topleft
topright
ISSN 1983-697X

Boletim Diário

Email:
Para assinar o boletim de
notícias preencha o
formulário abaixo:
Nome:

Brasil nas Ruas

Confira os artigos sobre manifestações e movimentos sociais no Brasil.

Arquivo - Artigos

Áudios

Correio da Cidadania, rádio Central 3 e Revista Vaidapé fazem “debate autônomo” sobre as eleições  

Leia mais...
Image

Plinio de Arruda

MEMÓRIA

Confira os textos em homenagem a Plinio


Leia Mais

Plinio em Imagens



Confira a vida de Plínio


Charge


Imagem




Artigos por data

 Aug   September 2016   Oct
SMTWTFS
   1  2  3
  4  5  6  7  8  910
11121314151617
18192021222324
252627282930 
Julianna Willis Technology

Links RSS

Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania

Áudios - Arquivo

AumentarDiminuirVoltar ao original
Pedro Simon: 'O Brasil está se decompondo' Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader (Colaborou Mateus Alves)   
Sexta, 30 de Novembro de 2007
Recomendar

 

O desenrolar dos acontecimentos da arena política nesse ano foi a mais nítida expressão de como decorrem as negociações para a construção da nação. Seria mesmo construção? A absolvição de um presidente do Congresso cujos indícios de desvio de comportamento eram mais do que cristalinos, a desfaçatez com que este continuou a circular por uma das mais importantes Casas do país, o recentíssimo toma lá, dá cá patrocinado pelo governo para aprovar a outrora tão abominada CPMF são alguns dos espetáculos que nos são propiciados pelos Poderes da nação. Obviamente, e infelizmente, concorrem para a sua desconstrução.

 

O Correio da Cidadania foi a Brasília para conversar sobre alguns grandes temas atuais com uma das figuras públicas que mantêm seu destaque no cenário nacional por sua conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética. Se esses são atributos que deveriam ser obrigatórios no currículo de qualquer político ou ocupante de cargo público, são, atualmente, sem dúvida alguma, uma raridade.

 

Indagado sobre como se definiria hoje politicamente, o senador Pedro Simon não poderia ter respondido de forma mais reveladora: “Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias (...) Acho que isso está ficando difícil”.

 

Confira abaixo.

 

Correio da Cidadania: Sendo atualmente uma das figuras públicas de grande destaque no cenário nacional, por uma conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética, como o senhor se definiria politicamente hoje?

 

Pedro Simon: Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias. Algo muito concreto sobre isso é a questão da tributação sobre cheques, a CPMF. Ela foi criada no tempo de Fernando Henrique Cardoso e o governo era radicalmente a favor, enquanto Lula e o PT eram radicalmente contra. Agora estamos votando a questão novamente, e FHC e o PSDB estão fanaticamente contra – para o que não enxergo razão - e Lula e o PT não conseguem entender como alguém pode ser contra. Não entendo esse discurso, continuo a mesma pessoa, defendendo as mesmas teses. Acho que isso está ficando difícil.

 

E ainda no mesmo caso da CPMF, a negociação do governo é na base do troca-troca: dão emendas a senadores e deputados, nomeações... Não há uma linguagem ética, há sim uma linguagem de toma lá, dá cá. Estou ficando superado, não tenho mais muito que fazer por aqui.

 

CC: A seu ver, qual é a crise do Brasil de hoje? Trata-se de um problema somente ético?

 

PS: Eu tenho dito que o Brasil vem se decompondo. Sou de uma geração que se baseava na família, na escola e na Igreja. Hoje, a família se decompõe; aquilo que se conversava com o pai, a mãe, a tia, foi trocado pelo que a televisão diz. Eu era do tempo que famílias faziam visitas, todos se juntavam para ir visitar outra família. Lá no Rio Grande do Sul, isso era muito típico. Quando era estudante, olhávamos o guri na rua e, conforme ele estava vestido, que poderia ser de modo espalhafatoso ou certinho, por exemplo, já sabíamos imediatamente qual era o seu colégio. Se alguém dizia que "precisamos defender nossos direitos", sabíamos que era do Júlio de Castilho, um colégio público. A escola nos formava; tínhamos um conteúdo profundo de debates e discussões. Hoje, não há mais isso. A escola prepara para o vestibular e nada mais; não tem formação, não tem consistência.

 

A religião, como um padrão social, moral e ético, também não mais existe. Eu vejo que tudo isso se decompôs no Brasil.

 

CC: Apropriando-se dessa discussão em nossa política, arena da qual o senhor participa hoje ativamente, muitos estudiosos dizem que não vivemos uma crise institucional no Brasil, dentre outros, porque a República está calcada em uma forte figura presidencial. Ao mesmo tempo, temos um Executivo que legisla, encaminhando uma série de medidas provisórias, e um Congresso que está submetido de forma inconcebível ao Executivo, por exemplo, por hora das liberações orçamentárias. Não estamos diante de, no mínimo, um disfuncionamento em nossa República ?

 

PS: Se formos analisar os Poderes, não há dúvida nenhuma. O Congresso nunca esteve tão no chão. O Congresso não legisla mais. Veja agora, ainda usando o exemplo da CPMF, que é a última necessidade que Lula teve no Congresso. Trata-se de uma emenda constitucional que precisa ser aprovada. Se for aprovada, até o final do governo, Lula não vai precisar mais do Congresso Nacional. Por meio de medidas provisórias, o governo faz o que quer. Nós não temos o que fazer. O que votamos são coisinhas de nada, e, mesmo assim, o presidente pode vetá-las - já há mais de mil vetos na gaveta.

 

A atribuição legislativa do Congresso é votar medidas provisórias; sua outra atribuição é a fiscalização, e nisso temos uma posição muito importante. O Congresso fez o impeachment do Collor, fez a CPI dos anões do Orçamento, por exemplo. Essa fiscalização, o Congresso tem feito. Porém, é inconseqüente; até hoje, no Brasil, quem vai para a cadeia é ladrão de galinha. Não há notícia nenhuma de alguma pessoa que seja mais ou menos importante, que pode pagar um bom advogado, que tenha sido presa. O Brasil é o país da impunidade. Você lê notícias de denúncias de corrupção, bandalheira, roubalheira, uma vez, uma segunda vez, três vezes, quatro vezes, e nada acontece. Paulo Maluf, por exemplo, está há 20 anos respondendo a um processo e nada acontece; com pessoas que possuem as mesmas condições que ele também não acontece nada.

 

O cidadão brasileiro tem, portanto, uma interpretação da sociedade brasileira como uma sociedade de absoluta irresponsabilidade. Podem dizer que não há uma crise institucional porque Lula está muito forte, mas isso não é bem assim. Houve um momento em que Lula estava fraco, alguns queriam o impeachment do presidente após as denúncias que envolviam o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. No entanto, se esse tipo de processo fosse votado, o Brasil ficaria insustentável. A partir daí, o presidente se solidificou.

 

CC: Por que a situação não explode? O que retém a chegada ao fundo do poço? Não seria melhor uma explosão, uma ruptura, a esse marasmo?

 

PS: Eu diria que não há uma crise institucional porque todo mundo tem medo do que possa acontecer se tirarem Lula do poder. Os militares, hoje, são sérios, responsáveis, mas também vazios. Muita gente não se dá conta de que Castello Branco, quando foi presidente, acabou com a prática existente no militarismo brasileiro, onde, a cada dez anos, se pedia licença e se afastava - ele, Golbery de Couto e Silva, entre outros. Essas pessoas eram generais, e estavam permanentemente de licença. E era a turma que preparava golpes, malandragens.

 

Hoje, nas forças armadas, não se vê nenhum nome importante, um marechal Henrique Lott, um brigadeiro Eduardo Gomes. O último general que chegou a ter um prestígio enorme foi o general Leônidas, que garantiu que quem assumisse a presidência do Brasil fosse José Sarney ao invés de Ulysses Guimarães. No governo de Sarney, foi um homem poderosíssimo, mas, quando este terminou, foi para casa e ninguém mais soube dele.

