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Gilmar Mauro: “A sociedade brasileira está dividida em cisão característica da luta de classes” Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, da Redação   
Quarta, 20 de Abril de 2016
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Enquanto a aprovação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff monopoliza atenções, uma série de acontecimentos negativos no campo se destacou nos noticiários. O mais trágico, o assassinato de dois sem terras em Quedas do Iguaçu (PR), na mesma semana em que o movimento social voltou a divulgar o acirramento dos índices de violência no campo, por conta da terra, mas cada vez mais pela água também. Para falar do assunto e relacioná-lo aos acontecimentos na cidade e nos poderes, conversamos com Gilmar Mauro, importante liderança do MST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

 

O entrevistado vê os assassinatos no Paraná como uma provocação de consequências extremas do velho conluio público-privado que dá as cartas no Brasil, especificamente no estado do Paraná e em sua atual gestão. “Já existe tensão na região há bastante tempo. A empresa (Araupel) possui grupos de segurança armada e ainda tem contratado os serviços de pistoleiros – para além das formalidades em relação à segurança. Mas o mais grave é que o grupo sustentou várias campanhas de deputados, entre elas, a do chefe da casa civil paranaense Valdir Rossoni (PSDB), eleito com dinheiro da Araupel”, declarou Gilmar Mauro.

 

Contrário ao impeachment, Gilmar Mauro acredita que, se houvesse mais tempo para mobilizações, seria possível barrar o prosseguimento do processo de impedimento ainda na Câmara dos Deputados. Para ele, houve um complô de forças conservadoras contra a presidente Dilma Rousseff, com vistas ao relaxamento das investigações de crimes de corrupção que poderiam cair sobre muitos votantes. Ainda afirmou que o último domingo foi “pedagógico” para a população brasileira, que agora tem uma ideia mais clara do que é o seu Congresso Nacional, o que favorecerá um processo de politização.

 

“Para termos uma ideia, a própria deputada de Montes Claros (Raquel Muniz, PSD-MG), que homenageou o marido dizendo que ele era um exemplo para a nação, viu o mesmo marido preso no dia seguinte por corrupção, em clara demonstração de que o Congresso Nacional é hoje um bando de ratos; e por isso esse impedimento não tem legalidade. Qualquer governo que venha assumir, seja Temer ou Cunha, não vai ter moral e nem legalidade. Por isso, é evidente que nós vamos aproveitar desse momento pedagógico para politizar a população brasileira acerca daquilo que são as instituições – agora reveladas pelo último domingo no Congresso Nacional”.

 

A íntegra da entrevista com Gilmar Mauro pode ser lida a seguir.

 

 

Correio da Cidadania: O que você comenta sobre os assassinatos de dois trabalhadores sem terra recentemente no Paraná?


Gilmar Mauro: O que ocorreu no Paraná foi uma provocação. Uma provocação muito grave que trata da eliminação de vidas. O grupo Araupel, que controla uma quantidade enorme de áreas no Paraná, recebe verbas públicas há muito tempo e já se utilizou de todos os recursos naturais dessas áreas. Mais além de ter destruído todos os recursos naturais das terras, ainda plantou monoculturas de eucalipto, que são florestas homogêneas, para fins de investimentos econômicos.

 

Já existe tensão na região há bastante tempo. A empresa possui grupos de segurança armada e ainda tem contratado os serviços de pistoleiros – para além das formalidades em relação à segurança. Mas o mais grave é que o grupo sustentou várias campanhas de deputados, entre elas a do chefe da Casa Civil Valdir Rossoni (PSDB), eleito com dinheiro da Araupel. E ainda sustenta vários outros políticos na região.

 

Forma-se um complô entre a empresa, parte do Ministério Público, parte da Polícia Militar e também agora a Casa Civil e a Secretaria de Segurança do Paraná. Vendo a possibilidade de perda da área na justiça, por tratar-se de terra pública da União, o grupo Araupel tentou criar uma situação de conflito. Para isso se utilizou inclusive dos serviços da Polícia Militar do Paraná, que provocou o acampamento.

 

A ideia deles era de que nosso povo reagisse e proporcionasse as condições para uma intervenção militar maior. Felizmente, conseguimos fazer uma grande mobilização de massas, demos uma resposta de massas e a nossa base não caiu na provocação.

 

É evidente o vínculo desse episódio no Paraná com a conjuntura política nacional. Há setores de direita que estão tentando provocar de todas as formas conflitos sociais, apregoando o caos para justificarem ações do tipo militares, não só no Paraná. O episódio ocorre precisamente no mês em que se cumprem 20 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, cujos assassinos e mandantes continuam soltos. É lamentável e muito preocupante a situação no Paraná e no restante do Brasil.

 

Correio da Cidadania: Em abril de 2015 o MST fez cerca de 50 ocupações de terras. Como andaram as ações do movimento neste ano que passou?


Gilmar Mauro: Há uma tendência. É o que eu falei no ano passado e acabou se revelando com o agravamento da crise, o aumento do desemprego e uma piora geral na vida da população. Um momento de grande procura de famílias sem terras a fim de compor os acampamentos. Nesse ano já ocorreram muitas ocupações e a tendência é que no segundo semestre muitas mais ocorram.

 

Além do viés socioeconômico e da crise brasileira, há um outro ingrediente, que estamos construindo num debate com a sociedade, sobre o tema dos agrotóxicos, da utilização da terra, da água, dos recursos naturais. Tenho percebido uma preocupação bastante grande da sociedade em relação ao consumo de alimentos.

 

Historicamente, temos um ponto de vista que coloca o campo como lugar do atraso. Até na poesia, na literatura e nas artes há a ideia dos “Jecas Tatus”, o que criou na população do campo uma espécie de autoestima baixa, que fazia com que todo pai de família dissesse aos filhos para estudarem e irem para a cidade, “porque aqui é difícil”. E de fato os próprios produtos agrícolas são utilizados de forma pejorativa na sociedade. Quando alguém tem um problema fala de “abacaxi”, “pepino”, “fumo” ou “pisar em tomates”. Essa situação tem se revertido porque o campo tem se transformado em uma esperança. Um lugar de produção de alimentos saudáveis e ar puro exatamente no momento em que a cidade está se transformando no lugar do stress, das dificuldades, da falta de moradia e assim por diante.

 

Além do ingrediente socioeconômico, ainda há um outro, de busca de qualidade de vida. Assim, é possível prever que muitas ocupações de terra ainda ocorram em nosso país. Esperamos que depois de vencida a batalha do golpe, de fato o governo possa dar prioridade à reforma agrária, com investimentos na arrecadação de terra para o desenvolvimento da agricultura. Todos nós sabemos que em um momento de crise, se as famílias tiverem um lugar para plantar, colher e morar, evidentemente a situação pode ser não apenas amenizada, mas gerar propostas de produção e abastecimento multiplicadoras no comércio, nos serviços, e promover algum desenvolvimento econômico. Não tenho nenhuma dúvida de que a luta pela reforma agrária e pela terra vai continuar e vão ocorrer muitas ocupações de terra nesse ano no nosso país.

 

Correio da Cidadania: Como avalia o último domingo na Câmara dos Deputados e o que esperar do atual momento marcado pelo processo de impedimento da presidenta Dilma?


Gilmar Mauro: A avaliação que fazemos é que houve muito mais manifestações contra o impeachment do que a favor. Uma demonstração de que, se tivéssemos talvez mais uma semana antes da votação, poderíamos conseguir fazer com que a população fosse mudando a opinião de alguns parlamentares. Há uma participação cada vez maior com o envolvimento da intelectualidade, dos artistas e também da população que está se dando conta de que aquilo foi armado. E essa armação se comprovou no Congresso Nacional.

 

No domingo, em particular, tivemos uma aula de cretinismo político. De fato, Lenin já falava que “o parlamento é uma fábrica de cretinos” e domingo passado essa teoria se comprovou para todo o Brasil. De qualquer forma, acho que foi pedagógico. Porque o povo brasileiro viu de fato quem são os parlamentares da Câmara Federal e do Congresso Nacional. Foi vergonhoso. A maioria dos votos foi em nome da família, de Deus, de filhos, netos etc. No fundo se comprova aquilo que já havíamos denunciado, um complô.

 

Foi pedagógico para a população brasileira se dar conta de quem são os parlamentares e quem é o Congresso Nacional. Como brasileiro eu me sinto envergonhado de ter um parlamento desse tipo. Aliás, tornaram-se piada nacional e internacional as formas e conteúdos apresentados para impedir a presidenta da República. Isso só revela que as bancadas do boi, da bola, da bala, da bíblia e os grandes corruptos se articularam em uma perspectiva de se auto salvarem de um processo de investigação.

 

Para termos uma ideia, a própria deputada de Montes Claros (Raquel Muniz, PSD-MG), que homenageou o marido dizendo que ele era um exemplo para a nação, viu o mesmo marido preso no dia seguinte por corrupção, em clara demonstração de que o Congresso Nacional é hoje um bando de ratos; e por isso esse impedimento não tem legalidade. Qualquer governo que venha assumir, seja Temer ou Cunha, não vai ter moral e nem legalidade. Por isso, é evidente que nós vamos aproveitar desse momento pedagógico para politizar a população brasileira acerca daquilo que são as instituições – agora reveladas pelo último domingo no Congresso Nacional.

 

Há uma crise política que no decorrer de todo esse debate revela o que são as demais instituições como o Ministério Público, o Poder Judiciário e outras. Temos um monte de promotores públicos e juízes mequetrefes, com muito ódio e pouco conteúdo de fato. E isso vai se traduzir em um processo de formação política do povo brasileiro. Estou com uma expectativa muito grande de que nós possamos avançar enormemente no próximo período.

Correio da Cidadania: Como analisa este último ano de governo Dilma e os recentes decretos de desapropriação de terras para reforma agrária em meio ao ápice da crise de seu governo?


Gilmar Mauro: O governo Dilma, em suas ações no que se refere à reforma agrária, foi pífio para não dizer inexistente. Foi praticamente nulo. Nesse segundo mandato não foi feito quase nada. Exceto neste ano, em que algumas áreas foram arrecadadas, no ano passado não houve nenhuma desapropriação.

 

Do ponto de vista da nossa base, as principais questões não foram atendidas. Vários projetos que foram aprovados no Congresso Nacional, e alguns deles até por iniciativa do Executivo, como o tema da criminalização dos movimentos sociais, são extremamente complicados e graves. Entretanto, a nossa posição muito acertada e firme contra o golpe não é uma defesa burra do governo, mas uma defesa das conquistas democráticas do nosso povo brasileiro, que estão em disputa faz muito tempo.

 

Como eu disse, não fazemos uma defesa cega do governo, mas das conquistas democráticas que nosso povo atingiu. E principalmente contra a onda fascista que se espalha pelo mundo. Portanto, creio que seja uma tarefa não só do MST, mas de todos e todas, não apenas de esquerda, como também dos que defendem a liberdade e a ampliação da democracia.

 

Correio da Cidadania: Independente do desfecho que venha a ter o processo de impeachment, como prevê a continuidade da vida política brasileira, especialmente no que se refere à pauta do MST?


Gilmar Mauro: Penso que temos de nos preparar para um longo período. Se tem uma coisa que eu acho e tenho dito internamente no MST é que temos uma luta prolongada. Serão 10 anos ou mais. A sociedade brasileira está dividida. Não é uma cisão estilo disputa de futebol, mas característica da luta de classes. Há ingredientes, e sempre busco usar metáforas, de que estamos vivendo um período de tempestades. E as tempestades são eventos presentes na natureza que podem trazer tanto tragédias quanto felicidades; elas têm o seu aspecto positivo. Numa tempestade, várias árvores que estão tomadas por cupins, vários galhos podres e edificações mal construídas vão perecer. Entretanto, utilizando um velho proverbio chinês, “quem tem raízes não teme as tempestades”. Eu diria que também é um momento para aqueles e aquelas que têm raízes profundas no Brasil se consolidarem e se fortalecerem para fazer os enfrentamentos de luta de classes que serão muito presentes no próximo período.

 

Durante os governos petistas, houve um processo, não sei se posso dizer de despolitização, mas pelo menos de não politização da sociedade brasileira. E nos últimos 30, 40 dias, a politização se intensificou de uma forma muito forte. Tal processo de politização se dá hoje em vários campos da sociedade. Na sociedade civil de forma geral, mas também no núcleo familiar, pelas redes sociais. Em grupos de familiares que não discutiam política e agora estão discutindo. E de uma forma muito acelerada. Porque a sociedade se organiza e se aglutina em torno de polos. E dois grandes polos hoje estão caracterizados no Brasil: um polo dos democratas, e aí está também a esquerda, e um polo da direita fascista, que quer o retrocesso da sociedade brasileira. Isso tende a ser a marca da sociedade no próximo período.

 

Temos que não só nos preparar para derrotar esse polo fascista no Congresso, mas principalmente na rua, onde será a derrota deles. Precisamos nos preparar também para promover nos próximos dez anos um intenso processo de politização. É o ingrediente positivo: pudemos avançar muito na politização e nas formas organizativas da classe trabalhadora. Porque a classe em si é uma coisa muito ampla, mas, de forma geral, os mais diversos setores das classes trabalhadoras estão politizados e organizados de alguma forma. Assim, acredito que vamos avançar a passos largos na perspectiva de consolidar a consciência de classes no nosso país, algo importante para superar essa ordem extremamente perversa do capitalismo no Brasil.

 

Correio da Cidadania: As políticas de ajuste fiscal, implementadas pelo governo Dilma desde o ano passado, têm trazido uma séria de retrocessos aos direitos dos trabalhadores. De que forma isso se traduz no campo?


Gilmar Mauro: Não é diferente, hoje a distância é muito pequena entre o campo e a cidade. Estamos sob a égide e lógica do capital, portanto as mesmas empresas que atuam na cidade e no sistema financeiro atuam também no meio rural. Assim, os impactos das políticas recessivas e neoliberais atingem de igual forma o campo e a cidade. Evidentemente, o campo talvez tenha algumas condições que permitam uma maior resistência.

 

Na cidade, a possibilidade de o desemprego estar sempre às portas das casas das famílias é um problema, pois quando se está desempregado perdem-se perspectivas até mesmo de sobrevivência. O campo, para aqueles que sejam pequenos agricultores, inclusive dos assentamentos da reforma agrária, dá condições de produzir a própria alimentação. Evidentemente, há setores no campo, como os assalariados rurais, que sofrem uma série de impactos na medida em que o desemprego avança. Por isso muitas famílias estão procurando os acampamentos dos sem terra. Tanto pela sobrevivência quanto numa perspectiva de conquista do seu pedaço de terra e ter um espaço para a produção da sua própria comida.

 

Eu acho que essa situação tende a se agravar porque a crise econômica não é uma particularidade brasileira. No mundo inteiro a crise cada vez se agrava mais. E as saídas apresentadas pelo capitalismo são saídas que agravaram ainda mais a crise econômica. A reunião do G8 não apresentou nenhuma proposta concreta para a humanidade. Muito pelo contrário, a única alternativa que ficou mais ou menos patente seria fazer a quarta revolução tecnológica e industrial, que implicaria na demissão de 70 milhões de trabalhadores em todo o mundo. As medidas apresentadas pelo capitalismo são medidas que contam com um processo de maiores problemas sociais.

 

Verificamos agora no Oriente Médio e na Europa, com o desemprego e a violência, um agravamento de problemas gravíssimos que beiram a barbárie. Portanto, um outro desafio, do nosso caso particular aqui no Brasil, é resistir ao golpe e se preparar para politizar. O desafio de todos os movimentos de esquerda e progressistas é buscar articulações internacionais com o objetivo de fazer um enfrentamento mundial imediato contra a ordem do capital.

 

Correio da Cidadania: Mesmo com o que você chamou de “ação não politizadora” dos tempos de lulismo, acredita que ainda é possível compor uma alternativa de esquerda para o país junto aos setores fiéis a Lula?


Gilmar Mauro: Acho possível, sim. E a decisão política nossa de estar junto diz que quem está junto tem direito a criticar. É simples estar junto não de forma cega, mas de uma forma crítica.

 

Evidentemente, é preciso fazer autocríticas. Talvez nem todo mundo vá conseguir compreender. Mas uma grande parte da militância petista hoje está compreendendo muito claramente essa autocrítica. Mais que compreendendo, está assimilando com uma perspectiva de mudança, algo que vai se espalhando muito mais rapidamente.

 

A Frente Brasil Popular está se organizando em vários municípios do Brasil. E acredito que também a Frente Povo Sem Medo tenha ampliado bastante o seu raio de ação. A Frente Brasil Popular, com a qual tenho uma maior ligação, está em municípios pequenos, dentro de universidades, escolas, bairros e assim por diante. Assim como comitês contra o golpe com a inserção de artistas, intelectuais e setores de classe média muito importantes.

 

Evidentemente, teremos muitas contradições pela frente. Vêm as eleições municipais agora, depois as presidenciais em 2018. Como eu disse anteriormente, construir boas raízes nas formas organizativas, ainda que não sejam definitivas, mas com embriões de novas formas, alianças e articulações para a construção de frentes ainda mais amplas, é fundamental para organizar grande parte da classe trabalhadora em todo o território nacional.

 

Eu espero que essas formas de organização venham para politizar a classe trabalhadora no limite da radicalização da democracia. Agora, a classe ainda tenta construir um programa mínimo, que aponte não só para resistir ao retrocesso, mas em uma perspectiva de democratização dos meios de comunicação, do poder judiciário, de reforma política no nosso país e de ampliação de debates sobre a reforma agrária, a reforma urbana, a produção de empregos e assim por diante.

 

Esse é um programa mínimo e o processo está bastante acelerado. Eu diria ser um momento de estarmos juntos para termos o direito à palavra. Passado o momento de maior tensão, continuar a construção para tentarmos produzir uma unidade, ainda que cheia de contradições, em uma perspectiva de avanço. Por isso acho que os setores de esquerda mais radicalizados que não participaram desse processo devem refletir e se somar aos processos de mobilização de rua, que são muito importantes e muito politizadores.

 

Correio da Cidadania: Quais projeções podemos fazer para o futuro do país em meio a toda essa crise política, econômica, social e ética? E qual será o papel do MST?


Gilmar Mauro: O MST é mais uma organização dentro desse contexto. Nunca tivemos a ambição de dominar ou hegemonizar a esquerda, muito menos de sermos uma vanguarda do processo. Estamos dentro da nossa construção orgânica, felizmente muito estruturada como organização. Mantivemos sempre as nossas escolas de formação militante e continuaremos inclusive ampliando-as para outros setores da sociedade brasileira.

 

A esquerda de alguma forma superestimou a capacidade intelectual da elite brasileira. Acho que isso está sendo demonstrado claramente no processo do impeachment e tentativas de golpe. Fica patente quão limitada é. Por tal razão é importante a preocupação da militância de que o ódio colocado contra o movimento social em geral – e não é só com o PT, mas com toda a esquerda de forma mais geral – falta em conteúdo, mas sobra em disposição destrutiva.

 

Evidentemente, não se trata de subestimar as elites brasileiras, não estou falando disso. Acho que não devemos nem subestimar e nem superestimar. O grande desafio é, partindo deste programa mínimo e das condições apresentadas, tentar avançar na perspectiva de criar espaços maiores de participação popular. No meu modo de ver, se pudéssemos resgatar o velho criador deste jornal, o nosso camarada Plínio, ao discutir o tema de participação popular, numa perspectiva de espaços de luta, de mobilização envolvendo a cultura e a juventude, poderíamos nos ajudar a fazer uma autocrítica contundente, inclusive das formas de mobilização. Para além do modo como se fazem mobilizações, sob a ideia do caminhão de som lá em cima e todo mundo disputando um microfone, é possível ter novas formas de participação, de agitação e propaganda, que envolvam a juventude e outros setores da sociedade brasileira que não estão contemplados nas nossas falas e formas usuais.

 

1) é possível construir novas formas organizativas;

 

2) é preciso estimular a participação popular;

 

3) essa participação tem de ser politizada para que se transforme em políticas de um governo popular;

 

4) é preciso discutir estratégias e projeto político junto com a militância e a classe trabalhadora, em uma perspectiva nesse momento de radicalizar a democracia e discutir todo o conjunto de questões que mencionamos ao longo da conversa;

 

5) montar no Brasil e em nível internacional um movimento da classe trabalhadora e construir possibilidades reais, a fim de reunir força concreta para alterarmos a ordem do sistema no Brasil e em escala internacional.

 

Não é uma luta para 15 dias, nem pra 2018, e não é uma luta que se encerra na nossa geração. É uma luta bastante prolongada, mas estou muito otimista com as novas condições que estão sendo criadas. Acho que vamos resistir ao fascismo e plantar sementes muito boas para o futuro.

 

 

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Raphael Sanz é jornalista do Correio da Cidadania

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Última atualização em Qui, 05 de Maio de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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