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Ódio eterno ao futebol moderno? Imprimir E-mail
Escrito por Irlan Simões   
Segunda, 11 de Abril de 2016
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Não é mais raro encontrar nas redes sociais e muito menos nos estádios brasileiros a frase “Ódio Eterno ao Futebol Moderno”. Essa palavra de ordem, por assim dizer, é muito ampla e indefinida e mesmo os mais entendidos do assunto podem ter dificuldades em explicar o que necessariamente se quer dizer com “futebol moderno”.

 

Até porque não há um sentido definitivo, uma vez que ele está em constante disputa. São diversos elementos utilizados para identificar o que seria o tal “futebol moderno” e esses tipos de interpretação mais amplos foram capazes de comportar espectros políticos completamente distintos sob um mesmo slogan.

 

O termo surge de forma “oficial” em 1999, quando um torcedor do clube italiano AS Roma lança num site não oficial do clube um texto com o titulo “Manifesto Against Modern Football”. O documento é uma breve crítica aos elementos que marcaram a profunda transformação do futebol na década de 1990, em especial na Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha, que formavam já naquela época o epicentro da indústria do futebol mundial.

 

O período marca a entrada das transmissões televisivas fechadas, que causaram uma série de reposicionamentos dos clubes e outros atores econômicos do futebol para com o próprio publico dos estádios. Uma mudança de prioridades que gerou a exigência de horários considerados inadequados para as partidas e uma mudança do público dos estádios com a progressiva alta do preço dos ingressos e perseguições aos modos festivos de torcer.

 

Soma-se a isso uma série de mudanças legislativas que obrigou a transformação dos clubes desses países centrais em empresas privadas, passando agora para as mãos de um único proprietário, que passa a lidar com tais instituições como um ativo particular. Também se notava uma tentativa de adequação do futebol ao modelo esportivo norte-americano, aprimorando esse produto enquanto espetáculo e tratando-o como uma indústria do entretenimento com fins unicamente lucrativos.

 

Os efeitos colaterais dessas mudanças eram latentes para os torcedores, em especial aqueles para os quais o futebol possuía maior importância nos seus costumes e modos de viver. O aumento sem precedentes do salário dos jogadores, as intervenções diretas das empresas de marketing na própria construção simbólica do futebol, a priorização dada aos anunciantes e patrocinadores em detrimento dos interesses dos próprios torcedores, além de uma série de deturpações em escudos e uniformes, símbolos considerados “sagrados” pelos mais fanáticos.

Uma palavra de ordem ambidestra

 

Tudo isso se somou a uma perseguição sistemática dos grupos de torcedores mais efusivos, acostumados a fazer das arquibancadas verdadeiros carnavais, e é aqui que devemos entender a relação entre o slogan “Against Modern Football” e os ultras europeus. No dia seguinte ao lançamento do Manifesto em questão, mais de 70 grupos de 21 países diferentes (portanto, extrapolando as fronteiras das principais ligas europeias), assinaram o manifesto e passaram a articular ações conjuntas contra a ordem das coisas.

 

Os ultras formavam grupos muito distintos e já eram muito visados pelos casos de confrontos físicos entre si e com a polícia e, em alguns casos, manifestações racistas e xenófobas nas arquibancadas. E aqui está o mais importante da questão. Em 2004, portanto pouco depois do lançamento do manifesto, um documento da Direção Central da Polícia de Prevenção, órgão ligado à Polizia di Stato da Itália, apontou a existência de 445 grupos ativos na Itália.

 

Esses grupos foram classificados em cinco perfis: apolítico (54%), esquerda (13%), extrema-esquerda (6%), direita (16%), extrema-direita (9%). Na própria AS Roma, que pode ser considerada o berço do Manifesto, foram identificados seis grupos distintos, dos quais a ASR Ultras reivindicava a extrema-direita e a Fedayn se apresentava como de extrema-esquerda, divisão muito comum em outros clubes.

 

Mais de dez anos depois é certo que o panorama deve ser diferente, seja pelo surgimento de novos grupos, seja pela extinção ou mesmo o banimento de boa parte deles dos estádios. O posicionamento político explícito de boa parte dos ultras é um aspecto muito importante para se evitar a comparação com os torcedores organizados brasileiros ou os barras bravas hispano-americanos.

 

Ainda assim, essa divisão notável não impediu que tanto a extrema-direita quanto a extrema-esquerda utilizassem o “Against Modern Footbal” de forma muito parecida. Ser “contra o futebol moderno” é uma atitude que pode partir de dois entendimentos mais amplos, duas faces distintas de reações populares aos mesmos problemas do futebol-negócio globalizado dos anos 1990 e 2000. Pela direita, equivale a reivindicar, de forma reacionária, elementos antigos de masculinidade, virilidade, honra, tradição e nacionalismo. Pela esquerda, é uma luta categoricamente anticapitalista, criticando a elitização do público dos estádios e a mercantilização excessiva do jogo.

 

Vale considerar que as lutas na Inglaterra já se davam muito antes do lançamento desse slogan. Basta lembrar da resistência à aquisição da maior parte das ações dos clubes por megainvestidores estrangeiros e à serie de mudanças aplicadas na ordem dos estádios na virada da década de 1980/90, dentre outros casos que já foram temas dessa coluna em outras oportunidades. Também é importante ressaltar que o embate contra o “futebol moderno” não se resume aos ultras, mesmo nos países já mencionados. A Alemanha é um caso clássico de que muitos agrupamentos se mostram resistentes às mudanças promovidas pelo futebol-negócio.

 

Para onde apontar?

 

Uma vez contextualizado o surgimento do slogan, vale reposicioná-lo na atualidade. Basta uma rápida pesquisa na internet para ver que as palavras “against modern football” podem ser encontradas em textos de diversos sites, em múltiplos idiomas e uma infinidade de países. É uma palavra de ordem que ultrapassou qualquer barreira possível e isso se deve, obviamente, ao aprofundamento do processo de mercantilização do futebol em todo o globo terrestre.

 

Mas cabe abordar os riscos do uso superficial desse termo. Lembro que ainda no finado Orkut um grupo brasileiro já discutia tais questões bem antes da chegada das novas arenas, que considero ser o grande vetor do processo brasileiro de apropriação do slogan. Ainda naquela época já era possível notar uma grande dificuldade em definir o que era o tal futebol moderno, porque, como já dito, ele se expressava tanto em aplicações drásticas de uma dinâmica empresarial, como em elementos estéticos aparentemente tolos, mas um tanto significativos.

 

As críticas iam desde a vaidade dos jogadores, o uso de chuteiras coloridas, a criação de “terceiros uniformes” totalmente alheios aos símbolos do clube, até o êxodo cada vez mais precoce dos bons jogadores nacionais, impulsionados por empresários cada vez mais sedentos que se apossavam das estruturas dos clubes e, por fim e mais recentemente, às restrições aos modos festivos do torcer, como a proibição de bandeiras, da pirotecnia e do consumo de bebidas alcoólicas.

 

São críticas válidas por reagirem à mercantilização aguda que passa o futebol. Mas podem conduzir a um discurso raso. É aqui que enfrentamos dois grandes problemas: por um lado, somos atraídos por uma nostalgia um tanto idealista de um futebol que, ao que me parece, nunca existiu de fato; e isso nos impede de construir uma agenda séria de lutas torcedoras para defender os elementos e princípios que consideramos caros ao futebol que desejamos. Senão, vejamos.

 

Sempre existiu, desde os primórdios, uma tendência conservadora que promovia o futebol enquanto vetor de determinados valores centrais para a sociedade burguesa. A virilidade, a competividade, a meritocracia e um suposto ar de nobreza e altivez do homem esportivo, ainda ligado ao espírito olímpico (que esquecia de falar de um nível de violência que sempre foi inerente à pratica esportiva).

 

Esse conservadorismo, revela a história, já combateu o público assistente que não pertencesse à elite; já buscou formas de praticar os jogos em campos de difícil acesso, para evitar o contato com o povo; já mandou proibir a prática livre do futebol nas ruas, pois fora dos clubes oficiais; já foi resistente à entrada de negros e mestiços nos clubes; já foi contrário à entrada de trabalhadores braçais nos times; já foi contrário à entrada de clubes de origem popular nas ligas.

 

Foi esse conservadorismo que se colocou contrário à remuneração ou premiação pelas conquistas de forma oficial, mas a praticava por trás das coxias; foi ele que combateu a profissionalização e direitos trabalhistas dos jogadores de futebol; que já proibiu a prática do futebol pelas mulheres; que já criticou os modos festivos e efusivos de torcer etc.

 

Não creio que sejam esses os valores que nos fizeram amar o futebol. Na atual quadra histórica, dos anos 1990 para cá, fomos empurrados pelas circunstâncias a dialogar com tal conservadorismo, mas é importante distinguir o que querem os torcedores daquilo que querem os cartolas.

 

Percebamos também que quando o discurso de contrariedade ao “futebol moderno” não vai além de discussões sobre elementos meramente estéticos ou morais, ele se torna facilmente apropriável. Basta ver como uma das maiores empresas de fornecimento de material esportivo se apropriou da ideia do retorno da chuteira preta como símbolo moral de um futebol “que já foi bom”, para vender chuteiras pretas ao invés das coloridas.

Também vale considerar as tentativas de clubes históricos como Manchester United, Barcelona e Real Madrid, que já proibiram a entrada dos grupos de torcedores festivos nos seus estádios, tentarem criar setores e agrupamentos festivos artificiais com o intuito de “resgatar o ambiente dos estádios”.

 

A definição do que é ser “Contra o Futebol Moderno” no Brasil passará pelo sério debate do que, de fato, é o objeto da repulsa dos torcedores. Uma mera nostalgia dos tempos passados – coisa que, inclusive, jogou a favor dos defensores dessas novas arenas – ou a defesa de alguns princípios que nos são caros, como a presença do povo nos estádios e a representação de nossos interesses dentro dos clubes?

 

Não há como voltar para trás, não vale lutar pelo que havia antes. É como se achássemos justo amontoar os torcedores mais pobres – em especial famílias, idosos e crianças — em condições péssimas para aqueles que não possuem o porte físico e o interesse de agitação dos jovens.

 

O embate à mercantilização pode colocar o conservadorismo dos cartolas como um agente duplo dessa quebra-de-braço contra o “futebol moderno”, mas jamais os colocaria como aliados dos torcedores comuns. É onde também reside a importância da luta pela democratização dos clubes, antes que eles se tornem empresas em definitivo.

 

Identifiquemos, portanto, o “futebol moderno” como o futebol-negócio, como a ideia de que tudo deve se tornar mercadoria e estar sob o controle autoritário daqueles que acham que nada na vida deve existir para além do dinheiro. Com certeza estaremos cientes de quem são os verdadeiros inimigos.

 

 

Irlan Simões é jornalista e pesquisador.

Publicado originalmente em Outras Palavras.

 

 

 

 

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