Estados Unidos: silêncio de Obama diante do pleito onusiano de Lula

 

 

 

 

 

No primeiro semestre de 2009, o Brasil ainda ostentava confiança diante da sociedade internacional, a despeito da inegável manifestação dos sinais de adversidade econômica, ao passo que, sob nova administração, os Estados Unidos, epicentro do problema, demonstravam cautela, mas sem exibir preocupação ostensiva.

 

Todavia, com o propósito de expressar desenvoltura política, o novel governo, sob a liderança do democrata Barack Obama, propunha-se a distensionar o ambiente global, em especial o relativo à América Latina, onde havia desinteligências de todo o tipo: recentes, como a da Venezuela sob comando de Hugo Chávez, ou a da Bolívia sob titularidade de Evo Morales, e antigas, como a de Cuba da família Castro. A exceção quanto à disposição de dialogar era com a Nicarágua, observada pela Casa Branca como muito mais radical, em função, ao menos, dos discursos veiculados.

 

No restante do planeta, havia mais pendências como a do o Irã, em decorrência do polêmico programa nuclear, e a do México, em vista do crescente narcotráfico na fronteira entre os dois países.

 

Acima de tudo, havia o desgaste estadunidense com o tema de direitos humanos, uma vez que se mencionavam nos meios de comunicação a existência de prisões secretas e a utilização da base naval de Guantánamo como presídio de acusados de terrorismo em locais onde havia confronto castrense ou oposição ao terrorismo  integrista.

 

Naquela altura, nenhuma dúvida a mais pairava sob o norte político do Brasil: o de um conservadorismo mitigado, ao aplicar determinadas medidas compensatórias a seu eleitorado tradicional enquanto mantinha, com variações apenas, diretrizes do governo anterior, o do PSDB, como a de juros altos nos títulos da dívida pública ou a de tratamento especial às corporações, ao valer-se, por exemplo, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

Por meio da justificativa de conformação dos chamados campeões nacionais, voltados em tese para enfrentar seus similares euro-americanos dentro da perspectiva oficial de um revigorado nacional-desenvolvimentismo, a gestão trabalhista auxiliaria muito. O recente malogro de uma empresa de telefonia exemplifica a visão desmedida de tal iniciativa.

 

Em virtude de sua atuação interna, Brasília credenciou-se a ser o interlocutor preferencial de Washington na região hemisférica. Em certa extensão, este papel parecia-se com o de Buenos Aires no começo dos anos 90, ainda que o Planalto também disputasse a primazia – a diferença é que a carga neoliberal era exaltada pelos dois governantes, não executada de maneira acanhada ou nem sequer renegada como no século 21.

 

Com a alteração partidária à frente dos Estados Unidos, manteve o Brasil a vã esperança de conseguir o apoio para uma desejada, porém adiável aos olhos das grandes potências, reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

 

Paris e Londres seriam a princípio até favoráveis à modificação, o que ocasionava expectativas positivas em Brasília; no entanto, Pequim, Moscou e Washington ocultavam seu posicionamento. Na prática, desinteressavam-se em alterar a composição de uma instituição bastante benéfica a eles. Ampliar o número de vagas seria reduzir o próprio poder.

 

Na expectativa de que o Brasil era considerado um país sem nenhum tipo de restrição na comunidade internacional, a gestão de Lula almejava responsabilidade maior, a despeito de não ter os meios suficientes para a subscrição do pleito: peso militar, econômico e cultural.

 

No desdobramento da economia, o potencial energético seria promissor para projetar-se naquela época, ao conjugar reservas petrolíferas, capacidade de biocombustível e disponibilidade hídrica. Entrementes, faltaria ao país a coordenação necessária para impulsionar isso em benefício conciliar diante dos principais integrantes onusianos.

 

 

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Brasil-Estados Unidos – Lula no final, Obama no início


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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