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A força política dos movimentos populares unidos Imprimir E-mail
Escrito por Frei Marcos Sassatelli   
Segunda, 27 de Junho de 2016
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Num clima de indignação e protesto contra a prisão política de José Valdir Misnerovicz e Luiz Batista Borges do MST, no dia 16 deste mês de junho, tivemos, em Goiânia, dois acontecimentos muito significativos sobre o tema da criminalização dos Movimentos Populares: das 9 às 13 horas, uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Goiás (promovida pela deputada estadual Isaura Lemos, do PCdoB, com o apoio da também deputada estadual Adriana Accorsi (PT) e, das 19:30 às 22:30 horas, um debate na Faculdade de Direito da UFG (com a presença de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST).

 

Participaram desses acontecimentos líderes e membros de movimentos populares, centrais de movimentos populares, sindicatos, centrais sindicais, partidos políticos (comprometidos com a mudança do sistema e a construção do projeto político popular) e outras entidades ou organizações (civis e religiosas), que apoiam e participam das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras.

 

Pessoalmente, o que mais me emocionou e edificou - quero aqui destacar - são duas coisas: a unidade dos movimentos populares em torno de causas comuns, mesmo na diversidade de suas histórias e identidades, e a presença - sobretudo entre as lideranças - de muitos e muitas jovens. São acontecimentos como esses que fortalecem a nossa esperança e nos fazem acreditar que um outro mundo é possível.

Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs de todos os movimentos populares continuem - no respeito e valorização das diferenças - construindo a unidade. A união faz a força! Povo unido (e organizado) jamais será vencido!

 

Falando aos movimentos populares, o Papa Francisco afirma: “a Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra”.

 

Como pessoa de fé e religioso - que acredita na Boa Notícia de Jesus de Nazaré, que é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo - estou convencido que os cristãos e cristãs deveriam - em nome não só de sua consciência cidadã, mas também de sua fé - participar ativamente dos movimentos populares (reconhecendo e respeitando sua autonomia) e estar sempre na linha de frente de todas as lutas sociais e ambientais por uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Dói muito constatar a indiferença e a pouca participação dos membros das nossas comunidades, paróquias e dioceses nos movimentos populares, inclusive de padres e bispos. É um pecado de omissão. Ah, se todos nós seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré ouvíssemos e colocássemos em prática as palavras do Papa Francisco a respeito da militância dos cristãos e cristãs nos movimentos populares!

 

Em seu discurso na Bolívia, com muita clareza e palavras cheias de ternura, Francisco diz: “há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-los de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (S. Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015).

 

Reparem: o convite do Papa é dirigido aos bispos, sacerdotes e leigos(as). Não está na hora de ouvirmos e atendermos ao convite do Papa? Por que será que temos ainda bispos e sacerdotes que nunca falam dos movimentos populares e nunca participam de suas lutas por uma nova sociedade, mais justa e mais igualitária?

 

O sistema capitalista neoliberal é um “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385). O papa Francisco afirma que “o sistema social e econômico é injusto em sua raiz” e “um mal embrenhado nas estruturas”. Ele declara que “devemos dizer ‘não’ a uma economia da exclusão e da desigualdade social”, porque “essa economia mata”. Diz também que “hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco”; que “o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois jogar fora” e que “assim teve início a cultura do ‘descartável, que, aliás, chega a ser promovida”; que “os excluídos e excluídas não são explorados, mas resíduos, sobras” (A Alegria do Evangelho - EG, 53 e 59).

 

Se essa é a realidade, por que então há tanta indiferença e até resistência, por parte de muitos cristãos e cristãs (leigos(as), padres e bispos) em participar dos movimentos, que lutam por um mundo novo, ou seja, por um mundo que esteja mais de acordo com o projeto de vida de Jesus de Nazaré? Não é, no fundo, uma atitude de covardia e traição do Evangelho, que se esconde atrás de uma falsa religiosidade? Os cristãos e cristãs - ao invés de se preocupar em ser uma Igreja triunfalista, uma Igreja do oba oba ou uma Igreja show - não deveriam se preocupar em ser uma Igreja “sal da terra”, “luz do mundo” e “fermento na massa”?

 

O nosso irmão Francisco lembra-nos que “a necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar”. “Os planos de assistência - diz o Papa - que acorrem a determinadas emergências deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG, 202-203).

 

No seu discurso aos movimentos populares na Bolívia, o Papa Francisco reafirma: “os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário”.

 

As pastorais sociais e ambientais da Igreja não deveriam, antes de tudo, levar os cristãos e cristãs a um verdadeiro compromisso com as lutas dos movimentos populares, que visam mudar as estruturas injustas? Por que então, muitas de nossas comunidades, paróquias e dioceses reduzem as Pastorais Sociais e Ambientais a obras sociais e ambientais? Em situações de emergência, elas são necessárias, mas - como diz Francisco - devem ser “respostas provisórias”. Achar que as obras sociais e ambientais resolvem os problemas do mundo, é uma alienação e, ao mesmo tempo, uma maneira de legitimar, consciente ou inconscientemente, o sistema dominante. Parabéns aos movimentos populares! O mundo conta com vocês!

 

Mais uma vez, o nosso irrestrito apoio e a nossa total solidariedade ao José Valdir e Luiz Batista do MST, presos políticos em Goiás.

 

 

Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, é doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP), professor aposentado de Filosofia da UFG.

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