O buraco negro da conjuntura política nacional

 

 

Quais questões estão sendo invisibilizadas ou tendo sua não existência produzida quando a conjuntura política nacional parece sugar todas as atenções? Não vou conseguir dar conta de tecer uma resposta completa neste espaço, mas esboço algumas pistas para que seja possível agir nesta conjuntura. Vou trabalhar em dois planos: a institucionalidade e as lutas.

 

Cabe destacar que o contexto político nacional não remete a uma polarização apenas, mas uma camada de polarizações que se alimentam, umas mais fortes que outras. A mais forte atualmente é a que gira em torno do afastamento da presidente Dilma a partir do processo de impeachment aberto. Mas posso destacar várias outras que surgem e se fortalecem dependendo do momento e da situação em questão: Lula x Moro; PT x PSDB; Dilma x Cunha; PT x PMDB; coxinhas x petralhas; governismo x antigovernismo.

 

Começando pelas lutas, podemos verificar um apagamento na mídia corporativa e na maior parte das narrativas nas redes. Mas as lutas não cessam. Para ficar apenas no contexto do Rio de Janeiro, onde vivo, os estudantes secundaristas estão iniciando o que parece ser uma série de ocupações. Já são duas escolas ocupadas: Ocupa Mendes, na Ilha do Governador, e Ocupa Gomes, na Penha. As duas situadas no subúrbio da cidade, com uma visibilidade restrita a alguns nós das redes sociais.

 

Além disso, chama atenção como as favelas vêm se organizado em múltiplas frentes num processo autônomo que envolve até mesmo a criação de um aplicativo (Nós por Nós) para denunciar a violência policial. Numa vertente mais sindicalizada, os profissionais de educação estão em greve há quase um mês. Essas lutas vêm sendo praticamente engolidas pela conjuntura nacional em suas múltiplas camadas de polarização.

 

Por outro lado, uma questão que vai ser diretamente afetada pela conjuntura nacional são as eleições municipais, que traziam o potencial de mexer no tabuleiro político nacional e influenciar nas configurações das eleições de 2018. Particularmente no Rio de Janeiro, teremos um cenário extremamente pulverizado numa disputa que será atravessada pelas Olimpíadas e muito provavelmente pelo cenário nacional, especialmente se o processo de impeachment se estender até outubro. O desafio é pensar a cidade e pautar o debate local num clima em que todas as atenções se voltam para o cenário nacional.

 

Como lidar com esse cenário? Eis a questão que perpassa a política institucional e as lutas que se tecem fundamentalmente em contextos cada vez mais localizados. Neste sentido, a saída da polarização são as pautas que nos mobilizam, em especial no âmbito de uma potencial sociedade civil a ser constituída. Estas também vêm sendo totalmente absorvidas pelo buraco negro da conjuntura política nacional.

 

No fundo, as pessoas parecem se mobilizar para defender alternativas muito parecidas de gestão dos fluxos do capital financeiro, ou seja, por quem melhor irá nos dominar, por mais que uns caminhos sejam mais drásticos que outros, como parece ser na perspectiva ultraliberal que o PMDB defende com sua “Ponte para o futuro”.

 

É importante entender o que está em jogo neste momento na disputa de frações pelo poder, mas isso não pode significar uma mobilização exclusiva que apague aquilo que vai nos possibilitar até mesmo a chegada a uma democracia que vem sendo tão proclamada e defendida, na maioria das vezes de uma forma restrita ao voto. Precisamos ampliar a ação democrática e ir além da mera representação, pois o sistema político se mostra cada vez mais dissociado dos anseios da sociedade.

 

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Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador da UFRJ.

 

 

 

 

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