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Escrito por Henrique Costa   
Terça, 31 de Maio de 2016
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“Sinto que vários desses poemas – quadros querendo ser clips – perdem algo de sua intencionalidade na medida em que são ou formas estáticas, derivadas de animações digitais, ou projetos de clip-poemas pedindo movimentos e som. (…) os erros ou ineficiências são todos ‘mea culpa’. E a única justificativa que posso dar é a de ter chegado muito tarde a um mundo muito novo”.

Augusto de Campos, 2015

 

Uma pergunta pertinente que deveria ser feita hoje, diante do pandemônio que nos envolve e nos atravessa, queiramos ou não, seria indagar quantos sujeitos de esquerda, da cultura ou da intelectualidade, poderiam se comparar ao poeta concretista Augusto de Campos em dois aspectos que dificilmente andam juntos: a inquietude, a impossível acomodação diante do trabalho que faz e a humildade para reconhecer que essa busca constante pelo novo pode nunca terminar.

 

O poeta do concreto não é maleável o suficiente para reconhecer o quanto, devido a esses aspectos, se coloca mesmo assim à frente de tantos outros para os quais o novo se resume invariavelmente, para seus próprios infortúnios, a um formulário de edital público. Justiça seja feita, não é a consagração que os faz evitá-los ou aderir a eles como profissão de fé, mas sim a razão do mundo contemporâneo, imparável em sua lógica concorrencial.

 

Estaria também a esquerda brasileira, democrática e popular, em melhores lençóis se admitisse que chegou bastante tarde a um tempo novo. Não é humilhante admiti-lo, pelo contrário, como demonstra nosso poeta. Muito pior é, sabendo intimamente que mudar depende de repousar a própria cabeça sob a guilhotina e recomeçar, terceirizar a tarefa aos profissionais da inovação, àqueles a quem se destina esse novo tempo e que dele usurpa a energia, aos herdeiros da terra prometida de Santa Cruz. Ou, melhor dizendo, aos herdeiros do tropicalismo de Estado incorporados ao avant-garde do capitalismo empreendedor.

 

Olhando para o passado e remoendo antigos traumas, a esquerda mantém sua recente conversão de agenda para o que já foi, para a restituição pela violência sofrida pela ditadura. Pensa a revalidação do passado como compensação para a falta de futuro e para seu horizonte de expectativas rebaixadas, como diz Paulo Arantes. Assim, mergulha de cabeça no discurso de falsos profetas da inovação, da conectividade e da revolução tecnológica. O fetiche pelo novo, a excitação com as redes e seus gadgets que não lhe pertencem, mas que muito prometem.

 

O futuro neste momento não é dela, da esquerda tradicional, mas da esquerda sem futuro, com bits e bytes devorando-se em postagens na rede social em um presente sem fim e sem memória. São como o personagem principal do filme Amnésia, que se lembra apenas do que havia acontecido antes de seu desastre e que precisa tatuar em seu próprio corpo referências pinçadas em seu presente fugaz, cuja duração é o prazo de um sono e em que a relação entre as tatuagens exige um novo esforço de síntese a cada despertar. Um novo post para relembrar o que ela há muito deixou de ser.

 

Cultura do empreendedorismo

 

Na disputa da cultura, circulando entre artistas à míngua e trabalhadores obstinados, outros atores saíram na frente e eles estão juntos, empreendedores descolados à esquerda e à direita no mundo dos editais, da prestação de serviços, das consultorias, da produção cultural mais moderna e dinâmica do capitalismo globalizado. Cultivamos assim, sub-repticiamente, a ideia de que a cultura é a última esperança da esquerda quando não há mais perspectiva de disputa dos rumos de uma economia historicamente fraturada, da redistribuição da mais valia acumulada, pela integração dos pobres ao mundo das “garantias constitucionais” e das reformas de base.

 

A necessidade de existência de um ministério para a cultura, a implementar programas localizados de fomento e estrutura para artistas combalidos pela desvalorização social, é, ao mesmo tempo, a confissão da culpa de um país que não consegue ser em sua realidade brutal as promessas deslumbrantes de um Darcy Ribeiro. A reação ao fim do Ministério da Cultura foi, portanto, sintomática desses novos tempos. Mas nem com mais dinheiro e não sucateado como se encontra faria o que alguns esperam dele, isto é, que salvasse a pura identidade nacional desvirtuada pela mídia hegemônica.

