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Venezuela: tempo de pragas Imprimir E-mail
Escrito por Raúl Zibechi   
Quarta, 15 de Junho de 2016
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“Aqui foi desenvolvido um complexo processo revolucionário onde um bando terrivelmente corrupto e apolítico terminou apropriando-se do poder. A caverna de gângsteres quitou da classe trabalhadora venezuelana dez vezes o valor de seu trabalho. Se alguém no mundo pôde fazer semelhante desmando com a população que o diga”, escreveu no último dia 19 de maio o filósofo e militante social Roland Denis, vice-ministro do governo de Hugo Chávez em seus primeiros anos.

 

Da situação que vive atualmente a Venezuela é tão fácil acusar inimigos externos e internos do processo bolivariano quanto é difícil aceitar os desvarios que foram acumulando-se com os anos. Não há gás. Mesmo com o monopólio estatal, que produz e exporta hidrocarbonetos a granel. Não há cimento. Inexplicável, porque as fábricas, todas estatais, trabalham e produzem.

 

Sem dúvida as máfias desviam a produção para benefício de velhas e novas elites: tramas do poder que Denis qualifica como “caverna de gângsteres”, nas quais participam diversos atores desde as novas e velhas máfias até militares, policiais e membros do oficialismo. Tramas que se reproduzem em todos os rincões da sociedade venezuelana, acima e abaixo, já que virou moeda corrente fazer as coisas para beneficio pessoal sem olhar para o resto, sem ter em conta que se vive em algo que – antes – se chamava sociedade.

 

Militares

 

O general aposentado Cliver Alcalá integrou o Movimento Bolivariano Revolucionário 200, foi nomeado comandante por Hugo Chávez e ministro para a Região Estratégica de Desenvolvimento Integral Central. Em declarações a Globovisión, no último dia 18 de maio, disse que “votaria pelo referendo revocatório” (o referendo que poderia decidir a continuação ou o fim da gestão de Nicolás Maduro) “para evitar um enfrentamento entre o povo”.

 

Se trata de um militar leal a Chávez, de grande audiência dentro das forças armadas, que agora se afasta do governo. “O legado de Chávez está vigente, mas Maduro o administrou muito mal”, disse. Sobre a chamada guerra econômica do império, com a qual o presidente justifica o desabastecimento, o general aposentado disse que existe, mas “é gerada pela quantidade de trâmites e discricionariedade dos funcionários na administração pública, (a qual) origina um diferencial cambial que promove esta corrupção”.

 

Este tipo de declarações, formuladas por um general que se reivindica chavista, deve ser interpretado como um míssil contra o governo, e em particular demonstra a existência de uma sensibilidade chavista contrária a Maduro. Como destaca Denis, “um messianismo profano parecera nascer novamente, tendo a possibilidade de canalizar um chavismo desesperado pela decomposição total de um governo que diz representá-lo”.

 

Cliver Alcalá se mostra temeroso de uma possível “explosão social” causada pela falta de alimentos e corrupção. Aposta que a saída de Maduro unifique o chavismo e reconhece a divisão existente nas filas que apoiam o processo bolivariano.

 

O certo é que há dois fatos que parecem indiscutíveis. Um é que os militares estão divididos: nem todos apoiam o governo, e mesmo os dissidentes não estão necessariamente alinhados com a oposição. O mesmo sucede com parte considerável dos chavistas, o que pode-se constatar nas ruas, nas filas ou em qualquer conversa familiar. Os chavistas críticos do atual governo não querem se alinhar com um discurso que culpa toda a direita, os meios de comunicação e o imperialismo, um discurso desgastado, que faz água por todos os lados.

 

O resultado é que surge uma terceira opção entre o governo e a oposição e que busca, em palavras de Alcalá, “o reencontro do chavismo”. Esta corrente parece pensar no médio prazo mais que na conjuntura, tentando evitar que o legado de Chávez seja dilapidado e suas forças se dispersem em múltiplas correntes. Esse projeto passa por impor distâncias com o atual governo e, segundo se depreende das declarações do general, depor Maduro.

 

Explosão social

 

Desde o Caracazo de fevereiro de 1989, a possibilidade de que se repitam explosões sociais na Venezuela é um fato. Esta semana em Barquisimeto foi possível apreciar, em primeira mão, dois fatos marcantes. Frente a uma cooperativa que distribui alimentos com preços regulados, formou-se uma multidão, em sua maioria adultos que exigiam cotas alimentares para si. Havia pessoas que atiçavam o saque e que os cooperativistas identificavam como membros da oposição.

 

Nas enormes filas que se formam em frente às feiras de Cecosesola há entre cinco e dez mil pessoas. Muitas vezes se impacientam, seja pela prolongada espera ou porque os “bachaqueros” escapam rompendo a ordem. Alguém gritou: “saque”! Um senhor forte se agarrou ao portão e disse em voz bem alta: “não haverá saque”. A multidão pareceu sentir-se aliviada. De toda forma, todos asseguram que há pequenos saques que não aparecem nos meios de comunicação, sobretudo em pequenos supermercados de bairro.

 

É evidente que a oposição quer e impulsiona levantamentos populares. Mas também parece claro que a população não acompanha, pelo menos neste tipo de métodos. Um dos maiores legados do chavismo consiste em que afiançou a autoestima dos setores populares e sua politização. O povo sabe de que se trata e parece consciente de dever evitar situações de violência para não dar oportunidade a saídas que não o favorecerão.

 

Denis colocou, por sorte, o cenário sírio como possível saída. Por sorte porque é evidente que é o pior cenário para os povos desta região do mundo, mas quiçá um dos mais apetitosos para os think tanks do Comando Sul estadunidense. A queda do governo seria apenas um passo em busca de algo maior: “o certo, como na Síria, é que o sangue e o desespero farão impossível qualquer opção de libertação”, assinala Denis.

 

O que diz a propaganda oficialista é que o império está acostumado (e nisso baseia seu poder) a negociar com cúpulas corruptas, mas pouco pode fazer frente às multidões decididas a fazer valer seus direitos. Os poderosos, incluindo progressistas, “tomarão seus aviões e dólares expropriados da riqueza pública para aportar nos apartamentos e sítios que já possuem na Europa e nos Estados Unidos. Mas as centenas de milhares de mortos que virão na continuação, os poremos todos na nossa conta”.

 

Por acaso o ditador Marcos Pérez Jiménez não fugiu da República Dominicana para terminar na Espanha protegido pelo ditador Francisco Franco, quando uma insurreição popular e um levantamento militar o afastaram do poder em 1958?

 

Sim, podemos

 

“Já descobri porque as pessoas gostam de fazer filas”, disse um menino de poucos anos para sua mãe. Nas horas que passou de pé esperando para comprar fez amigos, se relacionou com outras pessoas que o ofereceram salgadinhos e sucos, conversaram, compartilharam, passaram muito bem. Todos os dias, em todas as filas, é possível ver gestos comovedores de generosidade.

 

Assim como existem fortes tendências no sentido da decomposição, há outras enraizadas na solidariedade que se movem em sentido inverso, mantendo a coesão social. Na Venezuela de hoje são produzidos muitos alimentos, e em alguns ramos, como hortaliças e frutas, são abundantes. As feiras da Cooperativa Central de Serviços Sociais de Lara (Cecosesola) são um bom exemplo. Vários dias percorrendo os postos são suficientes para se convencer da abundancia de bananas, mamões, abacaxis e outras variedades de frutas tropicais. Tomates não faltam, assim como as principais hortaliças. Outra questão é o preço. Em todo caso, nas três feiras com 300 caixas há alimentos em número adequado.

 

O problema principal está nos produtos com preços regulados. Sobretudo a farinha de milho para fazer as arepas (comida tradicional) e também massas, açúcar, azeite e, de modo especial, o leite. Ficam escassos os produtos de preço regulado, mas ao mesmo tempo podem ser encontrados no mercado paralelo a preços dez ou até mesmo 50 vezes superiores ao oficial.