 

Hoje não há uma pessoa forte no meio dos militares; quem exerce tal papel é o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Esse fato de os militares terem se retirado e de não terem condições de ficar eliminou a possibilidade de qualquer golpe. Quando Lula publicou o estudo sobre a tortura durante o período da ditadura, houve uma declaração controversa do ministro do Exército. Nelson Jobim disse que, “se falasse, teria resposta”. E ficou por isso mesmo. Antes, uma fala do ministro do Exército gerava uma confusão dos diabos.

 

Ninguém quer criar um ambiente insustentável para o Brasil. E Lula está se valendo disso, para ficar tudo bem.

 

Na Venezuela, no Equador, há a possibilidade da reeleição, algo que já começa a ser ventilado por aqui, com a possibilidade de um terceiro mandato de Lula. E vem Fernando Henrique Cardoso e diz que é um absurdo, um escândalo, esquecendo que foi ele quem começou com isso no país. Ele criou a emenda que proporcionou a reeleição no Brasil, algo que não existia – e, até hoje, não saiu o resultado da CPI para provar como as pessoas aprovaram isso. Ele que fique quieto, apesar de não ser mesmo essa a hora de criar a possibilidade de uma nova reeleição.

 

CC: O senhor crê que tal projeto pode amadurecer, visto que alguns deputados da base aliada ao governo andaram fazendo articulações nesse sentido?

 

PS: O governo, quando fala em negociar, fala em troca-troca. Isso começou com FHC, e está acontecendo agora com a questão da CPMF. O governo parte para uma negociação tão pesada que termina ganhando. Não se quer votar a emenda no governo, mas sim autorizar um plebiscito para que o povo diga o que quer e o que não quer.

 

O que tememos é que, nessa altura do campeonato, a máquina do governo e toda a sua publicidade, o Bolsa Família, entre outros, terminem fazendo como na Venezuela, partindo para o improvável. Uma das piores coisas que pode acontecer no Brasil é termos uma permanência no poder, pois a democracia requer renovação, requer uma alternância no poder.

 

CC: O senhor é a favor da entrada da Venezuela no Mercosul?

 

PS: Sou a favor sim, apesar de ter grandes restrições ao presidente do país. Mas Hugo Chávez é Hugo Chávez, e a Venezuela é a Venezuela. O Brasil é o grande país da integração da América Latina. Quem sempre lutou por isso fomos nós. Quem se posiciona contra é porque vê o tamanho de nosso país e acha que queremos ser o dono do continente, o que não é verdade.

 

A Venezuela deve entrar, sim, pois é uma democracia. Tem problemas, mas sobre esses não temos autoridade nenhuma para falar – até ontem, nossos governadores e senadores eram biônicos.

 

Não vamos esquecer também que quem entra no Mercosul precisa garantir a democracia. Se a Venezuela passar a ter um regime ditatorial, podemos ameaçá-la com o afastamento do bloco. Isso aconteceu com o Paraguai: quando tiveram uma crise, quiseram colocar no poder um general. Aí, os presidentes do Brasil e da Argentina foram lá e disseram que, caso isso acontecesse, o país estava fora do Mercosul. E, por aí, garantiram a democracia.

 

Deixar a Venezuela entrar no bloco e ter o país do nosso lado serviria para podermos pressionar pela democracia. Mas, caso a pressão seja necessária no futuro, as conseqüências são imprevisíveis.

 

CC: Em uma entrevista à revista Caros Amigos, o senhor mencionou que rezava todos os dias para que o governo Lula cumprisse pelo menos 30% do prometido. O que pensa em relação a isso hoje em dia?

 

PS: Lula tem um saldo positivo que somos obrigados a reconhecer: o Bolsa Família. O mal do programa é que não foi feito com a perspectiva do provisório, mas sim com o intuito de ser mantido para comprar votos. Usam, inclusive, o programa para fazer ameaças, dizendo que será retirado se o PT não for reeleito. É uma chantagem.

 

Nos Estados Unidos, na época da Grande Depressão, o presidente Roosevelt criou um auxílio para os necessitados, algo que foi difícil para encerrar depois. As pessoas se acomodam.

 

Mas há, sim, um lado positivo. Muitas pessoas dizem para mim “digam o que quiserem, mas esse dinheiro está fazendo com que a minha família não passe fome”.

 

Agora, é sempre melhor ensinar a pescar do que dar peixe às pessoas. Esse deve ser um programa de transição, que facilite a entrada das pessoas no mercado de trabalho.

 

Do ponto de vista da ética e da seriedade, as coisas pioraram muito. Estaõ, inclusive, piores do que na época do Fernando Henrique. Este disse para “esquecermos o que escreveu”; Lula e o PT disseram “esqueçam o que éramos”.

 

Não há nada mais parecido com o governo FHC do que o governo Lula. É a mesma coisa. Votamos na social-democracia, representada pelos tucanos, e entramos em um regime centralizador de centro-direita. Votamos nos candidatos trabalhistas, de esquerda, e elegemos algo igual ao governo tucano.

 

Porém, algo que foi pior no governo FHC, e que não aconteceu agora, foi a privatização de uma empresa com o porte e importância da Vale do Rio Doce. Era uma empresa importante, uma das maiores empresas de mineração do mundo, e os tucanos a entregaram de graça.

 

CC: O senhor é a favor da reestatização da empresa?

 

PS: Acho que reestatizá-la é quase impossível. Mas sou a favor de algumas medidas, como verificar onde foi parar o dinheiro da venda, ver como foi possível ter sido dada de presente, sendo vendida por apenas R$ 3 bilhões, e ainda por cima emprestados pelo BNDES.

 

Na época, eu fui favorável às privatizações, mas privatizações de empresas que o governo não tinha condições de tocar, não a da Vale do Rio Doce.

 

Todos os levantamentos e pesquisas feitos, todas as áreas prospectadas, deveriam ter permanecido com o governo brasileiro. Deram a Vale, e deram, portanto, junto com a empresa, todo o subsolo brasileiro. Sou a favor de se avaliar o que a Vale possui e que o país fique com aquilo que ainda não foi explorado. É preciso ir contra o que FHC fez e que o PT não mudou.

 

CC: Uma revisão seria, então, o mínimo a ser feito?

 

PS: Deveria ser feita essa revisão e acho que haverá uma CPI para avaliar como a privatização foi executada e onde foi parar o dinheiro. A Vale deve ir adiante, progredir, mas que não fique dona de nosso subsolo.

 

CC: Nesse sentido, o senhor não seria também a favor de uma revisão na Lei do Petróleo, para impedir o leilão de nossas áreas ricas em petróleo, especialmente agora com a descoberta de novos e promissores campos?

 

PS: FHC queria acabar com a Petrobras, até mudou o nome da empresa. Para votar as modificações na Lei do Petróleo, ele teve que dizer que não mexeria nem na Petrobras, nem no Banco do Brasil e nem na Caixa Econômica Federal – e, na verdade, não mexeu, mas que falava em mexer, falava.

 

O governo atual fez a mesma coisa que FHC fez na Amazônia. Há reservas que estão sendo entregues ao capital estrangeiro. Nunca me passou pela cabeça que o PT iria fazer isso. Estão entregando áreas do tamanho de um país a empresas que podem repassá-las a empresas estrangeiras por 40 anos, renováveis por mais 40. São oitenta anos, e é o PT que está tocando esse projeto.

 

CC: Como está a sua relação com o governo hoje?

 

PS: Acho que sou respeitado. Não sou anti-PT, como não era anti-FHC. Era para eu ter sido líder do governo do Fernando Henrique, pois era líder do governo Itamar e ele era o nosso candidato. Mas fui me afastando e terminei quase do outro lado.

 

Com Lula, aconteceu a mesma coisa. Ele, inclusive, me convidou para ser ministro, mas, com o tempo, fui me afastando. Tenho respeito e rezo, pois sou um homem de fé, para que acerte, para que tudo dê certo, mas não aceito certas coisas.

 

Meu afastamento em relação a Lula começou com o caso Waldomiro. Quando vi o petista, na TV, recebendo o dinheiro e dizendo como fazia seus negócios, não havia mais nada o que explicar. Ali, ficava tudo claro. Nunca entendi como Lula não demitiu Waldomiro logo em seguida e não permitiu a CPI.

 

Uma coisa é alguém ser réu, mas outra coisa é essa pessoa ser ministro quando há uma série de evidências contra ele. E Lula deixou que isso acontecesse, os ministros ficaram; se ele tivesse tomado providências logo após as denúncias, a corrupção não teria andado como andou no governo.

 

CC: Senador, considerando esse caminho nefasto que tem percorrido a nação nos últimos anos, não seria o momento de promover uma cruzada cívica nesse país, a exemplo daquela levada a cabo pelo senador Teotônio Vilela em prol da redemocratização? O senhor corroboraria a hipótese de que um homem com a sua estatura e sensibilidade poderia ter uma postura social ainda mais agressiva nesse sentido?

 

PS: Olha, não tenho a capacidade de Teotônio. Ele foi mais importante do que Ulysses, mais do que Tancredo. Um homem com quatro cânceres, duas bengalas, cabeça raspada, percorrer o Brasil foi algo fantástico. Médicos diziam para ir tratar-se em Paris, pois lá a medicina era mais desenvolvida, mas ele dizia que, enquanto ele, doente, fazia isso no Brasil, jovens saudáveis ficavam sentados.

 

E o problema, hoje, é mais grave ainda. Naquele tempo, o inimigo estava claro: era a ditadura militar. Hoje, a luta é mais difícil do que aquela.

 

Lembro-me de ocasião em que fizemos uma reunião em Porto Alegre , Brizola havia conseguido dinheiro de Fidel Castro, alguns queriam a revolução, outros tinham idéias alternativas. Mas tínhamos quatro objetivos claros: diretas já, a formação de uma assembléia constituinte, o fim da tortura e a liberdade de imprensa. Era isso o que queríamos; quem quisesse a luta armada, que deixasse o PMDB. Era fácil de identificar as pessoas.

 

No Rio Grande do Sul, tivemos uma luta fantástica, Brizola e Jango eram de lá. Quem era do PMDB era do PMDB, e eu achava que éramos heróis. Depois vi que não era bem assim, que tinha vigarice que não acabava mais. Uma coisa era ser o que outrora éramos, outra coisa era ser governo.

 

Aí veio o PSDB, resultante do expurgo do PMDB. Covas, Montoro, FHC, Serra fundaram um partido, chegaram ao governo e aconteceu o que aconteceu.

 

Isso se repetiu com Lula. O PT foi, em minha opinião, o partido de oposição mais espetacular que vi no mundo. Ninguém nunca soube atirar pedras com tanta categoria nos telhados de vidro dos outros como o PT. E, quando chegaram ao governo, não quiseram fazer o que pregavam anteriormente. E essa gente era tão pura, tão espetacular, se quisessem eram ordenados padres...

 

Eu posso dizer que sei o que sou, pois fui líder do governo, já fui ministro, já fui governador, mas o cidadão comum não sabe o que vai ser até a hora em que sentar-se à mesa como governo. O PT chegou ao governo e não souber o que fazer.

 

Hoje, digo que Lula não tem perdão, pois naquele momento, embora não estivesse preparado para ser governo, que pelo menos não se juntasse à bandalheira. Eu digo para todo mundo que, quando fui governador, não admitia que contratassem parentes. O chefe da Brigada Militar tinha um filho que estava numa lista para assumir certo cargo – e isso era até correto. Quando questionei o chefe, ele me disse que eu não podia prejudicar o seu filho – e respondi que não mesmo, por isso ele é quem teria que sair.

 

Um governador da oposição fazer isso com um militar, na época da ditadura, foi uma demonstração de enfrentamento. E depois disso, ninguém colocou mais nenhum parente como funcionário de meu governo.

 

Quando Lula foi condenado, todos que eram pró-democracia foram lá, buscar a sua soltura. Agora, veja os seus amigos: todo mundo que é rico virou amigo dele. E o pior é que ele acha que são mesmo seus amigos!

 

Mas voltando à sua questão, acho que, hoje, há uma incredibilidade geral. Depois do Teotônio, os dois fatos que fizeram com que o povo fosse às ruas foram as Diretas Já e o impeachment do Collor. E, hoje, o povo não quer saber de mais nada nesse sentido. Não há uma referência. Não há um Montoro, não há um Tancredo, um Covas.

 

O que tenho feito é percorrer o Brasil dizendo para a mocidade ir às ruas. Mas não ir à rua atrás do Congresso, pois de lá é de onde menos devemos esperar sair algo de bom. A própria Justiça toma algumas decisões, mas é também uma das grandes responsáveis pelo Brasil ser o país da impunidade. De lá também não sai nada. E de Lula, muito menos.

 

Está faltando efervescência. A UNE, por exemplo, está subordinado ao governo. E o PT, que era quem levava à mobilização, agora é governo.

 

CC: Mas não estaria ocorrendo também, paralelamente, uma espécie de “cooptação” dos movimentos sociais pelo governo - os quais, ademais, espontaneamente paralisaram-se em função das dificuldades de enfrentar um partido e um presidente com todo o prestígio histórico que carregam?

 

PS: Sim, infelizmente é isso aí.

 

CC: Como o senhor vê a esquerda hoje no país?

 

PS: Durante a luta do PMDB, considerava suas posições como de esquerda. Não que Tancredo fosse exatamente de esquerda, mas estava bem mais próximo dela do que o Sarney, que acabou sendo presidente. Com Fernando Henrique, achávamos que teríamos um governo social-democrata como o de François Mitterrand na França, como o trabalhismo inglês, e tivemos um governo de direita.

 

Lula e o PT eram de esquerda, realmente de esquerda. Mas estão fazendo um governo de direita.

 

Se olharmos, por outro lado, para o mundo hoje, há também um pragmatismo. Há coisas ridículas por aí, como o fato de americanos convocarem 50 países para fazerem uma conferência de paz em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Fomos lá correndo, para discutir o Oriente Médio – mesmo sabendo ser o governo Bush muito culpado pelo que ocorre por lá, ao não aceitar as resoluções impostas pela ONU.

 

Acredito que, hoje, são atuais as idéias de Alberto Pasqualini. Ele dizia que o homem é filho de Deus, um animal social com direitos intransferíveis à vida e ao trabalho, e que precisa receber como remuneração por esse trabalho um valor justo em relação às questões prioritárias de moradia, educação, saúde e lazer.

 

CC: Isso definiria, a seu ver, “ser socialista” atualmente?

 

PS: Isso é ser humanista, é ser cristão. É o que de mais importante podemos, nesse momento, tentar conseguir.

 

Pasqualini dizia que os meios de produção não precisavam estar nas mãos do Estado, mas que, em cima dos bens privados, deveria haver uma “hipoteca social”. Tudo deveria servir ao bem-estar da sociedade. Se todo mundo tem terra, trabalho, educação, moradia, saúde, alguns podem ter palacetes, comer caviar, desde que todos concordem.

 

CC: Pensando em seu partido, senador, como o senhor enxerga o PMDB atualmente? O que o senhor responderia à apreciação já usual de que se trata de um partido da ordem, muitas vezes fisiológico? E qual é a aspiração daqueles mais próximos à sua visão política para o partido?

 

PS: Eu te devolvo a pergunta: o que é o PT hoje? O que é o PCdoB? O que se espera deles? O Brasil não tem verdadeiros partidos políticos. É o país que apresenta a esfera mais triste de partidos políticos no mundo. No Uruguai, na Argentina, no Chile, existem partidos fundados desde a independência destes países.

 

O Brasil nunca teve nenhum partido político com conteúdo. Durante todo o Império e durante toda a Primeira República, os partidos que existiam eram de mentira. Quando derrubaram Getúlio, em 1945, foram fundados o PTB, o PSD, a UDN; eram partidos nacionais, mas sem nenhum conteúdo ideológico. Aí veio o golpe militar e criaram a Arena e o MDB, um partido de mentira e outro de mentirinha.

 

Com o tempo, a Arena se desmoralizou, e o PMDB começou a ter credibilidade. E, hoje, há essa série de partidos que não valem nada.

 

Na história dessa vida, o PMDB é o único partido que teve lugar. Na época da ditadura, foi o partido que uniu a coligação e conseguiu a democracia. Conseguiu eleger um presidente e criar uma assembléia constituinte, conseguiu a anistia, o fim da tortura, a liberdade de imprensa. Aí, o Tancredo fez uma sacanagem com a gente – ele não podia ter morrido ou, pelo menos, poderia ter deixado outro que não o Sarney no poder. A partir daí, foi uma desgraça, nunca mais o partido conseguiu se erguer.

 

CC: O PMDB terá um candidato próprio para as próximas eleições à presidência?

 

PS: Veja, Ulysses Guimarães foi candidato à presidente da República em uma hora em que não poderia ter sido. Sua depressão o deixou muito debilitado, e aquela história de não ser “nem Sarney nem oposição” o levou ao chão. Se fosse candidato quatro anos depois, ganhávamos brincando, mas o Quércia quis concorrer nas prévias do partido. Itamar era presidente, era do nosso partido, estava fazendo um bom governo, mas o partido não topou a candidatura de Ulysses e FHC venceu o pleito.

 

Depois disso, o PMDB não teve candidato próprio, ou estava vendido para o PT ou para Fernando Henrique. Aí, o partido se esfacelou.

 

As próximas eleições serão interessantes, pois tivemos oito anos de FHC e oito anos de PT. O PMDB tem grandes chances de ser uma terceira opção para o povo votar, mas acho que, até lá, Lula já terá comprado metade do partido e o PSDB o resto.

 

CC: Não posso encerrar essa conversa sem perguntar sobre a situação do seu estado, o Rio Grande do Sul, no Brasil de hoje?

 

PS: O Rio Grande do Sul vive uma situação dramática. Getúlio Vargas ficou 20 anos na presidência da República, e não deu um copo d’água para o estado.

 

Nos últimos 80 anos, mais de um milhão e meio de gaúchos saíram do estado e se mudaram para outros. Hoje, metade dos gaúchos está na parte norte e metade na parte sul do país. É capaz de fazermos um movimento, não separatista, mas de rebelião, devido ao tratamento que o governo federal tem dado ao Rio Grande do Sul.

 

Terminaram com o imposto sobre exportações. São Paulo exporta muito mais que o Rio Grande do Sul, mas importa uma variedade de coisas. Isso fez com que deixássemos de receber mais de R$ 1 bilhão, que o governo deveria nos compensar conforme está explicitado na Lei Kandir. Mas esse dinheiro não veio. E estamos cobrando isso. O governo do Rio Grande do Sus fez estradas federais, e hoje o governo federal não nos paga o dinheiro que nos deve.

 

Construímos toda a infra-estrutura do pólo petroquímico, que foi privatizado pelo governo e nunca vimos a cor do dinheiro. Uma empresa de aço, também criada pelo estado, foi repassada ao governo federal, que a privatizou e não nos deu um tostão.

 

Há uma série de coisas que estão acontecendo que estão acabando com o Rio Grande. Ou Lula dá uma de patriota e atende ao estado ou não sei o que pode acontecer.

 

 

 

Recomendar
Última atualização em Qui, 17 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.


Vídeos

A Ordem na Mídia

Eugênio Bucci: “precisamos de um marco regulatório democrático na comunicação”


Há uma falência nos modelos de negócios refletida nas relações trabalhistas, na concentração de propriedade, formação de monopólios e oligopólios e no aparelhamento por parte de igrejas e partidos. Entrevistamos Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP, que afirmou a necessidade de um marco regulatório democrático para fortalecer a democracia no Brasil.
Leia mais...


Brasil_de_fato
Adital
Image
Image
Banner_observatorio
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image

Diario Liberdade

Espaço Cult

Image
Image
Revista Forum
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates