou completamente na atividade. Não tem no mundo de hoje um partido de trabalhadores independente com a história do PT.

 

Se você é de esquerda no Brasil, você foi no mínimo criado com valores petistas. É só pensarmos em termos de cultura nacional. Se tirarmos da cultura nacional todos os artistas que são do PT, que foram ou que ao menos cresceram inspirados por seus valores, acaba a cultura nacional.

 

E os interesses que aplicaram o golpe não contavam com a profundidade dessa resistência petista. Acharam que resolveriam em dois ou três meses. Só que são 40 anos de história e essa massa não foi derrotada.

 

Correio da Cidadania: Voltando para a Europa, como enxergou os resultados das eleições espanholas, realizadas poucos dias depois do referendo inglês?


José Arbex Jr.: Se somarmos o Podemos e o PSOE, a esquerda ganhou. Tudo depende da maneira como você interpreta os resultados. Como não estou preocupado com questões eleitorais, mas com o sentimento da população que foi votar, para mim foi um resultado positivo, pois o sentimento é de esquerda. A esquerda ganhou e é positivo, não é decepcionante. Voltando ao que falei no começo da entrevista, como não há uma alternativa clara de poder, não basta haver um sentimento de esquerda; deve-se transformá-lo em organização.

 

A direção do Podemos veio ou do PSOE ou do Partido Comunista Espanhol. As bases vieram da juventude que ocupava as ruas. Nesse sentido, a base se parece com a juventude que construiu o PT, como com a que construiu o Syriza e também com a juventude que está por trás do Bernie Sanders nos EUA. No entanto, tanto na Grécia quanto na Espanha e nos EUA são movimentos muito recentes e sem uma estrutura alternativa. Vai demorar muito tempo até que comecem a surgir formas concretas de organizar a revolta para derrotar o capital. O problema é que não sabemos se teremos tempo, pois o capital está muito destruidor: do meio ambiente, dos valores etc. Tudo que o capital toca está apodrecendo com uma rapidez impressionante.

 

Correio da Cidadania: Acredita que esse referendo possa impulsionar tradicionais movimentos separatistas na Europa como dos bascos e catalães na Espanha ou mesmo de escoceses e norte-irlandeses dentro do próprio Reino Unido?


José Arbex Jr.: Já está impulsionando. É importante frisar que o Brexit sancionou e legitimou o racismo e a xenofobia. Imediatamente depois do plebiscito já tivemos um monte de episódios racistas. Os racistas estão voltando a por a cabeça para fora. Há uma linguagem do ódio e da intolerância hoje que foi legitimada pelo Brexit.

 

Há correlato no Brasil. É a ideia de que cada um tem de cuidar do seu próprio interesse e de que não tem nenhum plano nacional ou internacional que possa resolver o problema da desigualdade social. Quanto a esse plano não estou falando de socialismo nem de utopias, pode ser um plano keynesiano de estimular economias nacionais, incorporar setores marginalizados e criar um consumo interno capaz de melhorar as condições da vida da população, o que hoje é representado no Brasil por um cara como o Bresser Pereira.

 

Na ausência de um plano assim, o que sobra é o “cada um por si” que acontece na Europa e também no Brasil. Tente classificar o governo Temer e seus apoiadores. São desenvolvimentistas? Não. Eles não estão preocupados com o desenvolvimento da indústria e da economia. São neoliberais? Não. Ao contrário, o neoliberalismo que pressupõe um Estado cada vez mais ausente da economia e cada vez menos intervencionista é o contrário do que Temer tem feito com o BNDES, as grandes estatais e assim por diante. Aqui se faz o que os neoliberais estrangeiros chamam de “capitalismo de compadrio”, um capitalismo financiado pelo Estado. Isso não é neoliberalismo, é um capitalismo de Estado do pior tipo, clientelismo. Resumindo, não são desenvolvimentistas, não são neoliberais e não são conservadores: não estão preocupados em conservar nada, pelo contrário, queriam fechar o Ministério da Cultura; querem destruir os valores e não conservá-los. Eles não são nada além de uma máfia. Gangues de mafiosos disputando a economia nacional. Por exemplo, que setor da burguesia brasileira o Aécio Neves representa? Nenhum.

 

Voltemos àquela primeira tendência, dos grandes blocos capitalistas que estão monopolizando o planeta Terra. Querem monopolizar a água, o ar, os serviços. Esses caras precisam ter seus agentes em cada país, ou melhor, seus capitães-do-mato em cada fazenda. E o que está acontecendo no Brasil é: temos um monte de candidatos a capitães-do-mato do grande capital que, por sua vez, prevê o processo de devastação das economias nacionais em benefício das grandes corporações.

 

O Brexit deu uma moldura ideológica, justifica a ação da não ideologia e da não plataforma política – a não ser o racismo, a xenofobia e a truculência. E isso pode ser resumido no mote do governo Temer: ordem e progresso. Ou seja, a brutalidade da polícia e a privatização de tudo. Com isso juntamos a votação do Brexit com aquilo que está acontecendo em termos de ideologia no mundo e no Brasil.