 

Outro caminhada entre povos rurais dos estados de Lara e Trujillo permite conhecer grupos de camponeses que cultivam e plantam grandes quantidades de hortaliças e verduras. Não desafiam poucos problemas: a falta de sementes, a escassez de insumos, as enormes dificuldades para transportar a produção até as feiras, porque os meios de transporte necessitam pneus (que não existem ou acabam encontrados a preços abusivos) e porque não há reposição para os veículos e caminhões. Em qualquer cidade há enormes filas de carros para comprar baterias. Uma fila permanente, de várias quadras, onde os carros e seus condutores dormem e velam o momento de poder comprar.

 

Certamente, o país ainda produz. Ainda que as filas consumam uma energia social considerável que se furta à produção. As fábricas nacionalizadas produzem cada vez menos, muito menos do que quando estavam em mãos privadas. É o caso, por exemplo, das fábricas de cimento mexicanas, como a Siderurgica del Orinoco (Sidor) que foi reestatizada em 2008 após amplo conflito sindical. Chegou a produzir 4,3 milhões de toneladas de aço, mas em 2014 já baixou a 1,3 milhão de toneladas, cerca de 29% de sua capacidade.

 

É triste comprovar que quando a Sidor pertencia ao grupo argentino Techint produzia 3,5 vezes mais que nas mãos do Estado. O próprio sindicato reconheceu que há desvios de fundos, falta de reposição e matérias primas e que não existem auditorias. De algum modo se conjugam a ineficiência com a corrupção, em todos os níveis, para que o país tenha chegado a esse extremo.

 

Pragas e classes

 

A travessia de Caracas de leste a oeste da cidade, e vice-versa, permite comprovar que toda a propaganda oficial se dissolve na crua realidade. Os ricos vivem cada vez melhor. Os pobres seguem como sempre, mas agora também fazem filas enormes.

 

A zona leste de Caracas mostra sua elegância, com amplos espaços verdes e arborizados; por suas avenidas circulam carros novos e podem ser observados numerosos edifícios de recente construção. Mas o que mais chama a atenção é que em plena crise e escassez de cimento seguem construindo centros comerciais, edifícios e hotéis de luxo. É o mesmo estilo de cidade que conhecemos em todas as zonas de classe média do continente.

 

A zona oeste é bem diferente. Ruas empoeiradas e casas precárias, absoluta falta de iluminação pública noturna, carros velhos caindo aos pedaços e um grande etecetera que também conhecemos nas grandes cidades latino-americanas. As filas são intermináveis, não apenas extensas, mas permanentes diante de qualquer comércio em busca de qualquer produto. Nos bairros privilegiados as filas são quase inexistentes.

 

É certo que a geografia urbana esconde detalhes que devem ser descobertos. A classe média tradicional está em queda livre e é um dos setores mais eriçados contra o chavismo. A segunda questão é que a antiga elite deve somar-se à nova, surgida do processo bolivariano, a chamada “boliburguesia”.

 

Diante de semelhante panorama vale a pergunta: por que os ricos da Venezuela querem derrubar o chavismo, quando eles mesmos não foram tão mal nestes anos? Não é fácil amarrar uma resposta, sobretudo porque entre os antichavistas há setores muito diversos, desde as classes médias empobrecidas até as velhas e novas máfias. A resposta seria óbvia se considerarmos que os grandes países ocidentais, com os Estados Unidos à cabeça, desejam controlar as maiores reservas de petróleo do mundo.

 

A resposta verdadeira, a que não pode ser pronunciada em voz alta, foi dada por um empresário uruguaio radicado há muitos anos em Caracas. “Não queremos que os negros nos governem”, em tom mórbido, esboçando um sorriso, como quem reprime a vontade de soltar uma gargalhada entalada. Quando as classes se solapam com a cor da pele, o racismo deve dar uma larga volta, eludindo as tranqueiras do politicamente correto. Quiçá o orgulho e a autoconfiança adquiridos pelos setores populares, que foi crescendo desde o Caracazo de 1989 até colorir a sociedade com seu estilo barulhento e desalinhado, rompendo a monotonia das salas de espera dos aeroportos, seja a melhor herança do chavismo. Essas coisas que chateiam e irritam as boas famílias.

 

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A Venezuela na encruzilhada

 

 

Raúl Zibechi é jornalista e cientista político uruguaio.

Publicado originalmente em Brecha.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Quarta, 22 de Junho de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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