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“Teremos um governo de crise permanente, que lembra o final do mandato de Sarney” Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Quarta, 18 de Maio de 2016
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O Brasil se depara com as primeiras medidas do governo em exercício de Michel Temer e questiona se há mesmo possibilidades de se superar a crise político-econômica que o paralisa. Ao mesmo tempo, começa o balanço das perdas e danos do PT e suas fileiras, enquanto ninguém sabe como a agenda liberal-privatizante do PMDB será recebida pela sociedade. Foi para analisar o quadro de crise que o Correio da Cidadania entrevistou o historiador Lincoln Secco, autor do livro “A história do PT”, fruto de sua tese de doutorado.

 

“Temer tem duas opções: ou ele aplica suas maldades de forma concentrada e enfrenta o risco de chegar ao dia do julgamento final do impeachment com mais rejeição do que hoje, ou implementa seus ataques à classe trabalhadora de forma gradual, buscando pactos específicos. É difícil que seja bem sucedido em qualquer dos dois cenários. Não estou dizendo que ele não se segura até 2018. Mas terá um governo medíocre. Ele vai descobrir que o descalabro econômico não é só resultado do governo anterior, mas da situação internacional e da condição estrutural dependente da economia brasileira”, analisou.

 

Na conversa, Secco não deixou de asseverar que o país passou por um golpe parlamentar e midiático, com forte chancela de um poder judiciário cuja seletividade também lhe causará prejuízos. De toda forma, também faz um balanço crítico do PT e sua cegueira às mudanças conjunturais e históricas que estão na ordem do dia desde 2013. Isto é, se fosse para promover um “giro à esquerda”, como acreditaram eleitores do partido mais de uma vez, era aquele o momento.

 

“O ministro da Justiça (Cardozo) ofereceu ajuda para reprimir e espionar movimentos sociais. O PT não percebeu o recado de junho de 2013. À hipocrisia dos direitistas, ele tinha que dar uma resposta ao tema da corrupção, expondo suas entranhas. Dos partidos se espera pouco. Não porque não tenham bons militantes. Mas não demonstraram capacidade de aproveitar as oportunidades históricas. Já os novíssimos movimentos sociais dão um conteúdo concreto à sua política. Ao mesmo tempo, eles não têm estratégia, só destreza tática. E serão mais ainda reprimidos. Mas a esperança está neles”, resumiu.

 

A entrevista completa com Lincoln Secco pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como analisa o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República, após votação no Senado que deu continuidade ao processo iniciado na Câmara e aprovou o afastamento da presidente?

 

Lincoln Secco: Foi um golpe parlamentar com forte apoio midiático. Sua base de legitimação foi o judiciário. Obviamente, os donos da grande imprensa têm a consciência culpada porque todos os dias sentem a necessidade de dizer que não houve golpe, que tudo se deu dentro da lei.

 

No início de 1933, o chamado Machtergreifung (tomada do poder) foi só um convite que o presidente Hindenburg fez a Hitler para o cargo de chanceler! Por mais de um ano os nazistas ainda mantiveram Hindenburg no seu cargo. Em 1964, a Câmara declarou a vacância do executivo e, depois, elegeu Castelo Branco. Nunca houve golpe na história universal. É fantástico.

 

É claro que são situações incomparáveis em sua tragédia, mas não significa que não houve uma ruptura com o conteúdo das normas que regem as instituições, ainda que elas tenham sido formalmente seguidas.

Correio da Cidadania: Como enxerga a ascensão da figura de Michel Temer à presidência e o que espera dessa gestão do PMDB?

 

Lincoln Secco: Temer é um político sem personalidade, o PMDB jamais teve um candidato competitivo para presidente e chega ao poder, pela terceira vez, de forma indireta. As semelhanças com Sarney não são pequenas, apesar do contexto totalmente distinto. Sarney era ilegítimo porque tomou posse sem que Tancredo tivesse assumido.

 

Além disso, a chapa já tinha sido escolhida por um colégio eleitoral. Sua base foi o “centrão”, uma camarilha de deputados parecida com a atual. E terminou aumentando o próprio mandato. Temer começa em situação pior, fruto de um golpe e com um ministério que faz aquele de Sarney parecer um time do Barcelona.

 

Correio da Cidadania: O que esperar do programa econômico, talvez a mais aguardada carta do novo governo? E como enxerga as críticas preliminares de setores que dizem que os programas sociais serão destroçados?

 

Lincoln Secco: Temer tem duas opções: ou ele aplica suas maldades de forma concentrada e enfrenta o risco de chegar ao dia do julgamento final do impeachment com mais rejeição do que hoje, ou implementa seus ataques à classe trabalhadora de forma gradual, buscando pactos específicos.

 

É difícil que seja bem sucedido em qualquer dos dois cenários. Não estou dizendo que ele não se segura até 2018. Mas terá um governo medíocre. Ele vai descobrir que o descalabro econômico não é só resultado do governo anterior, mas da situação internacional e da condição estrutural dependente da economia brasileira.

 

Correio da Cidadania: Por que o governo perdeu força desde sua vitória eleitoral em 2014 até chegar a esse desfecho?

 

Lincoln Secco: Há quem fale dos erros pessoais de Dilma. Embora ela não seja muito hábil politicamente, os erros foram do governo. Se eu tivesse que escolher um deles, diria que o maior foi a adoção do programa do adversário, porque isso paralisou sua base social, que só saiu às ruas tarde demais, e não para defendê-lo, mas pela legalidade. Talvez Dilma caísse mesmo se tivesse adotado as propostas emergenciais dos economistas do PT lançadas em setembro de 2015. Mas ela não poderá dizer em suas memórias que não tinha alternativas.

 

Em março de 2016, até a direção do PT se afastou dela e defendeu o uso das reservas internacionais para investimento. Isso incendiaria o país e não sei se os resultados viriam tão rápido. Mas a mídia de qualquer forma já estava com o palito de fósforo aceso na mão. Foi um risco que Dilma não quis correr. Ela preferiu a linha republicana do ministro Cardozo, a de se defender nas instituições.

 

Correio da Cidadania: Por que os setores dominantes que tiveram seus interesses amplamente atendidos pelos governos petistas cerraram fileiras pela deposição de Dilma? Qual seria o pano de fundo dessa virada?

 

Lincoln Secco: Como em 2005, a crise foi eminentemente política, mas dessa vez o governo foi derrubado porque havia uma recessão econômica, o empresariado se deslocou para a oposição e o ódio da classe média se massificou. Há muitos outros elementos que os historiadores terão de pesquisar no futuro. Os setores dominantes são estruturalmente favorecidos, qualquer seja o governo. Mas é óbvio que têm preferência pela direita e não por governos “populistas” da esquerda. E uso o termo “populismo” sem nenhum sentido pejorativo.

 

Correio da Cidadania: Como enxerga a Operação Lava Jato em meio a tudo isso? Terá alguma representatividade histórica no âmbito da diminuição da corrupção?

 

Lincoln Secco: A operação começou com imagem republicana, embora fosse seletiva desde o início. O judiciário deixou a máscara cair no episódio da divulgação do grampo telefônico da presidência da República. Aquilo foi um choque para todos os jornalistas estrangeiros que cobriam a nossa crise. Aconteceu que uma parte mais ousada do poder judiciário, chefiada pelo grupo da Lava Jato em Curitiba, hegemonizou os indecisos e paralisou possíveis descontentes.

 

Lembremos que num golpe militar o Exército é uma instituição coesa, unificada e hierarquizada. O poder judiciário não é assim e sua ação foi mais difusa. Mas pagará um preço enorme porque a conversa mole de que ao menos estavam atacando uma parte dos corruptos destrói o fundamento da ideia de justiça, que deveria ser cega, não é mesmo?

 

Correio da Cidadania: Como enxergou a participação de Lula na crise, em especial desde o dia 4 de março, quando de sua condução coercitiva pela PF, e também após a frustrada nomeação à Casa Civil? Sentiu o ex-presidente um pouco descolado de Dilma nos últimos dias antes do afastamento?

 

Lincoln Secco: É difícil falar sobre a relação entre os dois. Eu acredito que ele quis voltar em 2014 e ela não aceitou. Como eles jamais poderiam romper, persistiu uma relação distante. Tanto que ele se ausentou da campanha dela no primeiro turno. Desde 2015, eu já dizia que o impeachment não era para Dilma, mas para ele.

 

A direita percebeu que não teria mais chances de voltar ao poder pelo voto. Que perderia de Lula em 2018. É uma percepção errada. Não acredito que Lula quisesse voltar em 2018 e nem que fosse imbatível, caso quisesse. Mas o PSDB exibiu a mesma frustração eleitoral que tornou a velha UDN golpista. Por isso acredito que Lula sofre um risco sério de ser condenado na justiça para ficar inelegível.

 

Correio da Cidadania: Que diagnóstico você faz do sentimento popular, após grandes manifestações de rua e um vasto apoio, para além dos setores médios e ricos, ao impedimento da presidente? Não parece ademais haver uma euforia reduzida após a marcante votação pelo impeachment na Câmara dos Deputados?

 

Lincoln Secco: A classe média não se organiza permanentemente. Ela tem de ser representada. Não tem projeto. Uma vez derrubado o governo, quem assume a liderança são os profissionais da política. O PMDB de sempre. Já a classe trabalhadora estava descontente com a política econômica de Dilma. E ela sabe que estava ruim e agora vai piorar.

 

Correio da Cidadania: O que pensa dos setores governistas que criticaram todas as manifestações de massa fora de seu escopo desde 2013, afirmando que jogaram água no moinho do conservadorismo?

 

Lincoln Secco: Sou suspeito para falar porque desde aquelas jornadas já dizia que o PT havia se acomodado ao poder e preferia a desmobilização. O ministro da Justiça ofereceu ajuda para reprimir e espionar movimentos sociais. O PT não percebeu o recado de junho de 2013. À hipocrisia dos direitistas, ele tinha que dar uma resposta ao tema da corrupção, expondo suas entranhas.

 

O PT propôs o financiamento público, mas manteve em 2014 o mesmo modus operandi que já havia levado dois ex-presidentes à prisão. E podemos acrescentar dois ex-tesoureiros. E precisava também de uma resposta para a esquerda. Ou seja, tinha de rever a política de alianças, porque a conciliação de classes havia terminado.

 

Correio da Cidadania: Como imagina o PT de volta à oposição? Como seu comportamento tende a soar para a população, em especial aquela que se viu representada pela legenda durante longo tempo?

 

Lincoln Secco: A classe trabalhadora vai continuar tendo necessidade de um grande partido institucional de esquerda. O PT cometeu erros colossais e até agora não fez uma renovação e uma autocrítica, mas é inegável que ele foi aprovado por quatro eleições presidenciais consecutivas. Só saiu do poder mediante um golpe. Ele elegeu um operário e uma mulher. Tudo isso é inédito em nossa história e não foi pouca coisa. Se sua base social vai voltar a se ver representada nele ou numa outra frente política, só o tempo dirá.

 

Correio da Cidadania: E a esquerda fora do lulismo, como imagina que vá lidar com esse novo momento?

 

Lincoln Secco: Dos partidos se espera pouco. Não porque não tenham bons militantes. Mas não demonstraram capacidade de aproveitar as oportunidades históricas. Tivemos pelo menos uma: junho de 2013. E por acaso surgiu um novo partido de esquerda relevante? Já os novíssimos movimentos sociais dão um conteúdo concreto à sua política. Ao mesmo tempo, eles não têm estratégia, só destreza tática. E serão mais ainda reprimidos. Mas a esperança está neles.

 

Correio da Cidadania: O que esperar para a vida política nacional e também da população brasileira daqui até 2018? Que tempos serão esses?

 

Lincoln Secco: Veja, só uma parcela da classe trabalhadora se mobiliza e uma menor ainda se organiza. É que o próprio sistema político convida mais à apatia do que à participação. Esta se resume ao voto, os trabalhadores sabem disso e usam esse instrumento para afirmar seus interesses materiais. Escolhem o menos pior. A situação nova é que o voto de 54 milhões de pessoas foi invalidado pelo Congresso e as pessoas mais pobres não são bobas. Elas sabem disso.

 

Os jornais afirmam que Dilma mentiu, usou marketing etc. Desde quando campanhas eleitorais da direita dizem a verdade e evitam o marketing? Os trabalhadores também sabem disso. O que quero dizer é que, se por um lado Temer vai fazer tudo o que quiser enquanto acomodar interesses dos parlamentares, por outro lado ele não poderá contar com hegemonia, com legitimidade. A batalha deles vai ser essa. Eles têm o poder, mas não têm legitimidade. Por isso vão reprimir e também tentar conquistar uma liderança moral e intelectual. Não conseguirão.

 

Teremos um governo de crise permanente, que me lembra o final do mandato de Sarney. Em 1989 todo mundo queria se ver livre dele.

 

 

Gabriel Brito é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 10 de Junho de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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