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Bruxelas: os cavaleiros do próprio apocalipse Imprimir E-mail
Escrito por Mário Maestri   
Sexta, 25 de Março de 2016
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Cheguei em Bruxelas em janeiro de 1974, refugiado da ditadura brasileira, em 1971, e, a seguir, do golpe chileno, em 1973. Na Bélgica, obtive refúgio político e completei graduação e pós-graduação em História. Encontrei um país cinza, chuvoso mas solidário, que recebeu os refugiados do Chile de braços abertos. Estudei na UCL, universidade católica, com bolsa de estudos financiada por sindicalistas, militantes de esquerda e membros do minúsculo Partido Comunista belga. Morei sempre em Bruxelas, onde convivi com jovens belgas e estrangeiros, de diversas origens, sobretudo italiana e norte-africana. A partir do fim da II Guerra Mundial, a Bélgica, grande centro industrial europeu, sustentou sua expansão econômica com a importação maciça de trabalhadores italianos, poloneses etc., destinados às minas de carvão, fundamentais à retomada da metalurgia e indústria do país.

 

Em 1946, os italianos, 200 mil no total, foram os primeiros a chegar. Literalmente substituíram, no trabalho e nos alojamentos, os prisioneiros alemães e de direito comum, forçados a descer nas minas de carvão, trabalho duro e danoso à saúde. Aquela imigração oficial foi interrompida pela Itália após a explosão de mina em Marcinelle, com centenas de trabalhadores italianos mortos. A seguir, o Estado belga contratou a importação de trabalhadores com a Espanha (1956), com a Grécia (1957) e, mais tarde, com a Turquia e com o Marrocos. Nos anos 1960, com forte impulsão industrial, trabalhadores espanhóis, portugueses etc. chegaram ao país, em forma individual, para empregarem-se também na indústria. Um tipo de imigração que livrou o Estado belga de compromissos com os governos dos países que cediam os trabalhadores. Do norte da África, chegaram muitos trabalhadores, até poucas décadas.

 

Uma população multinacional

 

Em 1974, conheci uma Bélgica multinacional, sobretudo quanto à classe trabalhadora. Naqueles anos, os filhos dos imigrados chegavam à universidade, de acesso universal e gratuita. Companheiros e companheiras refugiados amigos - chilenos, brasileiros, argentinos - conheceram e casaram-se com belgas nativos ou filhos e filhas de operários estrangeiros.

 

Em Bruxelas conheci minha atual esposa, universitária nascida em aldeia próxima a Charleroi, filha de italiano chegado precisamente em 1946 para labutar nas minas de carvão daquela região. Não havia diferenças de qualidade no tratamento de um jovem belga nativo e de um filho de imigrados, mesmo que aflorassem elementos de discriminação, conhecidos por todas as vagas imigratórias. Situação que tendia à dissolução, com o passar dos anos e a absorção-naturalização das gerações nascidas na Bélgica. Mesmo conhecendo o italiano, o espanhol, o árabe, os filhos de imigrados tinham, como primeira língua, o francês ou o holandês, línguas das duas comunidades nacionais que, desde a invenção da Bélgica, em 1830, dividem-se o país aos beijos e tabefes.

 

Tive grandes amigos e amigas do norte da África e da África Negra, em geral militantes e simpatizantes de esquerda, como normal na época. Uniam-nos as mesmas visões difusas de mundo e a devoção à cerveja belga, excelente. Os jovens de origem norte-africana, nascidos na Bélgica, tinham a mesma adesão à religião dos pais do que eu tinha à dos meus - isto é, nenhuma. Os jovens de origem norte-africana que conheci abominavam o fundamentalismo islâmico, assim como os jovens progressistas brasileiros abominam o nosso fundamentalismo evangélico. Denunciavam-no como movimento propiciado pelo imperialismo britânico e estadunidense, sobretudo através da Arábia Saudita, para enfraquecer os então fortes movimentos de libertação nacional de inspiração mais ou menos esquerdista, nacionalista, laica que avançavam no mundo dito árabe.

 

O fundamentalismo era inimigo a ser abatido

 

No Marrocos, Egito, Líbia, Argélia etc. havia governos nacionalistas, antifundamentalistas, com amplas fricções com os EUA e seus aliados. Não eram governos emanados da população e possuíam fortes contradições com suas classes trabalhadoras e populares, mas garantiam espaços de convivência social e alguns direitos civis mínimos, com destaque para as mulheres. Sobretudo em comparação com sociedades como a Arábia Saudita.

 

Em Bruxelas, mesmo nos bairros de imigrados norte-africanos, apenas as mulheres mais idosas portavam o véu. Jamais vi alguém portar uma burca, até retornar ao Brasil, no final de 1977. Na Bélgica, o racismo era sobretudo contra a população negro-africana, em boa parte oriunda da ex-colônia belga, com pouca expressão entre os trabalhadores. A colonização do Congo foi singularmente desumana, praticando crimes inimagináveis.

