Usinas nucleares vs. usinas hidrelétricas

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Tenho acompanhado a cerrada campanha orquestrada por alguns jornais, emissoras de TV e órgãos de classe da indústria, a favor da construção de Angra III.

 

Vejam só o tamanho do rombo que isso abrirá nas finanças do setor elétrico:

 

O custo de geração de Angra III será de, no mínimo, R$ 174/ MWh, valor calculado de acordo com o que faz a Eletronuclear, isto é, lançando a fundo perdido o R$ 1,55 bilhão já investido no projeto (sem juros e demais encargos financeiros) e colocando o custo do combustível em apenas R$ 12/MWh. Angra III terá uma potência de 1.350 MW elétricos e espera-se que opere com um fator de capacidade de 0,85. Enquanto isso, o custo de geração de Belo Monte deverá ser de R$ 44/MWh.

 

É certo que os aproveitamentos hidrelétricos mais próximos dos pólos de consumo já foram, quase todos, explorados, portanto, não se pode esperar que a energia gerada em novos projetos tenha custos comparáveis aos antigos - pois, entre outras coisas, deve-se acrescentar o custo da transmissão, cuja incidência vai aumentando, na medida em que os novos aproveitamentos localizem-se em regiões mais afastadas. A não ser que as novas usinas possam ser conectadas diretamente à rede básica, que, por sua vez, deverá ser expandida.

 

No caso de Belo Monte, a transmissão da energia ali gerada seria feita mediante uma linha ligando a subestação coletora de Xingu a Imperatriz, que é um nó dos sistemas Norte Nordeste e Norte Centro-Oeste. Além disso, seria reforçada a linha Imperatriz-Serra da Mesa, que está na rede básica (SIN). Tal sistema implicaria um custo de transmissão de, aproximadamente, R$ 12/MWh, de modo que a energia de Belo Monte chegaria ao sistema Sul-Sudeste por algo em torno de R$ 56/MWh. A potência elétrica de Belo Monte será de 11.181 MW, com fator de capacidade de 0,35.

 

Assim, em 1 ano de operação, Belo Monte produzirá cerca de 34 milhões de MWh, enquanto Angra III produziria apenas 10 milhões de MWh. Tomando-se, agora, a diferença entre o provável custo da energia de Angra III e o de Belo Monte (colocada no sistema interligado nacional), vê-se que, para gerar a mesma quantidade de energia que Angra III produziria em um ano de operação, a um custo de, aproximadamente, 1,75 bilhão de reais, a usina de Belo Monte gastaria 563 milhões de reais, economizando, portanto, cerca de R$ 1,18 bilhão, por ano.

 

Com esse dinheiro poderíamos financiar o desenvolvimento de um protótipo de reator de potência na faixa de 200MW a 400 MW elétricos. Em sistemas desse tipo, o porte das unidades não implica deseconomias de escala; muito pelo contrário, os investimentos são amortizados em paralelo com o crescimento do mercado. Instituições como o IPEN, o Centro de Tecnologia da Marinha, em Aramar, e outras de nível equivalente estão perfeitamente qualificadas para desenvolver um projeto desse tipo e disso já deram prova, com o desenvolvimento de centrífugas de grande apuro técnico, para o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação.

 

Ocorre que a AREVA (gigante industrial francês que incorporou a FRAMATOME e o setor nuclear da alemã Siemens) precisa ratear ou diluir os enormes custos do desenvolvimento de centrais nucleares de nova geração, para repor o parque eletronuclear francês, que se aproxima do fim de sua vida útil. Isso é vital para a França, onde 78% da eletricidade vêm de centrais nucleares. Mas não é urgente para o Brasil, que até o presente aproveitou apenas um terço de seu potencial hidrelétrico. Seria a AREVA a orquestradora da campanha a favor de Angra III?

 

Voltando às hidrelétricas, acredito que a oposição dos ambientalistas será amainada na medida em que compreendam que, com bom planejamento, os inevitáveis impactos ambientais das futuras hidroelétricas são perfeitamente assimiláveis pelos ecossistemas amazônicos e que os aproveitamentos hidroelétricos serão, forçosamente, os melhores aliados das florestas. Pois, se houver desmatamento, os assoreamentos, as cheias e as estiagens daí resultantes inviabilizarão os próprios aproveitamentos hidroelétricos.

 

 

Joaquim Francisco de Carvalho, licenciado em Física e mestre em Engenharia Nuclear, foi diretor industrial da NUCLEN.

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Comentários   

0 #4 esse texto nao tem nada versarah adriane campos rinalde 16-09-2010 13:13
esse texto nao tem nada a ver com o que o titulo se pede ele enrrola enrrola e nao fala na de usinas hiderletricas e nucleares
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0 #3 Usinas nucleares X usinas hidrelétricasGabriel e vicente 04-12-2007 06:01
Observando o site da Vale do Rio Doce http://www.vale.com/vale, vi que esta empresa arrematou nove blocos em leilão da ANP, o que me levou a seguinte reflexão:
a necessidade de energia faz com que ela tenha necessidade de desenvolver tecnilogia em geração de energia, tendo anunciado que investiria em desenvimento de geração de energia limpa, pode ser uma investida para a construção de novas barragens, como por exemplo na Amazônia, entre outras. Um grande abraço
Carlos
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0 #2 eng eletricista (ex-Cemig)Julio Cezar Monnerat 02-12-2007 21:26
Lembro da importância de diversificarmos a nossa base de geração, lembrando que uma estiagem que ocorra nesses proximos anos poderá ser uma tragédias para garantir o funcionamento e o crescimento do país. Portanto a analise do custo da energia nuclear tem que levar em conta a garantia de energia. concordo também que precisamos investir na tecnologia proposta pelo dr Joaquim. O que nos falta é capital ou prioridade de investimento de longo prazo e sem descontinuidades.
JCMOnnerat
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0 #1 Por que o bom planejamento não começa agRodolfo Salm 30-11-2007 20:57
É verdade que os assoreamentos, as cheias e as estiagens resultantes dos desmatamentos, no longo prazo inviabilizarão o aproveitamento hidrelétrico do Xingu. Mas isso não é nenhuma garantia de que haverá um “bom planejamento”, capaz de evitar tal tragédia. Os desmatamentos na região do Xingu não estão de forma alguma controlados. Como podemos crer que a colonização e as melhorias de acesso ligadas à construção de Belo Monte não causaram novos desmatamentos em escalas catastróficas? Por que o bom planejamento não começa agora com a contenção da devastação na região? Quem sabe, assim nós não poderíamos começar compreender que os impactos dessa hidrelétrica sejam assimiláveis pelos ecossistemas amazônicos. Agora, sem qualquer sinal de melhora, lamentavelmente não dá para acreditar que isto seja possível.
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