Junho de 2013: o enigma que sobrevive

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Junho não é um calendário de luta: 2013 não se repete todo ano. O que resta até hoje de 20 de junho de 2013 é Rafael Braga, preso por ser pobre e negro, morador de rua. Sem ser pessimista acerca do espírito daquele junho, podemos depreender as ações dos estudantes secundaristas que ocupam as escolas, mas se organizam para além disso e inovam corajosamente na esfera das lutas.

 

De certa forma, junho de 2013 continua vivo depois de ser morto pela repressão, pelos conflitos entre as singularidades que compunham a multidão e pela representação contestada. Continua vivo na memória da revolta que não se dissipa e que possibilita múltiplas apropriações, como nos grupos anti-impeachment, um efeito que pode ser tido como indesejável.

 

Esses aspectos que levantei até aqui fazem com que junho de 2013 continue sendo um enigma. Sua ambiguidade faz com que passe por contínuas ressignificações ao longo do tempo e dos atores que buscam interpretá-lo. É nessa ambiguidade que mora a força e a fraqueza de junho de 2013, que lhe faz parecer vivo e morto ao mesmo tempo, com destaque para a sua capacidade de imprevisibilidade que chocou e marcou a sociedade brasileira.

 

Discordo de quem acha que junho de 2013 abriu uma guinada à direita (pois representou mais um ponto fora de uma curva que já era ascendente) tanto quanto daqueles que reificam junho de 2013 como um modelo de mudança a ser alcançado, e com isso fabricam uma prisão. Prefiro tentar entender as diferentes nuances do que estava em jogo naquele momento, e isso não é tarefa fácil, que talvez leve algum tempo.

 

O fato é que a mobilização mostrou sua capacidade de arranhar o poder constituído ao fazer com que os aumentos das passagens de ônibus fossem revertidos (ainda que a custa de renúncias fiscais), que a violência policial (antes restrita aos pretos e pobres, em especial os favelados) fosse amplamente reconhecida e, principalmente, que o medo mudasse de lado, mesmo que somente por alguns meses, mesmo propiciando uma reação forte do poder constituído que se estende até os dias atuais, vide a lei antiterrorismo.

 

Sim, parece que o momento atual é uma reação ao que junho de 2013 representou de mais ameaçador ao poder constituído: as pessoas nas ruas, gritando suas pautas que não eram unificadas (por vezes contraditórias), ameaçando de forma descontrolada quem estava operando nas esferas de poder. O descontrole que assustava também pode ser visto como uma das dificuldades encontradas pelo campo de lutas no pós-junho de 2013 no que diz respeito à capacidade de organização da multidão.

 

É nessa toada que os estudantes secundaristas vêm recuperar o que, na minha opinião, de melhor se produziu em junho de 2013. Não podemos esquecer que o repertório de ação em rede pode ser muito bem apropriado pela direita como bem provaram MBL, Revoltados On Line e Vem pra Rua nas suas manifestações pelo impeachment de Dilma.

 

Por fim, queria destacar que, depois de ser tido como morto, junho de 2013 vive na memória de um campo de lutas que se reconfigura a todo instante. E é essa memória do impossível que se fez possível, mesmo que por um breve instante e com limitações, que pode nos fazer sair da sensação de que estamos num beco sem saída.

 

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador da UERJ.

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