As duas lâminas de ação política: atividade e previsibilidade

0
0
0
s2sdefault

 

 

 

 

O desfecho da votação do impeachment no Senado foi avassalador. É de se prever que haverá um movimento “Volta Dilma” (pela democracia, pela legalidade) que vai correr ao lado da oposição ao governo Temer (PMDB-SP). Acho que o primeiro vai atrapalhar o segundo.

 

Evidente que é importante acompanhar a grande política, com os partidos e suas configurações no jogo institucional. Mesmo com alguns incidentes que remetem a uma reviravolta, como no polêmico caso de Waldir Maranhão (PP-MA) anulando temporariamente a sessão de votação do impeachment na Câmara, é possível falar de uma previsibilidade, como no lance do Senado. Ainda assim é muito clara a influência sobre a vida de todos e não creio que essa influência vá mudar de uma hora para outra.

 

Mas quando quase todas as atenções se voltam para a previsibilidade do que vou chamar aqui de lâmina de ação institucional com seus rituais descolados da sociedade, quero chamar atenção para esta última esfera em que se tece uma lâmina de ação que empreende atividade e move os contextos em que atua, mesmo de forma quase imperceptível e cotidiana, numa espécie de política menor.

 

Nesta lâmina de ação menor, que chamo de lutas que se tecem, alguns movimentos merecem atenção. O de maior destaque neste momento são os estudantes secundaristas que se organizam de forma a empreender ações de impacto, com destaque para as ocupações de escolas (neste momento no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará), de Secretarias de Educação (como no Rio de Janeiro) e de Assembleias Legislativas (como em São Paulo).

 

Esses estudantes configuram uma nova modalidade de pressão e alcançam resultados que os sindicatos e as formas tradicionais de organização de trabalhadores não conseguem – e aqui não se trata de uma crítica, mas de uma constatação, até porque esses trabalhadores, professores e técnicos estão em greve e se imbricam na luta dos estudantes que ocupam escolas no Rio de Janeiro.

 

No Rio, a Secretaria Estadual de Educação vem sendo obrigada a negociar as pautas, de um lado, enquanto organiza um movimento “desocupa” do outro, em uma atitude autoritária. Há tensões e resistências em função dos ataques que as ocupações recebem, num claro sinal de sua força. Em São Paulo, depois de provocar a discussão e anulação do processo de reorganização pela Justiça, os estudantes secundaristas conseguiram aprovar a CPI da Merenda, combinando ocupação da Assembleia Legislativa com ações de rua constantes.

 

Não tenho esperança de que sairá uma revolução destes movimentos, mas teremos uma mudança cultural e um aprendizado coletivo que pode levar a um novo patamar na relação desses estudantes (e da sociedade) com o Estado, no sentido de pleitear demandas comuns. Os estudantes estão inaugurando isso.

 

Uma outra vertente a destacar é a ação dos moradores de favelas que vem se organizando pela vida contra a violência policial, contra o Estado. Aplicativos com caráter de denúncia vem sendo lançados (Nós por Nós, Defzap), coletivos de mídia se formam e ações como o “Viradão – armando o barraco” (https://goo.gl/Amcgfg) – prometem uma ocupação cultural e muito diálogo em torno de questões que lhes sejam comuns nesta quinta (12/5) na Grota, uma das regiões tidas como mais violentas do Complexo do Alemão.

 

Por fim, ontem teve início um Ocupa Cinelândia que traz uma série de pautas (https://goo.gl/LC9Otl) a serem viabilizadas de forma apartidária e independente no centro nervoso do Rio de Janeiro e merece ser acompanhado de perto por mais que ainda se mostre incipiente.

 

Sabendo das limitações da minha perspectiva, restrita aos movimentos que apresento e ao contexto em que vivo, parece que existe uma lâmina de ação de lutas que está em pleno movimento enquanto o andar de cima, da lâmina de ação institucional, parece um iceberg. O desafio é que a lâmina da ação das lutas derreta a previsibilidade da lâmina de ação institucional. Não vai ser de um dia para o outro.

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do PPGCom/UERJ

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados