O Poder

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1. A política trata do poder. Como ensinou Maquiavel – o principal mestre da ciência política – a questão fundamental é conquistar e manter o poder.

 

2. O nome de Maquiavel ficou, para muitos, associado à crua violência e à falta de escrúpulos que ele descreve ao avaliar o jogo político. Dizem e repetem que, para ele, os fins justificam os meios, e isso parece ser uma condenação definitiva.

 

3. Antes de apreciar se essa condenação é bem fundada, e o que está por trás dela, lembro que Maquiavel foi reverenciado por Spinoza, grande gênio da filosofia do século 17, quando, a meu ver, a filosofia atingiu seu cume.

 

4. Pode ter havido filósofos (não muitos) de valor intelectual comparável a Spinoza, mas nenhum de seu porte ético, o que é interessante em relação ao conceito que ele teve de Maquiavel.

 

5. Não há como ignorar ou desprezar os fatos. Eles recaem sobre as pessoas. Os povos e as nações têm sido vítimas de exploração, manipulações e violências inimagináveis, por parte de oligarquias e tiranos. Não é fácil conceber que se possam liberar de tais afrontas a suas vidas e à sua dignidade, sem recurso aos meios que viabilizam dispor de poder.

 

6. Na lição do próprio Maquiavel, esses meios são o ouro e as armas. No caso, entenda-se a palavra ouro representando a finança, incluindo os patrimônios transformáveis em dinheiro, e o controle dos meios físicos de produção, ou seja, o poder econômico, em seu todo.

 

7. Não admira que as oligarquias cuidem ciosamente de concentrar esse poder, bem como de manter todo tipo de armas sob seu comando e controle.

 

8. Diferenciemos os termos oligarquia e elite. Isso é não só importante como, amiúde, deixado de lado. A oligarquia é um grupo de pessoas ou famílias que usam seu poder dominando e subjugando os povos e as nações.

 

9. Elite tem dois sentidos. Um, genérico, abrange também a oligarquia e também qualquer grupo que se destaque por seu valor, incluindo dotes como liderança, coragem, inteligência, know-how...

 

10. Este é a elite, propriamente dita, grupo dotado de valor, que tem por meta exercer o poder, assentado no consentimento e na participação da maioria do povo, que precisa fortalecer, educar e preparar, até para enfrentar a oligarquia.

 

11. Cabe, pois, à verdadeira elite, à qual devem ter acesso oriundos de estratos populares, ligar-se à respectiva nação e liderá-la na formulação de seus projetos de desenvolvimento econômico e social.

 

12. Maquiavel propugnava, para a Itália de seu tempo (transição do século 14 para o 15), o comando de um príncipe capaz de unificar a nação, então dividida em numerosos Estados e tendo regiões ocupadas por forças militares de potências estrangeiras. Para ele, os príncipes assentariam seu poder, tornando o povo contente.

 

13. Evidentemente, não havia como alcançar tais objetivos a não ser pelos meios que secularmente sustentam o poder: ouro e armas.

 

14. Nos tempos atuais, é o império anglo-americano que recorre a esses meios em doses colossais, aos quais agrega mais recursos, derivados desses dois: manipulação da informação, pela grande mídia – que dispõe de recursos visuais e acústicos eletrônicos, técnicas de psicologia social aplicada etc. - e por institutos, entidades, universidades e outros centros formadores de opinião.

 

15. Ao mesmo tempo, concentra poder econômico, aumentando-o principalmente por meio da finança, controlada pela oligarquia banqueira, e faz na indústria de armamentos o grosso dos investimentos materiais.

 

16. Às nações é oferecido – para se iludirem e imaginarem participar do poder – o simulacro de eleições, cada vez mais manipuladas. Grana distribuindo recursos para as campanhas eleitorais e dominando a grande mídia, principalmente a televisiva, de maior impacto.

 

17. Isso não tem bastado para assegurar, de modo completo, o aprofundamento da penetração imperial. Daí as “revoluções coloridas”, movidas por serviços secretos das potências imperiais e entidades a elas ligadas, ONGs etc., as quais promovem manifestações de rua, atentados etc.

 

18. Assim, realizam golpes institucionais, combinando a pretensa vontade de manifestantes com a infiltração em poderes do Estado, inclusive polícia federal e Ministério Público.

 

 

 

Adriano Benayon é doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Alemanha; autor de Globalização versus Desenvolvimento.

 

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