 

Em 1991, quando Florence retornou a Bruxelas para terminar os estudos universitários, a situação mostrava-se já diversa, sobretudo em relação aos trabalhadores imigrados norte-africanos, últimos chegados, e dos seus filhos nascidos na Bélgica. Matriculamos Gregório, nosso filho, nascido na Bélgica, em 1977, em colégio público de Etterbeek, bairro onde morávamos e onde se concentram as instituições europeias.

 

Não sabíamos que o colégio constituía uma espécie de depósito de filhos de norte-africanos, provenientes de famílias que já conheciam situações precárias. A tensão entre os jovens norte-africanos e os belgas de origem era forte, espelhando situação que se degradaria nos anos seguintes. Quando menina e adolescente na escola, Florence sofrera pouco o peso de sua origem italiana. Mas volta de seus pais para a Itália, após a aposentadoria, anos mais tarde, foi sentida como enorme perda pela pequena comunidade operária em que viveram.

 

Um italiano primeiro-ministro

 

Com o passar dos anos, os filhos de italianos, portugueses, espanhóis etc. integraram-se profundamente no país, em geral ocupando postos crescentemente especializados no mundo do trabalho e na sociedade. Esse processo foi propiciada pela educação pública, por direitos sociais inimagináveis para o Brasil e graças a um mercado de trabalho em expansão. Recentemente, o cargo de primeiro-ministro do governo federal da Bélgica foi assumido por filho de operário italiano imigrado. Não foi por choque de civilização, como proposto pelo conservadorismo, que o mesmo não ocorreu com os norte-africanos.

 

Em 1974, conheci a cidade de Charleroi, já com as minas desativadas, mas ainda centro metalúrgico dinâmico, absorvendo ainda uma mão de obra que apenas começava a exceder às necessidades. Diante das moradias operárias, operários especializados exibiam seus novos automóveis.Visitei um velho italiano, ofegante, semi-imobilizado, respirando com ajuda de oxigênio, com os pulmões destruídos, como milhares de outros mineradores. Doze anos mais tarde, visitei a aldeia em que Florence nasceu. Na periferia de Charleroi e antigos bairros industriais, deparei-me com usinas, fábricas, moradias, lojas, bares abandonados e enegrecidos pela fuligem dos alto-fornos desmobilizados. A impressão era de uma espécie de ferro-velho industrial. Na região vivia uma geração de trabalhadores lumpenizados e desmoralizados, entre eles colegas da escola de Florence, que envelheceram não raro praticamente sem jamais ter trabalhado, sustentados pelo salário-desemprego.

 

O fim do sonho capitalista

 

A crise estrutural da ordem capitalista e as políticas neoliberais que ensejou, sobretudo após a vitória da contrarrevolução mundial, de fins dos anos 1980, ocasionaram uma vaga gigantesca de desindustrialização, deslocamento industrial e desemprego no mundo industrializado, que golpeou duramente a Bélgica. No Sermão da Montanha do mundo real, os últimos chegados passam fome, frio e são humilhados. Os trabalhadores norte-africanos, com direito de residência, aposentaram-se ou passaram a gozar do salário-desemprego, ao igual que seus companheiros belgas.

 

Com o agravamento da crise, foram apontados como parasitas de uma sociedade nacional que haviam e seguiam construindo. O movimento de discriminação enfatizou características somáticas e culturais antes quase desapercebidas: a forma popular de falar; a cor mais escura da pele; o cabelo negro ou crespo; a religião e cultura muçulmanas; os nomes e sobrenomes árabes. Mesmo com curso secundário e universitário, os jovens de origem norte-africana nascidos no país foram marginalizados na disputa cada vez mais acirrada pelo trabalho cada vez mais escasso. Quando muito, empregaram-se nos trabalhos precários, temporários e mal remunerados, incapazes de sustentar inserção minimamente condigna na sociedade nacional. E assim muitos deles nasceram e têm vivido reduzidos à situação de párias, em seu próprio país.

 

Alguns bairros de Bruxelas, com destaque para Molenbeek, se transformaram em espécie de guetos norte-africanos, sobretudo devido aos menores preços de seus imóveis. Entretanto, neles vivem também moradores de outras origens, sem maiores problemas de convivência. Por esses azares da sorte, Gregório, hoje professor do curso de Arquitetura na ULB em Bruxelas, se alojava em casa de casal de amigos arquitetos, no mesmo lado da rua, apenas a duas casas, do último esconderijo de Salah Abdeslam.

 

A morte da utopia

 

O uso e o tráfico miúdo de entorpecentes, a pequena delinquência, a humilhação permanente, a inevitável desmoralização são os únicos grandes caminhos que se abrem a essa geração descartada, permanentemente assediada por forças policiais municipais que não primam pelo apreço ao multiculturalismo. Diante dela, uma sociedade que tudo promete e oferece a quem é um produtor e consumidor de maior ou menor fôlego.

 

Por outro lado, a derrota da classe operária e o retrocesso e dissolução dos partidos e organizações de esquerda belgas e europeus ensejaram que seus programas não mais atraiam essa juventude sem futuro e destino, que descrê totalmente da organização e luta social para a superação do descalabro atual. Não raro, o vazio ideológico-existencial dessa juventude é preenchido pelo fundamentalismo, reação aparentemente radical à sociedade cristã-ocidental que a marginaliza e humilha no país em que se nasceu.

 

O massacre e a literal destruição de nações inteiras de raízes árabes e muçulmanas - Palestina, Líbano, Iraque, Síria, Líbia -, promovidos pelos Estados Unidos e seus aliados, com destaque para os grandes Estados europeus, em nome do capitalismo e da civilização ocidental, causaram igualmente impulsão à adesão ao fundamentalismo islâmico, visto como dura resposta a esses crimes genocidas. A esse coquetel explosivo, acrescente-se elemento em geral ocultado pela grande mídia. O imperialismo ocidental, em aliança com a Arábia Saudita, serviram-se nas últimas décadas do extremismo islâmico para destruir nações árabes autônomas, que defendiam estados minimamente laicos, heranças das lutas pela independência anticolonial dos anos 1950, travadas contra a Inglaterra e a França, sobretudo.

 

Quando o Ocidente amava Bin-Laden

 

Política de destruição nacional que, em 2011, se voltou para a Síria, após o arrasamento de Líbia, Iraque, Palestina, Afeganistão etc. Inicialmente, o levante islâmico fomentado por EUA, Turquia, Arábia Saudita e Estados europeus imperialistas foi saudado vivamente na Europa como movimento libertador. Ainda há dois ou três anos, a grande mídia belga, européia e mundial - brasileira inclusive -, glamourizavam os jovens europeus, sobretudo de origem muçulmana, que partiam para lutar na Síria. Esses jovens desesperados foram apresentado como fedayins da liberdade, antagonistas do terrível ditador sírio, síntese de todos os horrores do universo, como já fora Saddam, Kadafi e outros! Pouco importava que fossem doutrinados pelo islamismo fundamentalista, que acusava o “ogro sírio”, entre outros graves pecados, de sustentar Estado laico, aberto a todos os credos. A Bélgica foi um dos países europeus que forneceu um maior número de voluntários para a cruzada antissíria. Enorme parte deles partiu de Molenbeek

 

Simpatia e apoio que começou a mudar apenas quando o Estado Islâmico, com suas principais raízes nas comunidades sunitas, reprimidas pelo xiismo entronizado pelos EUA no Iraque, escapou do controle do grande financiador estadunidense para realizar demonstrações de singular barbarismo, exprimindo um programa próprio para aquela região do mundo. Então, de heróis da luta antiditatorial, os jovens fedayins belgas, franceses, espanhóis, etc. passaram a ser denunciados e perseguidos como terroristas islâmicos.

 

Já na França e agora na Bélgica, os promotores diretos dos atentados terroristas multitudinários urbanos, comumente não são cidadãos do mundo árabe, nascidos em tugúrios rurais, educados nas obscuras madrassas financiadas pela Arábia Saudita e pelos corruptos emirados petrolíferos, criados pelos britânicos e defendidos até hoje pelo imperialismo estudunidense e inglês, os reais proprietários de suas riquezas, há dezenas de anos.

 

Cavaleiros do próprio apocalipse

 

Os neoterroristas são cidadãos europeus, belgas e franceses sobretudo, de origem norte-africana, educados em escolas públicas, em geral até poucos anos sem qualquer ligação religiosa, não raro galvanizados e doutrinados nas prisões dos seus países, onde muitos foram parar por pequenos e médios delitos e crimes. Jovens que conheceram o desespero, a desmoralização, a humilhação, na terra em que nasceram, encantados pelo abismo patológico do fundamentalismo islâmico, nem que seja como forma de abandonar em uma explosão de ódio um mundo e destino que já não mais suportavam.

 

É por tudo isso que os ataques contra o aeroporto e uma estação de metrô de Bruxelas, por jovens nascidos naquela cidade, foram saudados por outros jovens moradores de Molenbeek, Schaerbeek e outros bairros da capital da Europa, atirando pedras contra policiais, que por ali circulam, há anos, como se estivessem em terra estrangeira. É mais uma guerra civil, de classes, ou melhor, de desclassados, sem futuro, do que um confronto de religião ou de raça, travada por desesperados, condenados a uma vida sem destino, na ferida cidade de Bruxelas.

 

Atos terríveis que certamente degradarão ainda mais as condições de existência de uma população de origem norte-africana, embretada e sem saída, em uma sociedade europeia que tudo lhe ofereceu no passado e, hoje, lhe retira até a esperança no futuro.

 

 

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Mário Maestri é historiador.

Contato: maestri1789(0)gmail.com

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Última atualização em Qui, 31 de Março de 2016
 

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