Brasil do impedimento ou dos impedidos de tudo?

 

 

“Ulisses, chamando Telêmaco, o boieiro e o porqueiro, disse-lhes estas palavras aladas: ‘Removei agora daqui os cadáveres e ordenai às mulheres que vos ajudem; depois, lavem as magníficas poltronas e as mesas com água e esponjas de muitos olhos. Logo que toda a casa esteja em ordem, conduzi as escravas para fora da bem construída sala e, entre o pavilhão e o belo muro do pátio, feri-as com espadas de longo fio até que lhes arranqueis a vida e a memória daqueles prazeres que davam aos pretendentes, em suas uniões clandestinas’” (HOMERO, ODISSÉIA, 2003, p. 290 – poema épico da antiga Grécia, século VIII a. C.)


Quem acorda cedo e vê o sol nascer

Pode estar dormindo quando as estrelas brilham

Mas ambos veem estrelas.

Quem chora com as mães com filhos doentes?

Quem irá cuidar dos nossos doentes?

Quem aprova os orçamentos do país?

Quem elege os que votam por nós e contra nós?

Quem são os representantes do povo?

 

Quem pode impedir quem?

Quais interesses impedem outros interesses?

Quais são os interesses econômicos

Dos que se interessam em impedir

Os interesses dos outros?

 

Quem são os verdadeiros impedidos socialmente?

Aqueles que trabalham, produzem

O povo que sofre

O povo que que irá sofrer

O povo que continuará sofrendo

Impedido e desimpedido

Sempre perdendo em qualquer jogo oficial

Muitas vezes perdendo até mais

Quando as forças econômicas

Sempre manipulam suas carências

Vontades, psicologias e ideologias...

 

O povo, talvez, deita como num divã

Achando que está fazendo terapia

Mas na verdade é iludido e ilude a si próprio

Pode, muitas vezes, acordar tarde demais

Sempre numa fria sarjeta e abandonado

Como historicamente tem sido seu destino cruel.

 

Quem mais tem interesses impedidos?

São os trabalhadores, o povo.

Quem mais tem interesses desimpedidos?

O grande impedimento sempre foi

Quando poucos detêm quase tudo

E muitos farejam as migalhas

Que sobram por descuido dos seus algozes

Que controlam a economia, as forças militares e a política

A lei e os tribunais, os parlamentos e os chefes de estado.

 

 

Roberto Antônio Deitos é poeta e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados