Pequenas grandes razões para pensar em crise

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Há algumas semanas vi uma reportagem sobre microcefalia. A repórter visitou, entre outros lugares, um bairro periférico na cidade de Recife. Lá havia a ocorrência de casos recentes de microcefalia associados a gestantes que foram infectadas pelo zika vírus. A transmissão do vírus guarda relação estreita com condições precárias de moradia e saúde (com destaque para saneamento e vigilância sanitária), que é uma realidade nas periferias urbanas.

 

A reportagem entrevistou especialistas da área de saúde que tratavam de aspectos clínicos e epidemiológicos da doença, e também trouxe falas de mães. Lembro em especial de uma, que havia percebido como os problemas sociais presentes no seu bairro haviam entrado dentro de seu útero e corrompido seu sonho de parir uma criança saudável.

 

Os depoimentos das mães que haviam contraído o vírus durante a gestação e deram à luz crianças microcéfalas revelavam existências maternas, portando um misto de carinho e tristeza, insegurança e esperança, esforço e penalização em um caleidoscópio de sentimentos contraditórios que se sintetizavam em uma espécie peculiar de ratificação ritualística de sofrimento e fé. Um sofrimento que está à espreita para tocaiar e golpear milhares de brasileiras e uma fé que as leva a erguer a cabeça e continuar lutando.

 

As condições estão prontas para prosseguir o desenvolvimento de mais uma tragédia social: prevenção à saúde, saneamento e condições de moradias em situações precárias, tudo isso associado à ausência da possibilidade de reverter com urgência esse quadro através de investimentos públicos. Os investimentos da envergadura necessária para dar uma resposta à altura da gravidade do problema desestabilizariam o mercado, alegam alguns, ou no mínimo o deixariam nervoso, o que já seria demasiado grave, afirmam outros.

 

Muitas dessas mães viram nos últimos anos as peças publicitárias relativas ao segundo domingo de maio. Belas imagens e situações relativas à produtos de beleza, de alimentação ou cartões de crédito entraram dentro de suas casas simples e, em muitos casos, “menos do que simples”, mas que tem uma televisão moderna, talvez do tempo em que já éramos persuadidos a não pensarmos em crise, sob a justificativa de que era uma “marolinha”.

 

De qualquer forma, ainda que não tenham tanto motivo para sorrirem e para acharem que crises são fenômenos menores, as mães trabalhadoras pobres, para quem a propaganda cria ilusões de produtos (boa parte dos quais inacessível a elas) linkados a ideais de realização, acabam, contraditoriamente, alimentando um sentimento rebelde de direito à felicidade.

 

Assim, como uma espécie de efeito colateral indesejado aos objetivos das peças publicitárias, se despertam fantasias que remetem a propósitos ou sentimentos de pertencimento que não encontram mediações na configuração desigual e mercantil de nossa sociedade. Pois a injustiça social e concentração de riquezas são determinações históricas que se impõem aos sonhos do povo brasileiro, aquele “muro” que nos separa de nossas aspirações, como diria nosso querido Plínio de Arruda Sampaio.

 

Há alguns dias, tomei ciência da sugestão do atual ministro da saúde em limitar os recursos, já sabidamente insuficientes, para o SUS. Também fui surpreendido ao saber que tanto os Estados quando a União diminuíram os investimentos em vigilância epidemiológica entre 2014 e 2015. A política de ajuste fiscal tem implicado em redução nos investimentos em saúde, saneamento e moradia nos últimos anos, o que agrava a crise social que a população brasileira já vive nessas áreas. E para coroar a lógica antissocial de funcionamento do Estado brasileiro, temos a notícia recente de que o Congresso manteve o veto de Dilma à auditoria da Dívida Pública, auditoria esta que poderia revelar os vícios de um mecanismo que drena quase metade dos recursos orçamentários da União para uma elite econômica, acentuando a desigualdade econômica e agravando os problemas sociais brasileiros.

 

Nesse contexto, se coloca também o desafio de entendermos a dinâmica política ligada ao quadro de ignomínia social em que vivemos a partir de uma análise dos dilemas colocados para as classes dominantes brasileiras. O quadro de fragilidade da economia brasileira no cenário internacional, agravado pelas políticas liberalizantes das últimas décadas, deixa as classes dominantes em uma situação complexa em que, apesar de continuarem acomodando seus privilégios, não o fazem sem um pavor permanente de que o povo questione a direção política dada ao país e ouse organizar seus anseios em lutas por justiça social e fim das desigualdades.

 

Não faltam problemas sociais para enfrentar e ainda que a política seja apresentada como um circuito fechado em que os partidos da ordem se alternam para implementar fundamentalmente a mesma orientação de garantia de lucros financeiros às custas da piora das condições de vida “dos de baixo”, de tempos em tempos a classe trabalhadora brasileira esboça uma vontade de tomar seu destino com as próprias mãos.

 

Em face da possibilidade de revolta e insubordinação “dos de baixo”, o medo dos donos do poder concentra boa parte de suas energias na ideologia de dissociação sistemática entre os desejos de uma vida melhor do povo e a conquista de direitos sociais. Têm sido necessários conselhos, ordens e ameaças para que não se pense sobre os problemas sociais. O conhecimento de uma história marcada por abusos de autoridade, golpes desleais, traições de classe e pelas crises, que são causa e consequência de mais injustiça e desigualdade social, é visto como perigoso e talvez até “terrorista” por alguns.

 

Por isso, nossa tragédia histórica se reedita como farsa quando um representante ilegítimo das classes dominantes (tão ilegítimo quanto todos os fantoches da burguesia dependente, que assumem o poder do Estado para reciclá-lo como instrumento de dominação e segregação) diz, de modo que poderíamos achar simplesmente cínico, se não fosse a própria síntese da perversão autocrática: “Não pense em crise, trabalhe!”.

 

A repressão da reflexão é apresentada como remédio para os males sociais, solução típica de uma classe dominante intolerante e ignorante. Assim, é atualizada a defesa contra os impulsos democráticos que se fundamentam em reflexão e debate. E o desenvolvimento de pensamento e linguagem próprios sobre a nossa formação histórica, sobre os nossos problemas sociais, é novamente rechaçado pelas classes dominantes brasileiras.

 

É nessa atmosfera de intolerância e ignorância que encontramos a explicação para o ufanismo com que MBLs e congêneres importam as receitas neoliberais como elixir para plasmar as reflexões e conflitos sociais. Entretanto, a heteronomia estrutural e constitutiva da sociedade brasileira, que se impõe ao nosso povo através dos sofrimentos absurdos do presente e da pilha de pessoas índias, negras e trabalhadoras estupradas, escravizadas e mortas que estão inscritas na nossa história, faz com que as ideias velhas e novas das classes dominantes estejam invariavelmente “fora do lugar”.

 

Cada criança que nasce microcéfala por falta de investimentos em saúde, moradia e saneamento básico me faz pensar nessas questões e também me lembra, através das limitações e sofrimentos que são impostos às suas famílias, que meritocracia e ajuste fiscal significam muito mais do que piadas de mau gosto.

 

 

 

Potiguara Lima é militante da educação pública e filiado ao PSOL.

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