Mortandade de peixes em Belo Monte

 

 

 

 

 

Na quarta-feira, dia 20 de abril, entrou em operação a primeira turbina da Hidrelétrica de Belo Monte. No dia seguinte, as comunidades de pescadores começaram a denunciar a mortandade de peixes abaixo da casa de força principal da usina. Três dias depois, fui pessoalmente ao local, acompanhando uma equipe de reportagem da TV Globo local (ver a reportagem produzida) e da bióloga Cristiane Carneiro, doutoranda pela UFPA, que estuda a ecologia das tartarugas do Amazonas, que se reproduzem no rio Xingu, abaixo da hidrelétrica.

 

Partimos de carro de Altamira, acima do barramento do Xingu, onde os principais impactos ambientais da barragem foram a destruição da vegetação das ilhas fluviais, das matas de galeria dos igarapés e a transformação do rio cristalino de água corrente em um lago turvo e parado. Nosso destino era Vitória do Xingu, a apenas 45 km de Altamira, abaixo da barragem, de onde subimos o rio de barco. Diferentemente da área acima da barragem, onde os seus impactos são mais evidentes, ali são mais sutis, mas extremamente graves.

 

No trajeto, Cristiane falou-me de suas preocupações. Este ano, além do fenômeno El Niño, que reduziu a pluviosidade da região, o enchimento do lago mais acima não permitiu que o nível da água do Xingu subisse como de costume, reduzindo em mais de 50% o sucesso reprodutivo das tartarugas e também prejudicando a reprodução de vários peixes que não puderam entrar nas áreas de igapó ou nos igarapés para se alimentarem e se reproduzirem.

 

A principal praia da região para a reprodução das tartarugas também foi completamente destruída para a retirada de areia para a construção da barragem e de sua infraestrutura de apoio. Pior que isso, o barramento do rio agora impedirá a descida de mais sedimento com o fluxo da água, não permitindo a formação de novas praias. Algumas das espécies de peixes mais valiosas para os pescadores locais simplesmente desapareceram.

 

Os ribeirinhos acreditam que foram afugentados pelas explosões ocorridas durante a realização da construção e até pela iluminação do canteiro de obras. A bióloga também se preocupava com o fato de a barragem ter deslocado para a região abaixo do barramento atividades destrutivas anteriormente desenvolvidas acima dele, na atual área do lago, com a retirada de areia para a construção civil.

 

Paramos no trajeto para falar com ribeirinhos, todos revoltados com a construção da barragem e mais ainda com a mortandade recente de peixes. Boa parte deles foram expulsos de suas antigas habitações na comunidade de Santo Antônio, destruída para o estabelecimento da infraestrutura de construção. Com o dinheiro das indenizações, dizem, mal conseguiram comprar novas residências ao lado do rio, onde vivem maus bocados devido, também, à diminuição das atividades pesqueiras. Precisam agora trabalhar mais de uma semana para capturar a mesma quantidade de peixes que antes pegavam em apenas uma noite.

 

Pior: muita gente não quer nem mesmo comprar o seu peixe com medo da contaminação que a mortandade pode estar a gerar. A água do rio Xingu, à frente das suas casas, está turva e não serve mais para beber. A menos de 10 km do paredão da obra que já consumiu dezenas de bilhões de reais, as empresas construtoras foram incapazes de construir poços para os moradores que sofreriam com a perda da qualidade da água.

 

Segundo os pescadores, antes das modificações criadas pela obra, o produto de seu trabalho era suficiente para gerar uma renda capaz de manter seus filhos na universidade. Agora tiveram que sair dos cursos. Isso é “desenvolvimento sustentável e energia limpa?”, perguntavam indignados.

 

O impacto da construção de hidrelétricas em todo o mundo foi o tema de um trabalho acadêmico publicado na revista Science em janeiro deste ano (“Balancing hydropower and biodiversity in the Amazon, Congo, and Mekong”) que partiu da observação de que os benefícios econômicos destas obras são geralmente superestimados, enquanto seus impactos sobre a biodiversidade são subestimados.

 

Propondo-se investigar seus efeitos em grande escala, os pesquisadores constataram que além da bacia do Amazonas, as bacias do Congo, na África e do rio Mekong, na Ásia, têm mais de 450 novas barragens planejadas, pondo em risco um terço de todas as espécies de peixes de água doce do planeta. Segundo os autores, além de tipicamente destruírem corredeiras (que são ambientes que comportam um grande número de espécies endêmicas), essas barragens bloqueiam o movimento de peixes migratórios, que são justamente algumas das espécies mais valiosas das redes hidrológicas tropicais.

 

Na etapa final da viagem, nos dirigimos ao paredão da casa de força principal (na foto que ilustra este artigo), onde ficarão a maior parte das turbinas da hidrelétrica. No trajeto, os ribeirinhos nos mostraram diversos igarapés hoje sem peixes e que até pouco tempo eram ótimos pontos de pesca. A medida que nos aproximávamos do paredão, essas mudanças ficavam cada vez mais evidentes.

 

Vimos grupos de piabas vindo à tona para respirar, como fazem os peixes em águas pobres em oxigênio. Logo depois começaram a aparecer os peixes mortos boiando no rio, uma visão inexistente em rios saudáveis, onde peixes que morrem por qualquer motivo são rapidamente devorados por outros saudáveis. O acúmulo só não era maior pois a equipe da hidrelétrica mantém barcos continuamente coletando os peixes mortos e enterrando-os em locais desconhecidos. Os que vimos boiando, então, foram os que morreram desde a última vez que passaram recolhendo-os.

 

Os pescadores e os jornalistas que nos acompanhavam nos relataram terem encontrado enterradas nas praias do Xingu pilhas e pilhas de peixes mortos. E não há um trabalho de pesquisa independente para se medir a dimensão deste impacto. O total de 16 toneladas de peixes mortos, divulgado recentemente na grande imprensa e que resultou em uma multa à hidrelétrica, foi obtido a partir de dados da própria empresa responsável pela barragem, sem qualquer tipo de fiscalização.

 

Assim, imaginem quais devem ser os valores reais. Eu arriscaria algo entre cinco e dez vezes o valor divulgado. Nas proximidades do paredão, o nosso magnífico Xingu não lembra em nada o paraíso de vida selvagem que sempre foi. Lembra uma versão superampliada de um trecho urbanizado do rio Tietê cruzando a cidade de São Paulo (ver imagens coletadas por drone pelo pesquisador Walter Lechner).

 

Leia também:


Belo Monte e a democracia

 

 

Rodolfo Salm é PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará, por onde desenvolve o projeto Ecologia e Aproveitamento Econômico de Palmeiras.

 

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados