Copa América da Cooptação?

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“Eu sequer me animaria a chamar de Copa América. Não tivemos tempo de fazer uma preparação para enfrentar jogos no calor ou algo parecido. São seis times centro-americanos, ou norte-americanos, e isso já torna tudo diferente. Pode até ser, eu não gosto, mas quem chegar na final terá de percorrer os Estados Unidos inteiros. Além do mais, apesar de não ter a ver com os jogos, estamos falando das duas confederações mais castigadas pelas investigações (Conmebol e Concacaf)”.

 

O autor da frase? Ninguém menos que Óscar Tabárez, o longevo treinador da seleção uruguaia, que enquanto esse texto era redigido já tinha confirmada sua eliminação da insólita edição.

 

Pois bem. Como se sabe, estamos diante de uma “edição extra”, fora do calendário tradicional, da mais antiga competição continental entre seleções.

 

Nada contra. Se observarmos a história, veremos que em vários momentos a Copa América foi jogada em anos consecutivos ou em alternância irregular, de acordo com o gosto e as vontades da época.

 

Dessa forma, uma edição para festejar 100 anos de futebol, sentimento e outras milongas teria tudo para nos conduzir a momentos e lembranças de um jogo que já foi muito mais romântico.

 

No entanto, até pelo número suspeito de cortes de jogadores em cima da hora, por lesão ou sabe-se lá o que, é possível dizer que a edição sediada na casa do grande irmão do norte ganhou ares de mero caça-níquel.

 

Uma pena, que inclusive parece refletir no desempenho de diversas seleções, que logo adiante terão de voltar suas baterias para as Eliminatórias da Copa do Mundo.

 

De toda forma, vale questionar até que ponto os interesses em levar a centenária competição para os eternos “campeões do mundo daqui a 20 anos” podem comprometer a suposta limpeza pela qual passa o establishment do futebol.

 

Já completou-se um ano da histórica investida do FBI em Zurique, às vésperas do Congresso da FIFA, a levar presos diversos cartolas, em especial das Américas, e antecipar o fim do reinado de Joseph Blatter.

 

Como se viu, o novo presidente da FIFA, Giovanni Infantino, não parece tão novo assim e não escapou da famosa lista dos Panama Papers, que versava sobre documentos relativos a “investimentos financeiros” em contas off-shore, salvaguardados pelo escritório de advocacia Mossack & Fonseca.

 

Os processos abertos pelo FBI e a promotoria pública de Nova York ainda estão correndo e, apesar da sensação de justiça feita, a verdade é que os antigos mandatários de Conmebol, Concacaf e algumas federações nacionais ainda não estão formalmente condenados.

 

Além disso, nada foi revisto na negociação dos direitos de televisão para 2015, 2019 e 2023, além da presente edição.

 

Capitaneada por um consórcio que envolveu Alejandro Burzaco (TyC Sports), José Hawilla (Traffic) e Mariano Jinkis (Full Play), os valores distribuídos até hoje seguem secretos.

 

O que não é segredo são as propinas distribuídas pelos representantes das empresas de mídia por entre os mandatórios do futebol das Américas.

 

Não se trata de “secar” o futuro dos processos. Mas vivemos tempos que não permitem ingenuidade, de modo que tememos pela diluição da intensidade de investigações e penas.

 

Para os donos da casa, mais uma oportunidade de auferir lucros numa competição de visibilidade mundial, seguida de aumento do interesse pelo campeonato local, algo já verificado na última temporada.

 

Para nós, os mortais que só querem ver um bom jogo ao lado de uma boa cerveja, um convite ao esquecimento dos crimes desses autênticos “condores” do futebol.

 

Fiquemos atentos.

 

 

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3.

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