‘Brexit’ amedronta, espanhóis voltam a votar em Rajoy e desiludem Podemos na Espanha

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O Reino Unido ficou dividido em dois, visto que a vitória do Brexit foi mínima. Por isso as antigas batalhas dos independentistas da Escócia, dos unionistas da Irlanda do Norte e dos autonomistas do País de Gales voltaram à tona, criando sérios problemas nos dois principais partidos britânicos, o Conservador (Tories) e o Trabalhista (Labour Party). Por exemplo, o líder dos conservadores, David Cameron, foi obrigado a demitir-se, enquanto mais da metade da direção Trabalhista deverá explicar às bases sua inércia na campanha pelo referendo.

 

O principal conflito está acontecendo no campo dos conservadores porque a vitória do Brexit, na prática, sinalizou também a derrota política do primeiro-ministro, David Cameron, que utilizou o referendo contra a União Europeia para consolidar seu poder no seio do Partido Conservador e ganhar mais espaço na cúpula da União Europeia, que como todos sabem é monopolizada pela dupla Merkel-Hollande. Ou seja, os dois mandatários de um eixo geopolítico que, desde 2012, une a Alemanha e a França não só no âmbito financeiro e econômico, mas sobretudo em termos geoestratégicos. De fato, o eixo franco-alemão transformou a União Europeia em um subimperialismo regional, sempre pronto a fazer a voz grossa sobre os 25 países membros da União Europeia e logicamente acatar ordens da Casa Branca e de Israel.

 

Na realidade, David Cameron estava seguro de ganhar o referendo porque os partidos nacionalistas e independentistas (irlandês, escocês e galês) não queriam romper os vínculos com a União Europeia, mesmo que não desejassem permanecer sob o controle dos poderes de Londres. Outra garantia de Cameron vinha da oposição trabalhista que historicamente sempre foi europeísta. Estas previsões falharam todas, determinando um desastre político para David Cameron, o Partido Conservador e o próprio Reino Unido.

 

A reação dos mercados e da Escócia

 

Também os mercados sofreram um choque tremendo com a vitória do Brexit, do momento que a quase totalidade das grandes empresas e das multinacionais europeias havia transferido suas direções comerciais para Londres, considerada a capital financeira da União Europeia. Por outro lado, a Bolsa de Londres (London Stock Exchange) era a referência mundial das bolsas europeias, mantendo um vínculo direto com as bolsas de Paris, Frankfurt, Milão e Madrid em função da linha direta que mantinha com as Bolsas de Tóquio, Novas Iorque, São Paulo e Johanesburgo. Assim, sem esperar a evolução dos acontecimentos o dito mercado entrou em pânico, fazendo a felicidade dos especuladores. Consequentemente, em menos de 24 horas foram queimados 600 milhões de dólares em títulos britânicos e europeus que quase zeraram seu valor!

 

Um pânico que se alastrou em todos os setores do mundo financeiro quando o primeiro-ministro da Escócia, Nicole Sturgeon, declarou que "para defender os interesses dos escoceses, vamos pedir a realização de um referendo independentista para poder ficar na União Europeia".

 

Na Bolsa de Londres as palavras da senhora Sturgeon acenderam o rastilho da explosão que depois se alastrou a todas as bolsas de valores europeias. De fato, não podemos esquecer que 95% do petróleo e do gás que a British Petrol refina e distribui no Reino Unido e exporta provêm dos poços offshore do Mar do Norte, que faz parte das águas territoriais da Escócia. Além disso, todas as infraestruturas da indústria petrolífera britânica estão localizadas na Escócia.

 

Em segundo lugar, o pânico espalhou-se nas Bolsas por causa do incerto futuro da Libra britânica, que sempre manteve uma posição de equilíbrio entre o dólar e o Euro, enquanto a valorização dessa moeda dependia muito da relação que o complexo industrial britânico mantinha com os países da União Europeia. De fato, a legislação comunitária facilita muito a penetração dos produtos industriais britânicos nos mercados europeus. Agora com o Brexit tudo isto deverá ser renegociado.

 

Assim como, por exemplo, deverá ser definido o futuro de mais de 4 milhões de trabalhadores europeus que vivem e trabalham no Reino Unido, com base na lei sobre a livre circulação da mão de obra europeia no interior dos países da União Europeia. Uma lei que regulamenta o contrato de trabalho, as pensões, a assistência médica gratuita, o fundo contra o desemprego etc. Problemas semelhantes que também se põem para os quase 2 milhões de britânicos que vivem nos países europeus. Por exemplo, na região de Málaga residem mais de 50.000 casais de aposentados britânicos que se transferiram para a Espanha. Em Bruxelas, na estrutura burocrática da União Europeia e do Banco Central Europeu (BCE), trabalham 1600 funcionários britânicos que, na época, foram contratados porque o Reino Unido assinou o tratado de Maastricht e depois ratificou o Tratado de Lisboa.

 

Questões que o Comissário Europeu, Jean-Claude Junker, quer começar a enquadrar já nesta quinta-feira, quando em Bruxelas se realizará a reunião dos primeiros-ministros. Porém, acontece que a rainha Elizabeth ainda não nomeou um novo primeiro-ministro, porque o Partido Conservador ainda não indicou o sucessor de Cameron. Por sua parte, David Cameron irá à reunião de Bruxelas, mas, por ser demissionário, não apresentará o pedido oficial de saída do Reino Unido da União Europeia, com base no artigo 50 do Tratado de Lisboa que formaliza o início de negociações para definir os procedimentos de saída da União Europeia e desassociar-se do Banco Central Europeu.

 

Por parte dos países da União Europeia está prevalecendo a ideia de esticar as negociações do artigo 50 com o Reino Unido, de um mínimo de dois anos até o máximo de sete anos. Uma lentidão que segundo alguns analistas poderia fortalecer no Reino Unido o desejo de voltar para a União Europeia, sobretudo se a Alemanha aceitar as pressões dos outros países para modificar as rígidas regras para a gestão financeira. Por isso, muitos analistas afirmam que o lado positivo do Brexit é que agora Angela Merkel deverá ser mais elástica e pensar não só no bem-estar dos alemães, mas também no dos europeus, que durante quatro anos foram literalmente massacrados com os programas do "Fiscal Compact".

 

Porque o Brexit ganhou?

 

Se o referendo, no lugar de propor a saída pura simples do Reino Unido da União Europeia, tivesse proposto o fim do ajuste fiscal e reduzido a flexibilização trabalhista, imposta pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, o Reino Unido ainda era membro da União Europeia. Infelizmente, a Alemanha modificará sua política somente quando os partidos” Verde” e “Die Linke” (de esquerda) ganharem as eleições derrotando a "Grand Koalition" formada pelos direitistas do CDU de Ângela Merkel e os socialdemocratas do SPD. Quer dizer, nunca ou talvez daqui a 20 anos!

 

Entretanto, os partidos da esquerda eurocentrista - como por e exemplo o PD italiano e o PS francês -  atribuem a vitória do Brexit à nefasta influência que as ondas de migrantes e o terrorismo islâmico determinaram no eleitorado britânico. Na realidade, os únicos britânicos que votaram pelo Brexit por poder fechar as fronteiras aos imigrantes árabes e africanos foram os eleitores do partido nacional-fascista britânico, que representa menos do 5% do eleitorado britânico.

 

A verdade é que a maioria dos votos para o "No Europe" foi dos trabalhadores e da classe média que não aguentam mais os efeitos da chamada "liberalização das regras trabalhistas", bem como a constante redução dos serviços públicos. Foi, na prática, aquela maioria que deve recorrer aos serviços públicos que com os contínuos cortes orçamentários atingiram um elevado nível inegável de degradação, sobretudo na instrução superior, na saúde, na ausência de programas de casas populares e na formação profissional dos jovens. Problemas que existem não somente no Reino Unido, mas também nos outros 24 países da União Europeia, com exceção da Alemanha, que foi a única que se beneficiou da crise e do endividamento dos países europeus, garantindo, em seu território, o aumento de 1.6 milhão de novos postos de trabalho.

 

Na Espanha, o Brexit justificou o medo do Podemos

 

Os resultados das eleições espanholas foram influenciados negativamente pelo Brexit porque o programa de Podemos e o próprio Pablo Iglésias, no comício final, criticaram a gestão franco-alemã dizendo que “é preciso reformular o conceito de União Europeia”. Por outro lado, o Podemos apresentou nessa eleição a aliança com a Izquerda Unida, onde muitos parlamentares já foram dirigentes ou membros do PCE, isto é, comunistas!

 

Estes dois elementos determinaram o não crescimento de Podemos, que permanece com 71 deputados, representando 21,1% dos eleitores. Um resultado que desmentiu por completo as previsões do marketing eleitoral que davam o Podemos como possível vencedor por receber o voto de quase 15% do eleitorado do PSOE (Partido socialista reformista) de Pedro Sanchez e de grande parte da classe média ligada ao PSOE, praticamente destruída pelo governo do PP.  Na realidade, o PSOE reduziu sua representação eleitoral para 22,7%, perdendo 5 deputados, cujos eleitores votaram os candidatos direitistas do PP de Mariano Rajoy e não nos do Podemos.

 

Assim, o principal motivo do sucesso do Partido Popular (PP) de Rajoy foi o medo e a incerteza pelo futuro que grande parte dos eleitores teve com o Podemos. De fato, o Partido Conservador do primeiro-ministro ganhou as eleições representando apenas 33% do eleitorado e elegendo no Parlamento 137 deputados. Na prática o PP recuperou não só o eleitorado moderado do PSOE, mas também o da nova direita-liberal (Ciudadanos), que perdeu 8 deputados, baixando sua representação para 13%, com apenas 32 deputados.

 

É necessário dizer que Pablo Iglésias, durante a campanha eleitoral, declarou: “Se ganharmos as eleições autorizaremos o referendo popular para a separação da Catalunha da Espanha e, portanto, a formação independente de um novo estado na Catalunha”. Inútil dizer que para a maioria dos setores moderados espanhóis as declarações de Iglésias foram uma declaração de guerra, que por isso não votaram nele, quebrando o sonho dos militantes de Podemos de passar à frente do PSOE.

 

Governo minoritário ou "Grande Coalizão entre PSOE e PP"?

 

O PP de Mário Rajoy ganhou, mas como aconteceu em 2015, não pode governar porque para fazê-lo é necessária uma maioria de 176 deputados. Por isso, Pablo Iglésias tratou de negociar com Pedro Sanchez a formação de um governo progressista, também com a presença do partido nacionalista basco (EAJ) e dos independentistas da Catalunha o ERC (Esquerra Republicana) e o CDC (Convergência Democrática de Catalunha) que, com seus 22 deputados, permitiria uma maioria de 177 parlamentares.

 

Pedro Sanchez recusou o convite do Podemos, porque ao fazê-lo perderia o controle do PSOE do momento que deveria dar mais espaço à federação da Andaluzia, que representa a esquerda do PSOE. Para evitar que o partido desse um passo à esquerda, o secretário geral do PSOE, Pedro Sanchez, começou as negociações com o PP para o PSOE participar em um governo de "Grand Koalition", como fizeram os socialdemocratas na Alemanha. Nesta hipótese, o PSOE se diz disponível em fazer um acordo com o PP, para este governar durante 4 anos, sempre que nesse governo o PSOE seja contemplado com importantes nomeações ministeriais.

 

Por sua parte Mariano Rajoy, já no primeiro discurso após a confirmação da vitória, se manifestou disposto a negociar com o PSOE. Inclusive porque o PP não tem outra alternativa, a não ser de fazer um governo minoritário com o apoio externo de PSOE e Ciudadanos. Um governo de “emergência” que deveria ser conduzido por um primeiro-ministro “técnico”. O líder do Ciudadanos, Albert Rivera Diaz, depois do último escândalo no Ministério do Interior, não quer ter relações com Mariano Rajoy e seu grupo político.

 

Assim, visto a indefinição do eleitorado do Podemos e a situação econômica da Espanha, esperar mais seis meses para ter uma eventual maioria parlamentar seria um suicídio político para todos os partidos, visto que nesta eleição registrou-se o mínimo histórico de participação dos eleitores. Por isso tudo, nos próximos dias Rajoy e Sanchez devem assinar um acordo para a Espanha voltar a ter novamente um governo. O problema será o preço que os espanhóis deverão pagar para esse governo poder governar até 2020.

 

 

 

Achille Lollo  é jornalista em Roma do jornal on line “CONTROPIANO”, colabora com a revista “Nuestra América”, é editor do programa TV “Quadrante Informativo” e “Contrappunto Internazionale”.

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