O pato manco quer voar

 

 

 

 

Os norte-americanos chamam de “pato manco” (lame duck) o presidente no último ano do seu mandato.

 

Não terá mais tempo para fazer o que não fez durante todos os anos anteriores. E os membros do sistema político-econômico já pensam no que poderá acontecer com o próximo presidente.

 

Cada dia que passa o pato manco torna-se menos importante, dele se espera uma administração tranquila, cumprindo o já decidido, sem inventar nada, pois, sejamos francos, ele já era.

 

Barack Obama pretende ser um pato manco diferente. Visivelmente preocupado com o legado que vai deixar, lembra suas arrebatadoras promessas de mudanças de oito anos atrás e parece disposto a cumprir o que der.

 

Começou propondo o fim de Guantánamo (embora fosse apenas parcial) e agora, segundo o Wall Street Journal, o pato manco vai voar alto pois pretende encaminhar a solução do drama palestino.

 

Com a guerra da Síria, o terror do Estado Islâmico e o conflito da Ucrânia, pouco se tratou da Palestina no ano de 2015.

 

Sabia-se que a França tentava convencer o Ocidente, os judeus e os palestinos de uma conferência internacional, reunindo as partes e outros países envolvidos no problema para se chegar a uma solução.

 

Israel de cara foi contra. Temia que a reunião acabasse numa proposta de independência da Palestina que desagradasse o governo Netanyahu.

 

O que seria até provável. Sabe-se que a opinião global é quase unânime na condenação aos assentamentos e no apoio a uma Palestina independente nas fronteiras de 1967.

 

Eis que Obama antecipou-se, voltando a um tema que ele próprio havia deixado para seu sucessor tratar.

 

De fato, a curto prazo, a paz na Palestina parece cada vez mais inviável com a expansão dos assentamentos judeus em território palestino e a expulsão dos antigos proprietários.

 

A mando de Obama, o secretário de Estado John Kerry no ano passado já manteve contatos com as partes, apresentando os princípios que seriam a base da solução dos dois Estados.

 

Foram aceitos até com simpatia pelos palestinos, mas Netanyahu sentiu-se horrorizado, pois Obama estava propondo a intervenção do Conselho de Segurança da ONU.

 

Como se sabe, Netanyahu só aceita que a paz seja negociada bilateralmente, entre Palestina e Israel.

 

Desse jeito, jamais haveria acordo, que é o que ele deseja. Pois seus representantes nessa negociação vetariam qualquer ideia que garantisse um Estado palestino independente e viável.

 

A matéria do Wall Street Journal diz que a proposta de Obama estabelece alguns pontos básicos: Israel deveria interromper os assentamentos e reconhecer Jerusalém Oriental como capital do Estado Palestino e os palestinos reconheceriam Israel como um Estado judeu, além de esquecerem os direitos dos refugiados retornarem.

 

Os dois Estados teriam suas fronteiras baseadas no armistício de 1949, com troca de terras de acordo com as mudanças nas populações.

 

As outras questões e os detalhes da divisão da Palestina em dois estados seriam objeto de negociações posteriores.

 

Acredita-se que não seria fácil convencer o Hamas. O movimento já declarou que o reconhecimento de Israel como país sionista implicaria na transformação dos seus habitantes árabes em cidadãos de segunda classe.

 

Quanto aos refugiados, seria injusto esquecê-los, já que eles perderam suas casas e terras na Palestina, expulsos pelo exército israelense.

 

É crível que o Hamas aceitaria a volta de uma parte dos refugiados, sendo pagas indenizações aos demais.

 

Esperava-se que o outro movimento palestino importante, o Fatah, seria bem menos exigente, por ser mais moderado.

 

Mas o inesperado aconteceu. Em recente reunião com o vice-presidente Joe Biden, Abbas, líder do Fatah e presidente da Autoridade Palestina, disse “não”.

 

Ele não quer provocar protestos da população palestina, num momento em que está sendo fortemente censurado por sua incapacidade em conseguir avanços na questão da libertação de seu povo.

 

Como Netanyahu já se manifestou contrário, a iniciativa de Obama parece condenada ao fracasso.

 

Por coincidência ou não, Vimont, enviado especial da França, acaba de chegar a Israel, levando na bagagem a proposta francesa de uma conferência internacional.

 

As apostas são de que tanto Netanyahu quanto Abbas repitam a negativa feita ao vice norte-americano. Mas isso pode não ficar assim.

 

Diante deste bombardeio de novas propostas, é possível que se abra uma porta, sob pressão internacional, que permita se caminhar na direção da paz.

 

O próprio Obama não deve desistir tão fácil. Acredito que ainda teremos surpresas neste ano. Será desastroso se a solução dos dois Estados virar o ano no marco zero.


A essas alturas, o “pato manco” Obama já terá voado para fora da Casa Branca.

 

Suspeita-se que seu sucessor, por posições já assumidas, formará ao lado de Israel e porá todo o poder dos EUA para manter a independência dos palestinos no mundo da fantasia.

 

A menos que Donald Trump ganhe. E ele cumpra sua promessa de ser imparcial entre Israel e palestinos.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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