 

Correio da Cidadania: Em relação à imigração, como fica a conjuntura no Oriente Médio caso haja um endurecimento ainda maior das leis de imigração e de recepção de refugiados?


José Arbex Jr.: Se vemos uma lógica econômica na qual 62 famílias têm mais dinheiro do que 3,5 bilhões de seres humanos, a pergunta que faço é: como essas 62 famílias acumularam tanto dinheiro? Na base da pirataria, da expulsão de milhões de camponeses e indígenas de suas terras natais, do controle total de reservas de petróleo como ocorreu com o Iraque em 2003 (mentiram ao dizer que o Iraque tinha armas de destruição em massa para invadir e tomar conta do petróleo iraquiano).

 

Ainda podemos pôr na conta a destruição da Líbia arquitetada pela Hillary Clinton. Também a destruição da Síria é importante porque além da ditadura Assad não jogar de acordo com a música do departamento de Estado dos EUA, ainda é aliada da Rússia porque fornece a base militar de Tartus, uma cidade síria no mediterrâneo onde a Rússia mantém sua principal base militar neste mar. Quer dizer, a destruição da Síria é fundamental para os EUA ampliarem seu controle sobre o Oriente Médio. É um processo em que o grande capital vai destruindo os Estados Nacionais e se apossando das riquezas das populações, tomando terras e expulsando as pessoas dos seus lugares de origem para acumular dinheiro. A mesma lógica que conduziu ao Brexit é a que conduziu a destruição dos Estados Nacionais no Oriente Médio e o problema dos refugiados.

 

A Colômbia hoje é um país que pouco se fala. Há mais refugiados internos colombianos do que na Síria. São sete milhões de refugiados internos na Colômbia. Quem criou essa onda? A guerra ao narcotráfico. Quem produz a guerra ao narcotráfico? Os Estados Unidos. O governo Clinton criou o plano Colômbia em 1999 para implantar bases militares dos EUA na floresta amazônica. Com isso foram expulsos indígenas e camponeses que viviam em tais áreas e foi criado o problema dos refugiados internos da Colômbia. Resumindo, quem criou o problema dos refugiados foi o capital, que não sabe resolver o problema. A única solução que ele apresenta é violenta. “Mate todos”. O problema dos refugiados é a expressão de uma realidade econômica. É o mesmo problema.

 

Correio da Cidadania: Espraiando o leque das tensões geopolíticas, como você recebeu os atentados praticados pelo Estado Islâmico no aeroporto de Istambul e logo na sequencia em Bagdá, sendo o segundo o maior desde o ano da invasão comandada pelos Estados Unidos? O que representa nesse jogo todo?


José Arbex Jr.: O Estado Islâmico (EI) é considerado hoje a grande besta da humanidade, mas quem o criou? O grande capital. Entraram no Iraque, desmantelaram o país e destruíram o Estado iraquiano. Destruíram o Estado sírio. Com isso, já tem milhões de jovens que perderam a família, o pai, a mãe, o futuro – perderam tudo na vida e estão querendo se vingar de alguém. Aí destroem a Líbia. A Líbia era mantida unida pelo Kadafi com base em uma tropa de elite de 10 mil soldados ultra-bem-treinados e armados. Quando Kadafi caiu, esses caras perderam o emprego. Pra onde foram? Para o Boko Haram na Nigéria e para o EI. Quer dizer, quem produziu o surto que criou o EI foi o capital. Esses atentados são resultado da política do capital.

 

E isso vai criando contradições dentro do capital e dos países capitalistas. Por que a Angela Merkel quis, no começo, acolher os imigrantes e refugiados? Basta olhar para a demografia alemã. Fizeram o cálculo de que com o crescimento vegetativo da economia alemã, se continuasse como estava, praticamente estagnado ou negativo em algumas regiões (morrendo mais gente do que nascendo), daqui uns anos não teriam trabalhadores assalariados para sustentar o sistema previdenciário. Ou seja, não vai ter trabalhador ganhando salário e pagando imposto para sustentar a previdência alemã. Não vai ter como sustentar os aposentados. Portanto, a Alemanha precisa de trabalhadores assalariados produzindo, pagando impostos e gerando filhos. Os refugiados para a Merkel eram uma solução. Por isso ela estava aceitando-os. No entanto, o que é uma solução para a Alemanha, não é para a Polônia, para a Hungria ou mesmo para Espanha e Itália com as economias estagnadas e sem emprego. O que pode ser solução para um, pode ser um desastre para outros. Com isso, começamos a ver as contradições entre os países capitalistas. De tais contradições surgiu o Brexit, uma solução à direita desse problema.

 

Raphael Sanz é jornalista do Correio da Cidadania.

 

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Última atualização em Sexta, 05 de Agosto de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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