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Nem futuro, nem presente: ausências notáveis Imprimir E-mail
Escrito por André Rehbein Sathler e Valdemir Pires   
Sexta, 17 de Junho de 2016
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Estranho que um projeto, com a intencionalidade de desafiar o país a mudanças indispensáveis com vistas a fazer uma travessia entre o presente e o futuro, restrinja-se a aspectos da economia. Pois as pontes mais óbvias para se chegar ao amanhã são a educação, a cultura, a ciência e tecnologia.


Educação, condição para que os indivíduos acelerem o aprendizado necessário para sobreviver e conviver numa sociedade complexa e multifacetada, que não pode esperar que cada um cresça, intelectualmente, no seu ritmo e a seu modo, sob pena de se tornarem inviáveis – os indivíduos sem educação e a sociedade de mal-educados.

 

Condição mínima para que cada um compreenda seus direitos e deveres como cidadão, a educação é o primeiro passo para produzir adesão genuína ao sistema político democrático e, portanto, a única fonte de esperança com relação à garantia, emancipatória, de se viver em uma democracia.

 

Ausente no papel, presente em um cotidiano de caos: trotes violentos, estupros e assassinatos nos campi, faculdades organizando reuniões de pais para os chamarem à responsabilidade de “controlar” os seus filhos, a notória crise do ensino pré-universitário é notória, professores em pé-de-guerra, alunos ocupando escolas, escândalos e escândalos na provisão da merenda. Anedótico, não fosse sombrio, elege-se um notório brutamontes como interlocutor do Ministério da Educação.


Cultura, esfera da percepção e produção da vida como construção e expressão dos sentimentos e da noção do mundo e do outro, para a convivência civilizada. É a cultura que nos faz humanos, pode-se dizer. Ausente: Ministério da Cultura escanteado, artistas esculhambados, “indústria cultural” a todo vapor, políticas culturais bancadas por mecenas mesquinhos, com interesses estranhos.

 

Ciência e tecnologia (C&T), esteio e motor do desenvolvimento econômico num mundo de artefatos, inovações e produtividade que há poucos anos era ficção; necessariamente objeto de fomento governamental num país em que o mercado não impulsiona suficientemente a pesquisa e desenvolvimento (P&D). Ausente: órgãos de fomento em baixa, Ministério também escanteado, baixos investimentos, perda de cérebros para o exterior. Incapacidade completa de converter potencial em realidade, pois é da ciência que nasce a tecnologia com potencial disruptivo e transformador.


Políticas públicas de educação, cultura, ciência e tecnologia, obrigações de qualquer governo que se proponha assegurar futuro à Nação e ao seu povo. Ausentes: o que se construiu, a duras penas, começa a murchar e não se propõem evitar, pelo contrário.


Governo que defende “Ordem e Progresso” – expressão caduca no século 21, em que um novo tipo de progresso conduz a uma nova ordem, bem diferente daquela concebida pelos liberais e republicanos do século 19. Presente. E atuante na marcha para trás, mesmo dando passos curtos, de acordo com seu fôlego marcado por ilegitimidade e descompasso com a realidade.


Sem educação, cultura, ciência e tecnologia, o que se tem é um muro contra o futuro. Um muro sobre o qual se equilibram precariamente homens sem projeto coletivo, sem espírito republicano, sem responsabilidade de representantes, mas sedentos de poder – e sabe-se, cada vez mais, o único porquê. O vergonhoso porquê.


Até quando? Até que ponto? A que custo? Com amparo de quem?


Perguntas que não devem ser dirigidas a economistas, cientistas políticos, sociólogos, antropólogos ou filósofos, mas a cada um que constitui a massa de prejudicados, estando na base ou sendo a camada média da estrutura econômica que ora se derrete.

 


André Rehbein Sathler, economista, é doutor em Filosofia e professor do Mestrado Profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.


Valdemir Pires, economista, é professor e pesquisador do Departamento de Administração Pública da Unesp de Araraquara.

 

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