Sem reforma política e esforço coletivo não saímos do atoleiro

 

 

 

 

O PT rapidamente se acomodou na oposição ao governo Temer como se fosse um lugar desejado quase tanto quanto o golpe que o PMDB lhe desferiu. É a possibilidade que o partido tem para se aproximar de sua base social, em especial da parcela sindical e movimentos sociais institucionalizados com quem tecia uma relação já bem desgastada, em especial após a guinada à direita após outubro de 2014.

 

Lula aparece como principal candidato em sondagens recentes e articula com Renan Calheiros a possibilidade de emplacar novas eleições no caso de Dilma voltar, o que foi confirmado por ela na semana passada quando defendeu uma consulta popular neste sentido (de novas eleições) para configurar um novo “pacto”, durante entrevista na TV Brasil. Em geral, com a militância, o discurso do PT é “Fora Temer”, com participação nas diversas ocupações e atos a partir das Frentes Povo

Sem Medo e Brasil Popular, os nomes fantasias para sua atuação nas ruas; já nas articulações com os de sempre, por cima, trabalham com novas eleições entendendo que Dilma esgotou todas as suas possibilidades e não teria condições de governar. Aliás, fica difícil saber quem teria.

 

O PT só deseja o poder. Não tem mais qualquer possibilidade de empreender o que quer que seja de transformação social. Por outro lado, não me parece que exista uma organização da direita ou da esquerda a ponto de transformar o país. Essa falta de organização pode ser vista na tentativa do PMDB em aplicar um programa ultraliberal que intensifique o ajuste fiscal iniciado por Dilma. Não há projeto de transformação de país integrado à ordem global na qual os fluxos de capital constituem uma governança implacável sobre os Estados Nação.

 

O ponto chave é que a democracia brasileira, e não só ela, se caracteriza pela baixa capacidade de mobilização, o que não quer dizer que não exista luta, tendo em vista que os conflitos proliferam. No entanto, essas frentes não conseguem apresentar uma forma constituinte ou mesmo articulada com lutas regionais e globais.

 

Deste jeito, novas eleições, em especial se somente presidenciais, tornam-se um paliativo convincente para nos dar a sensação de que encontraremos o caminho quando estaremos adiando um problema fundamental que está na natureza excludente da representação atual.

 

Mas se nada disso vai resolver, o que fazer?

 

Tenho pensado muito na questão da reforma política. É muito claro que não deve tratar apenas da reforma do sistema eleitoral, a qual sempre achei limitante e me posicionei contra, quando a proposta ganhava corpo desta forma.

 

Três pontos podem fazer parte de um início de conversa para uma reforma política consistente que aproxime a população do sistema político:

 

1) a concentração dos fluxos de informação em oligopólios midiáticos;

 

2) a desmobilização mortífera das polícias militares em relação aos pobres;

 

3) a criação de esferas de participação de caráter deliberativo sobre as decisões que afetam a todos (orçamento, políticas públicas etc.), sendo que a remodelação e o fortalecimento dos conselhos pode ser um começo.

 

Talvez isso opere num formato de Assembleia Exclusiva para este fim, tendo em vista que o Congresso atual não parece ter qualquer possibilidade de discutir tal perspectiva. A questão é: não adianta trocar o representante ou os partidos quando uma crise institucional como a nossa se agrava a cada novo lance e a população passa ao largo sofrendo apenas as consequências.

 

O mais realista é entender que o mal estar não vai passar amanhã e vai depender de um esforço coletivo, não de um Messias, mesmo que eleito.

 

Leia também:

 

“Um governo com 80% de aprovação não fazer nada por uma sociedade mais coesa realmente cometeu graves equívocos” - entrevista com a economista Lena Lavinas.

 

“Na crise, princípios éticos precisam orientar a construção de soluções técnicas” - entrevista com o economista Guilherme Delgado.

 

 

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do Programa de Pós-Graduação da UERJ.

 

 

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