Transição complexa

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Nos países capitalistas pouco desenvolvidos, como é o caso da maioria dos países do mundo, a estratégia socialista terá que ser capaz de resolver tanto a questão do poder político e da radicalização da democracia, quanto a do desenvolvimento das forças produtivas. As experiências da União Soviética e da China mostram o quanto é complexo, em países desse tipo, o desenvolvimento das forças produtivas sem o concurso de diferentes formas de propriedade e do mercado, inclusive capitalistas, mesmo que os socialistas tenham conquistado o poder e estejam se esforçando para radicalizar a democracia.

 

Nos países desenvolvidos, o processo geral de transição socialista pode ter como marca o incremento da propriedade social sobre os meios de produção. Isto é, a eliminação paulatina da propriedade e dos mecanismos capitalistas de produção, circulação e distribuição. O que deve conduzir à substituição do mercado por outras formas de relações sociais.

 

Nos países atrasados ou em desenvolvimento, ao contrário, ao invés de ingressar num processo de superação do mercado e das formas de propriedade privada, a transição socialista terá que desenvolver tais formas, numa amplitude que depende do estágio capitalista de cada um deles. E, para distinguir-se da administração social-democrata do capitalismo, pretensamente mais "humano" e "solidário", tal transição socialista terá que desenvolver, em paralelo, as formas sociais de propriedade, assim como mecanismos sociais e políticos de correção e ajuste do mercado.

 

Tudo com a missão de desenvolver as condições materiais, ou as forças produtivas, capazes de sustentar a implementação paulatina, efetiva e universal da democracia econômica, social e política, assim como da igualdade, das liberdades e da solidariedade. Nessa formação econômico-social de transição, socialismo e capitalismo continuarão em unidade e luta, em cooperação e conflito. Mas, com sinais invertidos, se o poder político estiver a serviço do socialismo, não do capitalismo.

 

Em resumo, se já é difícil implantar de chofre os valores democráticos e de igualdade, liberdade e solidariedade nos países desenvolvidos, formalmente democráticos, mais difícil ainda será implantá-los em países atrasados, nem sempre sequer formalmente democráticos.

 

Esse não é um conceito de socialismo, como ponto final de chegada. Mas também não é um conceito de socialismo de modelo aberto e de valores perfeitos, impraticável nas condições atuais do mundo e do Brasil. É um conceito de socialismo de transição complexa, que deve adaptar-se às condições de ruptura com o capitalismo, tendo em conta seu grau de desenvolvimento econômico, social, cultural e político.

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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