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Nova Babel Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
Terça, 27 de Novembro de 2007
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Conta o Livro do Gênesis, primeiro a ser encontrado pelo leitor que abre a Bíblia, que no princípio “toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.” Ou seja, a comunicação era universal e os seres humanos se entendiam entre si. E essa comunicação sem barreiras era parte do sonho de Deus para o mundo e a criatura que saíra de suas mãos amorosas.

 

No entanto, um grupo de homens partiu para o oriente e estabeleceu-se em lugar diverso de seus semelhantes. E disseram entre si: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.” O Criador sabia que aquela soberba, aquela desmedida ânsia de poder e prestígio, não levaria o ser humano à felicidade. E foi assim que a Torre de Babel passou a ser símbolo de dispersão, desunião, confusão de linguagens. Ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.

 

Veio o Filho de Deus e falou com linguagem humana e palavras inteligíveis a todos que se lhe aproximavam. Com sua morte e ressurreição, o Espírito que o Pai lhe dera foi derramado sobre toda carne, fazendo com que a maldição de Babel fosse revertida em bênção. No capítulo 2 do livro dos Atos dos apóstolos, os discípulos reunidos após a ressurreição falam a todos os israelitas e estrangeiros presentes na praça pública e por todos são entendidos. A comunicação humana recuperara sua universalidade e cada um podia entender em sua própria lingual.

 

Não é essa a experiência que têm, no entanto, Rosa González e Ester Hernández. Latino-americanas e de língua hispânica, um dia deixaram dolorosamente seu país, sua língua materna, seus costumes e foram para o Texas, atrás do sonho americano, feito de riqueza, conforto, e um futuro talvez melhor para os filhos. Em pouco tempo aprenderam inglês e começaram a trabalhar em uma companhia de seguros.

 

Como acontece em boa parte dos EUA, Rosa e Ester tinham vários clientes hispânicos que apreciavam muito a habilidade bilíngüe de ambas. Com eles e elas, as duas funcionárias falavam seu espanhol natal e obtinham sucesso no atendimento e nas vendas. Algumas vezes, nos intervalos, quando não atendiam clientes, falavam igualmente espanhol entre si.

 

Recentemente Rosa e Ester foram advertidas e ameaçadas de demissão. E a razão era apenas esta: haviam sido denunciadas por colegas pelo fato de estarem falando espanhol. Perplexas, recusaram-se a assinar o ofício no qual se declaravam culpadas e prometiam nunca mais falar espanhol no trabalho. Foram então sumariamente demitidas.

 

Rosa e Ester entraram na justiça e surpreenderam-se por terem encontrado muitos casos semelhantes. Enfermeiras filipinas que não têm o direito de falar tagalo, sua língua natal, no ambiente de trabalho. Indígenas demitidos por causa do sotaque ao falar inglês. E muitos, muitos hispânicos que não têm o direito de falar espanhol no trabalho, nem mesmo em conversas privadas com colegas que falam o mesmo idioma.

 

Embora seu direito de falar espanhol em qualquer ambiente seja amparado pela lei, o fato é que Rosa e Ester, como muitos outros, continuam sem trabalho. E um dia passarão talvez pelo dissabor de não poder conversar em espanhol em nenhum lugar público sob a alegação de irritar os outros freqüentadores que não entendem o que falam. Como elas, outros e outras passam por situações semelhantes em vários pontos do planeta.

 

Quando a diversidade cultural, étnica e lingüística passa a ser motivo de discriminação e medidas autoritárias, algo vai muito mal. É a Babel do Antigo Testamento, que dispersou os homens e confundiu-lhes a comunicação sucedendo de novo. Quando isso acontece como sintoma de medo do estrangeiro que chega para habitar a terra que considero minha e não desejo repartir com ninguém, mais grave ainda.

 

O mundo desenvolvido está começando a sentir-se incômodo com a chegada dos migrantes que vêm de outras plagas em busca de pão e trabalho. E embora precise da mão-de-obra deles, não aceita sua língua e costumes; querem reduzi-los a uma uniformidade e uma semelhança impossíveis de existir. Seria desastroso que em tempos de globalização, quando as comunicações são abertas por toda parte, essa nova Babel ameace isolar novamente a humanidade em guetos, impedindo a riqueza de se repartir e as culturas de enriquecer-se mutuamente.

 

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. Autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape).

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Última atualização em Terça, 27 de Novembro de 2007
 

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