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O discurso de Lula ou: não é fácil desmistificar a política Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Qui, 24 de Março de 2016
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“Não acho que uma palavra possa explicar a vida de um homem”.

Jerry Thompson em Cidadão Kane (1942), dir. Orson Welles.

 

Quem viu Entreatos, documentário de João Moreira Salles, sobre a campanha presidencial de Lula, em 2002, deve se lembrar de uma sequência na qual o personagem principal rechaça certo intelectual, de quem não ficamos sabendo o nome: “uma vez um intelectual me disse que eu não devia querer ganhar eleição, que eu não devia ser presidente da República. Como assim? É claro que eu quero ganhar a eleição, é claro que eu devo querer ser presidente da República.” Cito de cabeça, sem me preocupar com as palavras exatas. Meu interesse maior é pelo discurso de Lula, discurso esse que ele repetiu no último dia 13 de março, na Avenida Paulista, durante o atual momento de polarização absoluta entre os defensores do Impeachment da presidenta Dilma e os militantes do “Não vai ter golpe”.

 

O que o discurso de Lula revela? Qual sua intencionalidade? Qual sua intertextualidade não tão evidente? Algumas pessoas receberam com estranheza as palavras de Lula: “vermelho como sangue de Cristo”, “Lulinha paz e amor” etc. Mas o fato é que o discurso é muito revelador de tensões latentes na vida nacional e de fato muito coerente com a própria trajetória pessoal de Lula.

 

À primeira vista, Lula parece defender a democracia real, aquela que, segundo ele, o povo brasileiro aprendeu que não é letra morta na Constituição ou direito de papel sem efetividade real. Para ele, isso quer dizer que o povo brasileiro quer mais PRONATEC, PROUNI, REUNI (sic), FIES, ENEM etc. Todos os programas sociais do governo do PT seriam, então, uma forma de dar direitos efetivos para todos os brasileiros. Por exemplo, a “educação para todos”, a reforma agrária e outras pautas pejorativamente chamadas de “esquerdistas” pelo senso-comum. No entanto, é um equívoco a ser combatido reduzir a defesa de direitos sociais aos programas do PT, e um equívoco muito maior chamar o PT de esquerda, uma vez que sua relação promíscua com o capital privado repete justamente um padrão estabelecido no país pela direita tradicional. O PT não inventou nem a luta de classes e muito menos a corrupção. A verdade é que não quer se desfazer da segunda ao mesmo tempo em que tenta por todos os meios mascarar a primeira.

 

A crença no mito

 

E se é assim, nada mais coerente do que Lula dizer que entrou no governo para ajudar, e não para brigar: voltou a ser o “Lulinha paz e amor”, aquele que “dialogando” intercaladamente com as classes as fará dialogar entre si, convencendo-as a trabalhar juntas em prol da pátria. Lula confia demais na personagem que construiu para si ao longo da vida. Ele parece não ter qualquer dúvida de ser o mais apto a apaziguar os conflitos entre as classes e convencer a todos que “somos todos irmãos, somos todos brasileiros”, embora diferentes. Chega ao ponto de afirmar que a presidenta é “uma boa mãe” para todos nós, membros da mesma família, porque sabe dividir melhor que todos nós a comida e os bens que a crise tornou escassos em nossas casas. E, se houver desentendimentos e brigas, aí é quando ele, Lula, agirá como um bom pai ou até um irmão mais velho, aquele que com sua fala enérgica, porém amorosa, consegue convencer a todos os outros da necessidade de dividir mais igualmente o pouco que há para comer. Para quem achar que estou exagerando, o discurso completo pode ser facilmente achado na Internet. Confesso que quase chego a invejar a atroz ingenuidade de quem pense ser essa linguagem mera retórica para chegar aos mais humildes e menos escolarizados. O que o discurso revela é muito mais que isso, é a adesão do próprio Lula ao mito de si mesmo.

 

Quero com isso dizer que, na minha leitura, Lula não é um fascista cínico. Creio que ele realmente acredita ser o maior líder carismático da história do Brasil, o que na prática o transformaria no maior dos populistas brasileiros. Pois ele dá a entender seriamente que, com o apoio da população, pode continuar exercendo o papel de mediador entre o “povão” (chamemos assim, por ora, apenas por falta de melhor expressão) e as classes mais abastadas, as classes médias, as mesmas que nutrem por ele especial antipatia. Não arrisco dizer que o seu discurso visa a plateia composta pela altíssima burguesia nacional, pois me parece que há um racha entre os seus membros que apoiam o projeto neodesenvolvimentista do lulopetismo e os que não apoiam e desejam sua cabeça. Seja como for, é evidente que o principal ponto de seu discurso é: “eu, Lula, consigo harmonizar diferentes interesses em nome do Brasil; eu, Lula, consigo dialogar com os patrões e com os empregados, reunindo-os em nome de um ideal de nação”. Seria ele certo tipo de príncipe maquiaveliano, um que, afetado pela vaidade, perde a noção da própria virtù, desconsiderando a dos adversários? Por caminhos tortuosos e surpreendentes passeia a fortuna...

 

Seu discurso também enfatiza que a garantia de uma democracia real depende da continuidade dos programas sociais já conhecidos. Mas, seria o investimento em programas assistenciais ainda um atrativo às classes dominantes? Seriam os programas citados ainda um potente apaziguador da insatisfação popular? Parece que não. Uma rápida pesquisa, com informações do INCRA, mostra bem a distância existente entre as conquistas reais e o discurso populista de Lula. Até 1994, o Brasil nunca teve uma reforma agrária, contando com 58.317 famílias assentadas. O primeiro governo FHC começou a mudar isso, ainda que muito timidamente diante das necessidades do país, e assentou 287.994 famílias, de 1995 a 1998, e um total 540.704 famílias ao fim de oito anos de governo. Sem dúvida, um salto histórico considerável, se bem muito mais poderia ser feito com mais planejamento agrário, engenharia, vontade política etc.

 

O primeiro governo Lula assentou 381.419 famílias de 2003 a 2006, e um total de 614.088 famílias em oito anos, uma melhora significativa, mas que também poderia ter sido maior. Mas o primeiro governo da presidenta Dilma assentou apenas 107.354 até 2014, muito menos do que o governo de FHC! Essa queda é um verdadeiro golpe institucional, um estelionato eleitoral, dadas as bases e as lutas históricas do PT, e um dos fatores que permite começar a entender porque em 2013 protestos e manifestações tomaram as ruas de todo o país e até as greves superaram o pico histórico nacional. Não há dados no INCRA para 2015, o que nos leva a pensar que nenhuma família foi assentada no ano passado. 2016 ainda não terminou, mas a reforma agrária brasileira, mal começada, já parou. Os dados do INCRA podem ser consultados aqui: http://www.incra.gov.br/reforma-agraria/questao-agraria/reforma-agraria. Dado o histórico do governo Dilma e o projeto de 20 anos do governo petista de coalizão, será que a mera presença de Lula como ministro da Casa Civil ainda garante qualquer coisa?

 

O discurso de Lula não nos permite aceitar uma conclusão otimista. Lula afirma que não podemos ser como torcedores de futebol que brigam fora dos estádios, pois somos todos brasileiros. Ele ignora, no entanto, que não só o abismo social brasileiro é imenso e separa as pessoas, como também o abismo cultural se intensificou nos últimos anos, impedindo a identificação das pessoas com o Brasil, qualquer que ele seja. Basta lembrar o seguinte: no mundo em que vivemos, faz sentido apelar à identidade nacional? Pode ainda algum país se arrogar o direito de definir a saída de seus habitantes tanto quanto a entrada de estrangeiros? E mais: quem é que hoje, no Brasil, se sente genuinamente representado na política institucional?

 

A questão da identidade nacional sempre foi e ainda é muito espinhosa. Lula apela ao sentimento religioso popular, usa metáforas futebolísticas, grita “não vai ter golpe” junto com a multidão – sua retórica é muito viva, retumba forte nos ouvidos da massa. Mas falará tão forte assim a uma classe média branca que há décadas frequenta mais os terreiros de umbanda e centros espíritas sincréticos do que as tradicionais igrejas cristãs? Soará tão forte aos incontáveis protestantes neopentecostais brasileiros? Encontrará audiência entre aqueles que não conseguem pagar os caros ingressos do futebol moderno? Ou entre os habitantes das cidades onde foram construídos moderníssimos estádios para jogo nenhum, nos quais a população local é proibida de entrar, como em Natal ou Manaus, por exemplo? Ou entre aqueles que se lembram do corte de R$ 14 bilhões no orçamento da educação da tal pátria educadora? O que dirão do “não vai ter golpe” os povos indígenas duramente massacrados para a construção de hidrelétricas, mortalmente golpeados para dar lugar a reformas no Maracanã? Soará a retórica de Lula e seus acólitos triunfante ou herética, esvaziada, populista ou o quê?

 

Talvez nem tão vazio ou herético, o discurso de Lula e dos governistas repete incansavelmente: a pobreza extrema no Brasil diminui mais de 60% (segundo o IPEA: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=27000&catid=10&Itemid=9). No entanto, o mesmo Ipea também afirma que desde 2012 a miséria vem aumentando no país mais uma vez, a uma taxa de mais ou menos 3% ao ano, o que fragiliza ainda mais a retórica governista (segundo o Ipeadata: http://www.ipeadata.gov.br).

 

Mas dados e estatísticas sempre podem ser corrigidos e reorganizados segundo os interesses do momento. Há uma repetição incontestavelmente constrangedora no discurso de Lula: a do mito ufanista do Brasil como o melhor país do mundo. Na nossa grande e generosa pátria, basta que todos trabalhem e façam sua parte para o desenvolvimento do Brasil! Nisso, o discurso de Lula não é essencialmente diferente do discurso de Bolsonaro, que em seu site pessoal repete a mesma fórmula: “nosso país é viável (!!!).

Tem um povo trabalhador e um território rico em reservas naturais. Temos apenas que estancar a hemorragia da corrupção” (leiam aqui, com seus próprios olhos, se aguentarem: http://www.bolsonaro.com.br).

 

Duas diferenças são notáveis: a ausência do combate à corrupção no discurso de Lula e do ataque odioso à diferença. Ao contrário, Lula faz o discurso da conciliação das diferenças: se há quem ainda não tenha aprendido que democracia é convivência pacífica das diferenças, que não existe lugar para ódio neste grande e belo país, temos de convencê-los disso, não com ódio e violência, mas com diálogo e fazendo valer os direitos que os programas do governo implementam (implementam? Como a reforma agrária?). As palavras são diretas: “O Brasil é maior que qualquer crise do planeta Terra! O Brasil é grande, tem o Pré-sal!”

 

No entanto, os fatos desmentem essa retórica ufanista. Sem entrar no mérito da soberania nacional e da exploração de 70% Pré-sal garantidos às petroleiras internacionais; e também sem entrar no mérito de que os ministros do governo Dilma intercederam no Senado em favor do projeto do senador do PSDB, José Serra; podemos entrar no mérito de que a matriz energética nacional poderia ser muito mais diversificada do que é, sem depender tanto de um combustível fóssil altamente poluente, cuja propriedade movimenta o belicismo mundial. É orgulho nacional fornecer fonte de lucro ao imperialismo ocidental?

 

Que Brasil?

 

Nesse ponto do discurso, parece surgir o que nele há de mais emblemático. Apesar de proclamar que somos todos brasileiros, o discurso de Lula baseia-se na mesma dicotomia entre “nós” e “eles” que sustenta o discurso da oposição denominada “fascista”. De fato, o discurso fascista sempre se nutriu da atribuição de todo mal ao Outro, usando do nacionalismo para promover o ódio à diferença. Usado por Mussolini, por Stalin, por Hitler, o nacionalismo serviu para criar na cabeça da massa – a tal massa de manobra que ninguém quer ser – a ideia de que todo o mal vem de fora, jamais pode vir de dentro, de tão nobre essência à qual pertencemos. Mas a invocação de Lula também remete à dicotomia entre o Brasil real e o Brasil oficial, tão bem expostas por Machado de Assis e Ariano Suassuna. Onde está, então, o problema?

 

Na fala de Lula, o Brasil real somos o “nós”: os pobres, os que merecem uma parte maior do grande bolo Brasil, os que viajam para Garanhuns e para a Bahia e por isso não nos preocupamos com a alta do dólar; e o Brasil oficial são eles, os que preocupados com a alta do dólar não querem repartir mais porque temem não viajar para Miami. Essa dicotomia maniqueísta esconde muitos fatos, como, por exemplo, o de que viajar no Brasil pode ser mais caro do que viajar para fora, a começar pelo preço da passagem. Ainda que indique um inegável ódio classista contra qualquer ascensão social no país, insistir nessa dicotomia não faz sentido: se somos todos brasileiros, se o sangue de qualquer um é vermelho como o de Cristo, por que reafirmá-la?

Não vejo melhor maneira de explicar se não dizendo que discurso nacionalista faz e não faz sentido.

 

À pergunta “quem somos nós, brasileiros?”, Paulo Emílio Sales Gomes respondia dialeticamente: somos e não somos; somos ao mesmo tempo ocupantes e ocupados num território que possuímos, mas onde não mandamos. De fato, desde o movimento modernista esse é um tema decisivo no pensamento brasileiro. A ideia de redescobrir e reconquistar o Brasil para os brasileiros após a queda do Império suscita disputas ambíguas há tempos. Por exemplo, o verde-amarelismo do grupo da Anta, lançado por Plinio Salgado, o integralista, com apoio de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida, opunha-se diretamente ao modernismo crítico e investigador de Mário de Andrade, sem deixar de lançar farpas ao pensamento antropofágico e cosmopolita de Oswald de Andrade. O verde-amarelismo programático propunha um retorno a um Brasil primitivo, no qual radicaria a verdadeira essência brasileira. De maneira totalmente a-histórica, propugnava um nacionalismo exacerbado, verde-amarelista,  defensor de um Brasil ideal que nunca existiu. Essa predileção por abstrações ocas o aproxima do fascismo, e, fazendo escola até hoje, desconsidera totalmente a diversidade e a multiplicidade dessa nossa civilização “tropicalista”, conforme a denominação inventada pelo pai de Castro Alves.

 

A resposta de Oswald e Mario veio com o conceito de antropofagia: o movimento da cultura brasileira sempre foi o de deglutir criticamente os signos da cultura ocidental, transformando-os aqui pela mistura com elementos de outras culturas, principalmente a indígena e a africana, mas, na verdade, de todas as culturas de todos os povos imigrantes. A cultura brasileira, assim, é um movimento para frente, e não para trás. Recuperar a herança indígena não é idealizar uma América-Iracema, como o fez José de Alencar, mas continuar a assimilação com mais informação, conhecimento e perspectiva de futuro. O modernismo de Mario e Oswald consegue, com essa ideia, formular o conceito filosófico mais poderoso do pensamento nacional e instaurar a discussão sobre o sentido de nossa formação histórica como nação. Pessoalmente, não creio que alguns dos verde-amarelistas (Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia talvez) discordassem fundamentalmente dessa ideia, antes, apenas recusavam o direcionamento político dado a ela por Oswald ou Mario.

 

Mas, e o discurso de Lula? Ora, o desvio pelos modernismos brasileiros mostra que a identidade nacional só pode ser uma meta, um ideal a ser construído, jamais pode ser um modelo a priori pronto a ser aplicado quando convém. Mas é exatamente isso que o discurso do presidente Lula reafirma. Ao operar na mesma chave da dicotomia entre nós e os outros, o ideal de nação por ele mobilizado retoma certo programa: o nacionalismo seria a expressão de uma comunidade de interesses partilhados por todas as classes sociais brasileiras. Apenas ele, Lula, é capaz de convencer eles, os que viajam para Miami, que os seus interesses são os mesmos que os nossos – eles não sabem disso, ainda não se convenceram disso, mas é o que nós, bons cidadãos, temos o dever de fazer. Se eles são verde-amarelos, também têm sangue vermelho; se somos vermelhos por fora, somos mais que todos verde-amarelos por dentro. E eu, Lula, serei o grande pintor da sintética paisagem policromática e conciliadora!

 

O problema é que a ideia de nação, aí como em qualquer lugar, é muito vaga. Distanciada de tal maneira das contradições e dos conflitos da vida social, ela não passa de uma forma sem conteúdo a serviço do mascaramento de interesses de fato discrepantes. Com isso, mostra-se totalmente equivocada a ideia de que é possível governar – melhor seria dizer, em vocabulário mais atual: gerir – o capitalismo brasileiro fazendo política policlassista, isto é, promovendo um pacto social, um armistício na luta de classes. Isso porque dificilmente é possível que os interesses confluam na sociedade de consumo. O discurso apaziguador do “vou governar para todos” é simplesmente vazio e oportunista.

 

Uma difícil unidade

 

Nessa situação, se comparado com a ainda imensa desigualdade social brasileira, o abismo cultural entre as classes não é elemento de menor importância, ao contrário, é decisivo da luta de classes. Elementos da cultura nacional que genuinamente unem as pessoas no Brasil não são reconhecidos como tais, às vezes nem mesmo pelo “povão”, quem dirá pelas classes dominantes! A língua portuguesa que unifica é menos valorizada e reconhecida do que as gírias e as variações dialetais que diferenciam, sempre invocadas no registro do folclórico e do pitoresco, nunca no da cultura genuína. A espontaneidade e o ecumenismo da religiosidade popular são aviltados e mercantilizados em nome de uma homogeneidade falsa, identificada com as religiões do colonizador europeu.

 

Aqui, não se trata apenas de tolerância, mas de convívio corporal e partilha de espaços e condutas com o outro, a ponto de as diferenças religiosas poderem ser mitigadas diante do único verdadeiro pecado que é ser ateu – quem nunca ouviu um “o importante é acreditar em alguma coisa”? E também o futebol – bem, basta citar as brigas das torcidas contra a espetacularização e a “gentrificação” que produziram o 7 x 1 para perceber a diferença entre a vida social e o mercado. E também as festas populares, de Norte a Sul, do São João ao carnaval, aproximam os corpos, dão espaço à irresponsabilidade momentânea e à vontade de transgressão tão bem conhecidas de tanta gente neste país – que pensar dos infames camarotes e cordões de isolamento, se não que essa energia toda é canalizada em fórmulas artificiais, reduzindo a potência festiva a um produto consumível?

 

O que e o quanto disso a ideia de nação de Lula é capaz de mobilizar? Ou seria a ideia de nação apenas mais uma palavra alada solta ao vento? No mundo todo, durante todo o século 20, interesses financeiros submeteram impiedosamente soberanias nacionais e direitos humanos e coletivos às suas metas. Por meio de espúrios financiamentos de campanha, em troca de investimentos muito lucrativos a poucos grupos, incontáveis políticos mobilizaram nacionalismos para esconder interesses privados, pedaladas ilícitas e politicagens canalhas. Milhões morreram na Segunda Guerra Mundial, nos desertos russos e chineses, milhares desapareceram nas ditaduras sul-americanas, dentre tantas mundo afora – Brasil, ame-o ou deixe-o, era o lema da Ditadura brasileira. O que dizer, então, do nacionalismo policromático de Lula? Afinal, é o mesmo Lula quem repetidamente retorna ao mesmo ponto: nunca antes os bancos lucraram tanto neste país como em seu governo. Do que, então, reclamam?

 

Talvez essa tediosa repetição revele um profundo recalque social. Eles, que se dizem evoluídos – civilizados? – e socialdemocratas, eles não são mais brasileiros do que nós. Somos todos brasileiros, mas somos de outra estirpe, somos mais genuinamente brasileiros que eles – um país tão grande e tão cheio de qualidades não pode ficar nas mãos de quem não está nem aí com o Brasil. Se viajam para Miami, nós viajamos para Pernambuco; se compram lá fora, nós compramos na 25 de março; se eles podem gastar e consumir, por que nós não poderíamos? Por que eles não reconhecem o país que somos? Por que somos piores? Se eles têm três refeições por dia, por que nós não podemos ter? Nós somos o povo mais extraordinário, o mais alegre do planeta Terra! Isso eles não podem nos retirar, precisamos recuperar nosso humor!

 

Nesse momento, não espantaria se, em vez do mantra do “Não vai ter golpe”, todos entoassem em uníssono a marchinha com brasileiro ninguém pode! O discurso de Lula mobiliza a ideia de que se eles, que não são genuínos brasileiros, comportam-se como donos do país, na verdade nós também temos direito possuir o Brasil, e até mais que eles, pois nós somos muito mais brasileiros, somos muitos mais! Mas, aqui, no Brasil, não somos todos ocupantes e ocupados – ou vamos expulsar os portugueses do Brasil para declarar Independência e voltar a falar nheengatu? Quem nos oprime somos nós mesmos – ou apenas os gringos é que são agentes da opressão? Se houvesse no Brasil uma guerra contra, por exemplo, a Argentina, país predileto para a personagem de nosso inimigo imaginário – o que diriam os paulistas ou os cariocas das tropas gaúchas – ofereceriam ajuda e lutariam lado a lado unidos pelo sentimento de nacionalidade? Se nenhuma tradição é puramente espontânea, o que dizer da ideia de nação brasileira! Quem aqui deseja feliz 7 de setembro como deseja bom carnaval? Por essas e outras, o ressentimento do discurso de Lula mostra-se, no fundo, o mesmo que alimenta a agressividade da PM jogando bombas contra a PUC – eles, doutores, coxinhas sustentados pelos pais, quem são eles para vir com suas teorias dizer quem pode e quem não pode mandar?

 

Mas, ao invocar sua história de ex-operário que chegou a presidente, Lula não vê maldade nos outros. Ele considera que a democracia é o resultado do voto da maioria, ou seja, uma democracia meramente formal, nos moldes do mais singelo liberalismo, no fim das contas. Essa ideia não encontra símile no clamor por mais distribuição e direitos reais que seu discurso evoca. Ao dizer que a maioria do povo brasileiro quer paz, democracia e tranquilidade, ele faz, de fato, um apelo à ordem instituída, um apelo a que todos, principalmente eles, deixem a mãe Dilma governar. A ordem institucional, assim, não é meio, mas a própria finalidade a ser atingida, o contexto no qual mais e mais programas de governo podem ser feitos, de modo a contentar com pouco os que já quase não têm e enriquecer com bons negócios os que já os fazem.

 

Messianismo vazio

 

Essa forma de se identificar pelo outro é típica da moral do rebanho, aquela mesma que Nietzsche identificou como origem de certa concepção de mal: se eles são bons, se eles são poderosos, se eles é que podem, eu não posso, não sou bom, sou fraco – mas quero também ser forte! Quero também ter direitos! Quero e posso, é legítimo! Isso é o que se revela ao apelo de não ser visto como um inimigo, mas como um membro da mesma família, a quem apenas falta a oportunidade do diálogo – diálogo este que Lula se propõe a fazer, único herói possível para mais essa prova de fogo. Na verdade, ele deixa transparecer em sua fala crer que essa tarefa foi historicamente gestada para ele! E ele também afirma nunca imaginar que “eles” ficassem com tanto ódio por ter de repartir o bolo “conosco”. Dado o seu discurso, é impressionante que ele nunca tenha pensado nessa hipótese!

 

Em vez de clamar pelo respeito a valores republicanos, em vez de clamar por apoio a um aprofundamento dos direitos sociais e coletivos, Lula repete os mesmos termos do discurso que pretende combater. Sua ideia de nação termina por parecer tão inócua e vazia quanto a luta contra a corrupção de seus opositores, pois não reconhece no processo histórico de construção do país o verdadeiro papel daqueles que de fato o construíram: os pobres, os ex-escravizados, os indígenas, os descamisados e despossuídos da terra. Em vez disso, idealiza uma pátria que precisa recuperar seu humor, governada por uma boa mãe e orientada por um grande pai. Nesse cenário-exaltação, qual o papel dos trabalhadores, de quem seu partido alega ainda ser representante?

 

Afirmando-se como líder carismático, não nega sua história e sua trajetória individuais, mas arrisca-se a se tornar apenas mais um populista derrotado na história do Brasil pelas mesmas forças retrógradas que, desde pelo menos o Império, retornam atavicamente, como um orixá do mal, a mandar e a desmandar neste país. Joga o enfrentamento dos problemas reais para um escanteio que nunca será cobrado (para usar uma metáfora bem ao seu gosto) e reafirma uma variação de messianismo sebastianista na qual ele é o próprio salvador que retornou.

 

É contra essas forças que devemos lutar, e a nossa luta é construir outras mediações, povoar o imaginário social com outras forças sociais, recuperar as memórias constitutivas da experiência histórica brasileira que o Brasil oficial, o Brasyl espetacular midiático, a terra devastada depois de ocupada insiste em dominar, usar, vilipendiar e destruir. Se o mito do herói de origem humilde que ganha lugar entre as classes dominantes já não consegue mais conter a insatisfação das massas é porque envelheceu mal, perdeu a força simbólica de outros tempos. Muitos candidatos querem ocupar esse posto, mas mostram-se impotentes, justamente por insistirem nessa estúpida briga infantil de facções dogmáticas. Entre petralhas e golpistas, só pode haver violência e burrice, e velhos discursos não conseguem evitar essa falsa oposição. Enquanto essa infame antinomia persistir, não haverá lugar para pensamento ou ação, apenas para golpes e contragolpes, reações e contrarrevolução.

 

Contra a parte recessiva da cultura brasileira, contra as tendências retrógradas que se beneficiam da falta de cultura pública e que retornam sempre que nossa consciência de nós mesmos se turva e se enfraquece, o primeiro passo a dar é reconhecer e superar a rigidez do “nós contra eles”. A polarização é superficial e esconde as lutas reais, obscurece as diferenças enriquecedoras e constrói apenas uma igualdade de fachada, um efeito transitório de Brasil que não leva a nenhuma mediação, nenhum horizonte mais amplo no qual projetar nossas expectativas, reduzindo tudo ao imediato, ao excessivamente pontual e individual, e, por conseguinte, irredutível e estanque. Já passa da hora de começar a mudar a ideia de qual mundo queremos para nós e nossos sucessores.

 

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Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e gosta de outros mitos.

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Última atualização em Quarta, 30 de Março de 2016
 

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