Momento delicado

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A esquerda em geral, em particular o PT, acaba de sofrer uma nova derrota estratégica, com a votação do Senado que decidiu afastar a presidente Dilma, sem que isso signifique o fim ou o amainamento da ofensiva conservadora e reacionária.

 

Por outro lado, ao invés de um esforço concentrado para disputar o coração e as mentes das grandes camadas populares e médias da população brasileira, setores da esquerda, atacadas pela virose infantil do esquerdismo, preferem realizar ações espalhafatosas que, na prática, isolam a esquerda das camadas que deveriam conquistar. Talvez pensem que a batalha do impeachment seja a batalha decisiva, desconsiderando que os objetivos estratégicos da direita são muito mais amplos e profundos, e que a defensiva estratégica e tática da esquerda precisam ser fortemente rearticuladas, numa perspectiva de longo prazo.

 

Para empreender com sucesso tal defensiva estratégica e tática é preciso, de início, reconhecer que não se pode desprezar que os governos Lula e Dilma deixaram um legado positivo para grandes camadas da população brasileira. E que a destruição desse legado pela ação da direita financeira e política tende a enfrentar grande resistência.

 

No entanto, para que tal resistência seja efetiva, será também preciso reconhecer que, apesar de seu esforço positivo, aqueles governos não foram capazes de realizar as reformas econômicas e políticas que permitiriam combinar uma eficaz redistribuição de renda e inclusão social com um processo de desenvolvimento econômico capaz de sustentar tal redistribuição e inclusão. O que demandaria enfrentar, política e economicamente, a hegemonia do capital financeiro estrangeiro e nacional em todos os seus aspectos.

 

Isto é, teria sido necessário implementar uma estratégia contra a errada política de juros altos e câmbio livre, contra os oligopólios bancários, industriais, agrícolas, comerciais e de serviços, contra o sistema de financiamento empresarial das campanhas eleitorais, e contra a velha e enfermiça corrupção endêmica que corrói há séculos o poder público brasileiro.

 

Ao invés de adotar esses pontos como estratégia de governo, com variações táticas que permitissem isolar paulatinamente setor por setor da direita, os governos Lula e Dilma preferiram, porém, uma estratégia de não-reformas e de convivência e conciliação com o grande capital, na esperança de que os ventos favoráveis da economia mundial favorecessem a complacência deles com as políticas de inclusão social.

 

O pior é que, em 2011, mesmo após a crise capitalista mundial indicar que os ventos internacionais haviam mudado de direção, os governos formalmente dirigidos pela esquerda mantiveram a antiga estratégia, incluindo a adoção de “ajustes” que levariam, como alertaram inúmeros economistas e militantes políticos, a desajustes econômicos e políticos de grandes proporções.

 

Nessas condições, a suposição de que estamos no fim de um ciclo é um erro. O ciclo de hegemonia do capital financeiro continua e deve se agravar. O que fracassou foi a suposição de que governos de esquerda democraticamente eleitos podem adotar estratégias que não incluam reformas de ruptura com aquela antiga e perversa hegemonia financeira.

 

Também é um erro supor que a atual ofensiva da direita econômica e política não inclua dar fim à esquerda e à democracia. É evidente que, se a atual esquerda for liquidada, como pretendem os setores mais radicais da direita, a longo prazo, em algum momento da história, novas esquerdas poderão brotar das cinzas. Mas a longo prazo, todos também estaremos mortos. Nesse sentido, o que interessa agora é impedir que a atual esquerda e a atual democracia, apesar de suas limitações e seus erros, sejam destruídas.

 

As tentativas escancaradas de prender e condenar Lula e liquidar politicamente o PT são apenas a ponta do iceberg da decisão de liquidar toda a esquerda como agente político. E as “conduções coercitivas” de acusados e testemunhas são apenas os atropelos iniciais da decisão de liquidar com todos os direitos democráticos.

 

Portanto, diante disso, se a esquerda não for capaz de realizar uma avaliação serena dos erros estratégicos cometidos nos últimos 20 anos, e de adotar uma estratégia que lhe permita não só empreender com sucesso a atual defensiva em que se encontra, barrar a ofensiva da direita e passar à contraofensiva, a médio ou longo prazo, nosso país talvez tenha que esperar que uma nova geração faça renascer um novo período de lutas que tenham a democracia e o socialismo como bandeiras principais.

 

Nessas condições, neste momento delicado, o que menos precisamos é de manifestações explícitas da virose infantil do esquerdismo, seja como tática, seja como estratégia. O que precisamos é de estratégias de combate contra a hegemonia financeira, pela preservação da soberania nacional e da integração regional, pela manutenção dos direitos democráticos, pela industrialização, pela reforma agrária, e pela inclusão social. Estratégias que podem incluir táticas que demandem campanhas e ações políticas diversas em relação à luta contra a corrupção, por reformas econômicas e políticas, e em relação a outras demandas sociais e democráticas.

 

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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