 

Contudo, não foi pelo ódio à “horizontalidade” e pelo “espaço colaborativo” que o ministério por pouco não se foi de vez – aliás, a esquerda pensa nos dias que seguem que democracia é produto de amor e ódio, e talvez por isso o PT tenha sido enxotado da república que ajudou a criar por nada menos que 354 deputados e mais uns milhões de insatisfeitos.

 

Fato é que dificilmente aquela corte da República Velha entenderia a língua dos nossos profetas/empreendedores quando há tanto latifúndio e igreja evangélica para administrar, mas justamente por não conhecer essa fé nas novas isso e aquilo equivocou-se politicamente Temer, quando tentou acabar com uma estrutura que: 1) é em boa parte pró-sistêmica, ponta de lança do capitalismo da inovação e da criatividade mercantilizável; 2) é relegada pelo orçamento federal; e 3) muda muito pouco o equilíbrio da luta de classes, quando não a reafirma.

 

Espírito do tempo

 

Ato contínuo, caímos num arroubo tão na moda entre a classe média descolada. Petistas e agregados embarcam de vez na onda “retrô”, que tinha algo de verdade já nos meses que antecederam a recondução de Dilma. Dá-se caráter épico à infâmia atual para alimentar nossa ansiedade por participar da História e, distraídos, não veem o que pode ser ainda pior e muito menos charmoso que um golpe. Pipocam termos que não ouvíamos mais, até então sufocados pela euforia do lulismo.

 

Nas análises do PT surgem as “classes dominantes”, os “pactos pluriclassistas”, a “preponderância excessiva da ação institucional”, a “agenda do grande capital”, a burguesia. Tudo adornado por uma foto envelhecida da repressão militar. Há não muito tempo, quem falava nesses termos era taxado de portador daquela velha doença infantil do comunismo. Assim, nada como estar por baixo para resgatar velhas memórias, como um disco de vinil comprado em um brechó virtual.

 

Parece anedota, mas não é. Para alguns deputados que votaram contra o impeachment de Coração Valente, se fez luta armada no Brasil para que se pudesse implementar o presidencialismo de coalizão, programas sociais de transferência monetária, Belo Monte, “campeãs nacionais” e, mais recentemente, leis antiterroristas. Triste é morrer e ainda ser responsabilizado pela fundação de um Estado de exceção que se vive como regra.

 

Justiça a Olga Benário e Carlos Marighella, que morreram porque queriam a democracia e também a revolução.

 

Um mundo a ganhar

 

Somos agora contemporâneos de coisas que há muito aconteceram, vivendo num presente onde somos réus e vítimas dos crimes do passado, citando novamente Arantes. Discurso do mérito e desintegração radical na base da sociedade organizam esferas normativas incompatíveis onde o conflito entre quem tem e quem não tem dinheiro é um mundo apartado da cultura enquanto disputa política por verbas e seus movimentos hipermodernos “pós-rancor”.

 

Minto. Essa juventude supostamente é a destinatária de políticas públicas. A juventude trabalhadora e precarizada vai sendo assim “formada” por fundações, ONGs e coletivos ligados ou patrocinados pelo Google, espraiando, curiosamente, o mesmo discurso da inovação e do protagonismo juvenil do Facebook e da Microsoft.

 

Em entrevista há alguns meses, o cientista político e consultor José Luciano Dias, contratado pelo PP para ajudar na formulação de discursos e estratégias que ajudem a vender um partido conservador para a juventude, comentou que “hoje vivemos em um mundo em que os heróis da atual juventude são pessoas como Steve Jobs e Mark Zuckerberg. Ou seja: os heróis da juventude são milionários empreendedores capitalistas”.

 

Está aí o que descolados e precarizados têm em comum. Uma esquerda que se vê como um bloco de carnaval e que assim encara inclusive o que é bárbaro, vai sempre se chocar quando a barbárie dá as caras.

 

Ponte para nenhum lugar

 

André Singer estava certo quando afirmou que o lulismo havia implementado um “marco regulatório” para os futuros governos, com seus programas sociais de referência internacional. Dilma, a rigor, não falou uma palavra sobre política externa em sua campanha e prometeu não cortar direitos sociais, mas foi uma das primeiras coisas que fez, mudando regras do seguro-desemprego e prejudicando diretamente jovens trabalhadores.

 

Trata-se de um contínuo de administração de um patamar social decrescente. Das reformas de base nos anos 1960, passou-se a defesa da Constituição cidadã e do programa democrático-popular nos 1980. Depois veio a satisfação com a estabilidade da economia e, na sequência, com os programas sociais e a inclusão pelo consumo. Finalmente, chegamos ao atual momento do campo democrático-popular que pode não ser o fim, mas cujas bandeiras já são o rescaldo da desorganização da luta de classes: programas e editais de cultura, Bolsa Família e Pronatec, que têm seu valor. Mas algo parece que se perdeu pelo caminho.

 

De ocupações a ocupações

 

Roberto Schwarz já dizia que o liberalismo é uma ideia fora de lugar em um país que teve escravidão e todas as consequências que vêm desta infâmia: desigualdade brutal, racismo e desintegração social. Wright Mills dizia que não é possível democracia em um Estado que tem armas nucleares, a respeito dos Estados Unidos. Como seria então em um país sem elas? É possível democracia liberal no Brasil? Aqui, o precariado é a bomba atômica que mantém em alerta permanente as classes mais altas, inclusive a trabalhadora organizada.

Reconhecer que chegou tarde a um tempo novo é nada mais que compreender o tempo histórico como algo em aceleração e se colocar à disposição de quem genuinamente enfrenta as contradições do capitalismo a partir de suas condições materiais e das experiências comuns, e não de modos e formas que não mais se encaixam no chão da luta de classes.

 

Mesmo em algumas organizações que acreditam ser a nova esquerda, as ideias recicladas são a regra, aparentemente por dogmatismo e apego às formas estanques. Se a ideia de acumulação de forças parece extemporânea, a luta coletiva espontânea inspirada em Rosa Luxemburgo permanece atual.

 

Como não podem se colocar fora da arena de disputa pela hegemonia dentro do campo de esquerda, grupos maiores ou menores se colocam a serviço também da lógica neoliberal de integração ao capitalismo hipermoderno através da terceirização de suas atividades, comunicação sobretudo. É o jeito encontrado de não parecerem antiquados “contra a mídia hegemônica” e se renovarem sem mudar sua substância, aderindo ao fetiche da inovação, que no fundo está inteiramente integrado ao sistema econômico.

 

Felizmente, a esquerda descolada não é a única com que se pode contar. Existe uma experiência comum de seres em constante situação de exploração e precarização que apenas uma organização conseguiu até hoje mapear, o Movimento Passe Livre. Se a tática termina em si mesma e não há mais estratégia, as manifestações de junho de 2013 cumpriram seu destino. A esquerda de inspiração petista não tem propostas para eles, mesmo que fale em seu nome por uma espécie de direito adquirido.

 

As ocupações de escolas públicas por estudantes secundaristas em São Paulo, portanto, expõem uma juventude que se vê como o futuro precariado, e contra essa situação se insurge. Sentem na pele o papel cumprido pela escola pública para a perpetuação do status quo e, como a próxima leva de universitários do Prouni, do Fies, são vítimas da gestão racional de recursos humanos idealizada por liberais de carteirinha e tocada exatamente pelo campo democrático-popular. Por isso se rebelam também contra as organizações e partidos tradicionais, de direita e de esquerda.

 

Serão estes jovens, à margem da política, a esperança de uma esquerda esquartejada? Não seria justo atribuir-lhes tal responsabilidade, e muito menos tentar “politizá-los” nos termos antigos, como muitas organizações tentam fazer, pensando sobretudo na própria sobrevivência. O que importa é a sua experiência, no sentido de Benjamin, o quanto esses jovens têm em comum e organizam essa vivência de maneira coletiva, espontânea e encharcada de realidade. Está aí o tipo de movimento que pode reivindicar um futuro.

 

 

Henrique Costa é cientista político.

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Última atualização em Quarta, 08 de Junho de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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