Rússia: recuperação de prestígio na Síria

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Em meio ano de operação militar na Síria, a Rússia inquieta a sociedade internacional. Em primeiro lugar, pela suspensão de suas ações no momento em que os efetivos locais recuperam territórios, após muito tempo de recuo nos combates contra forças extremistas, notadamente o denominado Estado Islâmico.

 

A retomada da maior parte de Palmira há poucos dias traz inesperado alento à ditadura de Bashar al-Assad. A histórica cidade havia sido conquistada em maio do ano passado pela milícia integrista, sem a preocupação de conservar as edificações milenares.

 

Até a entrada de Moscou em setembro de 2015, Damasco podia contar com reduzidos contingentes de voluntários iranianos, agregados em sua maioria ao redor do Hizbollah, para os embates diários. De início, a iniciativa do Kremlin de ingressar na peleja diante das demais potências do Ocidente e mesmo das do Oriente Médio foi subestimada.

 

Se os norte-americanos não haviam obtido sucesso no Afeganistão e posteriormente no Iraque, após anos de esforço intenso, com custos materiais significativos, por que motivo teriam os russos na confrontação civil na qual o lado com o qual mantinham duradoura parceria encolhia a olhos vistos nos relatórios castrenses? Nas primeiras semanas, o prognóstico pessimista parecia confirmar-se, porém, desde o começo do presente ano, a avaliação alterou-se.

 

Em segundo, os meios de comunicação concentraram-se em destacar as operações aéreas, com dezenas ou até centenas de bombardeios por semana, a partir da base naval de Tartus, distribuídos contra todos os segmentos de oposição ao regime ditatorial.

 

No entanto, os alvos inclusos atingiram também grupos apoiados por países ocidentais, a chamada oposição ‘moderada’. Em sua atuação, a Rússia reuniu os adversários dos baathistas em uma classificação simplificada: a de terroristas.

 

Por último, especialistas advertiam que o envio de efetivos seria temerário, haja vista os dois exemplos de fracasso acima citados. Não somente Moscou não teria condições financeiras no longo prazo como o desgaste das eventuais mortes ou de casos de invalidez, ainda que resumido a poucos, seria imenso.

 

Nesse sentido, o Kremlin empregaria força desproporcional para auxiliar seu tradicional aliado naquela região, uma vez que os fundamentalistas não usufruiriam de poderio análogo, apenas de unidades terrestres para as batalhas cotidianas, compostas de alistados provindos de diversos países, até dos da Europa.

 

Todavia, várias fontes apontam o emprego de tropas de elite nos embates, sem poder estimar o número. Admitir a participação de maneira explícita não entusiasmaria o combalido exército sírio ao tempo em que chamaria de modo desnecessário a atenção da opinião pública mundial, apesar de não ser mais assunto reservado – a própria Al Jazeera, Reuters ou France Presse têm comentado a participação de militares moscovitas nas investidas contra os integristas.

 

À primeira vista, a interrupção das atividades aeronáuticas na Síria não prenuncia pausa para a movimentação de suas unidades de escol em solo, mas o objetivo da extensão da permanência ainda não foi desvelado.

 

O governo Putin comporta-se com sobriedade ou cautela até o momento. É possível que seja uma lição aprendida do posicionamento blasonador da gestão Bush em sua primeira fase na Segunda Guerra do Golfo, em 2003.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

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