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"Lula e o PT há muito se esgotaram como via legítima de um projeto popular" Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Quarta, 16 de Março de 2016
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A crise política continua se desdobrando e o país aguarda os próximos capítulos, após a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil. De toda forma, o terremoto causado pela Operação Lava Jato promete desdobramentos intensos, com respostas da base governista e a incógnita que os próximos dias mostrarão para onde levará o Brasil. Enquanto isso, publicamos uma reflexiva conversa com a socióloga e professora da Unesp Maria Orlanda Pinassi.

 

“Em 2002, o PT foi eleito pelas classes trabalhadoras das cidades e do campo. Neste ano de 2016 é execrado por uma massa de indivíduos sem alma política. Os tempos ora difíceis para trabalhadores de média e baixa renda atiçam a ira desgovernada de zumbis políticos. A direita vem sendo hábil ao acolhê-los com um papel ideológico, por mais equivocado que seja, um papel que o PT suprimiu em sua relação com as pessoas”, afirmou.

 

Pinassi deixa claro que algumas perdas já podem ser consideradas irreparáveis e simbolizam uma forçada transição a um novo momento político – ainda que pouco esclarecido. “O episódio enterra de vez importantíssimas lutas da classe trabalhadora brasileira e parece concluir, de modo emblemático, o alcance da obra institucional do PT e do lulismo. Ao mesmo tempo, parece ter sido um factoide criado pela PF, mídia etc. com o objetivo de jogar mais lenha no Fla x Flu inaugurado nas jornadas de 2013, embate muito conveniente”.

 

Dessa forma, a socióloga não demonstra nenhuma compaixão ao sofrimento imposto por uma operação que, de fato, atende uma agenda conservadora. “Aqueles que tiverem uma perspectiva radicalmente alternativa às peças desse jogo de poder sórdido não devem envolver-se na irresponsável promoção de ódio, na incitação de reações populares contra e a favor de uma disputa que só serve para aliená-las ainda mais dos seus reais objetivos. Pois trata-se de um ódio criado, plantado, não há aí uma causa popular verdadeira”, resumiu.

 

A entrevista completa com Maria Orlanda Pinassi pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como você avalia as massivas manifestações desse dia 13 de março, que colocaram milhões de pessoas na rua sob a bandeira anticorrupção e em franco repúdio ao governo Dilma? Como avalia essa magnitude?

 

Maria Orlanda Pinassi: A primeira coisa que me ocorre é que o PT e o lulismo têm enorme responsabilidade nesta história toda. Menos pelos supostos envolvimentos em casos e mais casos de corrupção e mais pela desertificação ideológica que criaram no país em 13 anos de “consenso”, de “liga de matérias repugnantes”, como disse um importante político do Primeiro Império sobre o poder moderador hegemônico no período.

 

Em 2002, o PT foi eleito pelas classes trabalhadoras das cidades e do campo. Neste ano de 2016 é execrado por uma massa de indivíduos sem alma política. Em parte, isso acontece porque baniu das políticas sociais o caráter de classe dos “beneficiários”; porque instrumentalizou as medidas compensatórias dos bons tempos para inflar a classe média. Na verdade, potencializou a consciência consumista dos filisteus. Os tempos ora difíceis para trabalhadores de média e baixa renda atiçam a ira desgovernada de zumbis políticos. A direita vem sendo hábil ao acolhê-los com um papel ideológico, por mais equivocado que seja, um papel que o PT suprimiu em sua relação com as pessoas.

 

Obviamente, a mídia e as agências financiadoras, sobretudo norte-americanas, dos novos movimentos da direita democrática, foram fatores decisivos para o sucesso das manifestações massivas deste domingo. Esse fenômeno vem sendo registrado em outros países da América Latina que também vivenciaram períodos de governabilidade mais ou menos progressista, como a Venezuela, a Argentina, a Bolívia.

 

Mas, no Brasil, esse processo se mostra particularmente dramático, talvez porque se trate de desmontar símbolos dos mais importantes da memória de lutas relativamente recentes do país.

 

Correio da Cidadania: O que imagina na política brasileira nas próximas semanas, em termos de consequências dessas manifestações? Acredita que a crítica a seu perfil de classe e renda são suficientes respostas?


Maria Orlanda Pinassi: Acho temerário para o governo e sua histórica base de apoio saírem às ruas no próximo dia 18. Qualquer coisa menor, menos expressiva do que se viu neste domingo, será demonstração de fragilidade e decadência.

 

Espero estar errada, mas num momento particularmente delicado para Dilma, Lula e o PT, a próxima sexta-feira pode ser a chancela para o impeachment, a pá de cal esperada pelos abutres da oposição.

 

Correio da Cidadania: O que imagina como saída do governo e dos setores lulistas, que também organizarão suas manifestações em defesa do governo e da democracia, como anunciam?


Maria Orlanda Pinassi: É inegável que a partir desta segunda-feira o clima político criado pelas imagens exaustivamente mostradas por todos os noticiários do país ampliou muito as chances de derrubada do governo. A unilateralidade das investigações, a arbitrariedade das convocações sobre os depoentes, as sucessivas denúncias de afinidade espúria entre o novo caçador de marajás e o PSDB, mais do que princípios de uma legalidade diuturnamente violada, parecem o trunfo maior de Sérgio Moro, a figura mais exaltada pela direita domingueira, prioritariamente branca e de classe média alta. Essa talvez seja a grande novidade dos fatos.

 

Correio da Cidadania: Como você recebeu o impacto daquela sexta-feira, 4 de março, que começou om Lula forçado a depor pela PF e uma histeria de lado a lado entre petistas e oposicionistas conservadores?

 

Maria Orlanda Pinassi: Eu diria que, para além do que afirmam juristas e muitos outros analistas do episódio, o Estado de Exceção não está na berlinda pelo que fez a Lula e seus filhos neste dia 4 de março. O Estado de Exceção vem sendo historicamente praticado neste país de tradição antidemocrática contra a população indígena, contra a população pobre e negra das periferias urbanas, contra camponeses e quilombolas que se interpõem aos interesses do capital do hidro e do agronegócio, da mineração, da construção civil, contra os trabalhadores que perdem empregos, direitos e sua condição de sujeito da luta de classes. E não podemos esquecer da efetiva contribuição dos governos do PT neste sentido, seja por omissão, seja por participação direta (caso do protagonismo na Minustah – tropas da ONU que ocupam o Haiti –, caso da proposta e aprovação da Lei Antiterrorismo).

 

Esse é meu ponto de partida para considerar que foi um episódio lamentável por se tratar de um ex-presidente de passado operário, sindical, alguém que exerceu enorme liderança popular no Brasil e na América Latina, acusado de corrupção e toda ordem de falcatruas, que um dia, muito antes de chegar ao Planalto, foram pautas de combate do próprio PT.

 

Mais do que lamentar o fato em si, o episódio enterra de vez importantíssimas lutas da classe trabalhadora brasileira e parece concluir, de modo emblemático, o alcance da obra institucional do PT e do lulismo. E, conforme reação irada e inflamada de Lula em declaração posterior ao depoimento na PF, há disposição ora renovada de lançar-se em 2018 e continuar os desmontes que ele e sua sucessora impuseram objetiva e subjetivamente aos trabalhadores do país.

 

Ao mesmo tempo, parece ter sido um factoide criado pela PF, mídia etc. com o objetivo de jogar mais lenha no Fla x Flu inaugurado nas jornadas de 2013, embate muito conveniente, aliás, pra desviar o foco das bandalheiras que o Congresso majoritariamente delinquente vem aprovando, muitas vezes na calada da noite, contra nossos recursos naturais, contra direitos fundamentais dos trabalhadores, contra a demarcação das terras indígenas, de quilombolas, contra a desapropriação de terras para fins de Reforma Agrária, contra as populações vulneráveis do campo e das cidades, sujeitas à truculência das ações policiais e parapoliciais.

 

O mais recente golpe, como já mencionei, foi a aprovação da Lei Antiterrorismo, que a propósito de resguardar a segurança nacional arremete de fato contra o direito de manifestação dos atingidos, organizados e não organizados, de todo o país.

 

Correio da Cidadania: Acredita que houve uma “forçada de barra” para inflar os protestos anti-Dilma do dia 13 ou o quadro é ainda mais complexo?

 

Maria Orlanda Pinassi: Como eu disse e volto a dizer, a ira de Lula, o retorno alardeado e as manifestações articuladas pelo PT em sua defesa são o avesso necessário das bravatas de Aécio Neves pelo impeachment, do ódio de roqueiros fascistas, das arengas de um proto-líder da direita jovem, da blindagem midiática articulada em torno do Instituto Millenium.

 

Dia 13 foi mais um round dessa disputa estéril e, infelizmente, atraente não somente para a classe média, mas importantes segmentos populares que há pouco veneravam Lula e o PT. Na minha opinião, ambos são caminhos pavimentados com pedras que levarão ao inferno, como já disseram antes de mim.

 

Correio da Cidadania: Nesse sentido, pode-se dizer que Lula continua temido pelos setores tradicionais da burguesia e ainda tem poder de fogo para outra eleição presidencial?

 

Maria Orlanda Pinassi: Tenho dúvidas sobre isso. Não considero o Lula de hoje como alguém temido pelas burguesias, mesmo as mais tradicionais. Observemos que Lula e Dilma já deram inúmeras demonstrações de confiabilidade para elas. Katia Abreu no Ministério do Desenvolvimento Agrário de Dilma é considerada uma afronta aos históricos movimentos de luta pela Reforma Agrária no Brasil, mas a bem da verdade ela é tão nefasta quanto foi Roberto Rodrigues já no primeiro governo Lula. Ali, naquele momento, o PT no Planalto já comprovava a funcionalidade e a verdadeira intenção da sua política de consenso. Nem assim os movimentos de luta pela terra abandonaram a base apoio.

 

Para mim, a disputa histriônica entre PT e PSDB, tanto quanto aquela reproduzida por Democratas e Republicanos nos EUA, é necessária ao espetáculo da política institucional em crise de legitimidade. Até para mostrar que no país vigora uma democracia, ainda que de fachada. Lula faz parte dela, o PT também.

 

Desse modo, não vejo como ele possa ser temido, a não ser que eu acredite piamente na disputa séria entre frações de classe (PT e a burguesia interna, PSDB e a burguesia financeira), na horizontalidade da contradição entre “capital x capital” num momento de plena transnacionalidade de capitais, num momento em que as burguesias nacionais, mediante as fusões típicas do neoliberalismo, refestelam-se em compor o quadro acionista do grande capital. Não acho que ele seja temido, mas necessário para que o jogo político transcorra sem sobressaltos.

 

Seria complicado o país não ter uma força popular com as características apresentadas pelo Lula nas últimas décadas. O medo dos conservadores pela figura de Lula é passado. Não creio que hoje ele ofereça qualquer tipo de risco real para além de uma abstrata dicotomia ‘esquerda versus direita’ em todo esse espetáculo midiático. O buraco é muito mais embaixo.

 

Não há tempo nem espaço aqui para uma análise mais precisa, mas o fato é que o país está se preparando para adentrar um novo momento da expansão e acumulação do capital e isso tem implicações expressivas em sua relação com o capital central, sobretudo em termos de uma relação ainda mais subalterna com os EUA.

 

Deixaremos de ser o país do futuro (com o sentido de emergência que representou no BRICS), para sermos um país de terceira. A crise desta esfera política está de braços dados com um quadro econômico muito grave. Um país em crise econômica, em crise política, onde nem mesmo o futebol escapa, e sem nenhuma saída razoável no plano imediato. O Brasil caminha para este novo momento de joelhos.

 

Correio da Cidadania: Tudo isso atrelado à crise econômica, desemprego e pautas conservadoras.

 

Maria Orlanda Pinassi: Sim. Temos um Congresso de insanos que está desregulamentando todas as leis que guardavam algum laivo civilizatório e está, sob a liderança do articuladíssimo Eduardo Cunha, realizando estragos de magnitude incalculável. Seguimos um processo de anulação de toda e qualquer positividade destinada à população de baixa renda, mesmo que essa positividade tenha sido a efemeridade do emprego precário e do fetiche pelo consumo realizado nos últimos anos pela via das políticas compensatórias.

 

O ajuste fiscal e a Agenda Brasil, visando atender as “perdas” dos capitais produtivo e financeiro, impõem o pior dos mundos aos “beneficiários” pobres do período anterior. Porém, não se iludam os que acreditam no retorno triunfal de Lula em 2018. Ele jamais, em momento algum, se dispôs a recompor o que foi extraído das classes subalternas. Foi assim depois dos golpes de FHC; será assim se, de fato, vier a acontecer daqui a dois anos.

 

Correio da Cidadania: No meio disso, o STF votou pela abertura de processo contra Eduardo Cunha. Como esse elemento interage com o espetáculo da Operação Lava Jato?

 

Maria Orlanda Pinassi: Esse cara já está por aí há muito tempo. Ele tem uma história impune de sucessivos atos de corrupção. Apesar de tudo, conseguiu aprovar todas as desregulamentações necessárias ao grande capital e, juntamente com a bancada de evangélicos e ruralistas, impôs um cenário potencialmente obscurantista na Câmara.

 

Foi, portanto, um sujeito muito importante para o avanço daquele novo momento de que eu falava anteriormente. Com ele, o Brasil, como referência nacional, se tornou mais frágil e nossa população mais pobre em todos os sentidos.

 

Pra concluir o tema, Eduardo Cunha, como opositor do Planalto no Congresso, continua a ser peça importante nesse tabuleiro democrático ao ser “investigado” juntamente com seus inimigos. Ora!

 

Correio da Cidadania: Como fica o grosso da população e o próprio movimento popular ante esse cenário? Qual deveria ser a reação organizada de uma oposição alternativa às forças dominantes?

 

Maria Orlanda Pinassi: Aqueles que tiverem uma perspectiva radicalmente alternativa às peças desse jogo de poder sórdido não devem envolver-se na irresponsável promoção de ódio, na incitação de reações populares contra e a favor de uma disputa que só serve para aliená-las ainda mais dos seus reais objetivos. Pois trata-se de um ódio criado, plantado, não há aí uma causa popular verdadeira.

 

É necessária uma profunda e radical reação das classes subalternas brasileiras, de retomada das rédeas de um projeto efetivamente emancipatório. É uma perda de energia muito grande envolver-se na “disputa” do momento. Como eu disse, Lula já mostrou a que veio, ele já cumpriu seu papel ao desmobilizar e despolitizar importantes segmentos de luta do país e da América Latina. O lulismo e o petismo há muito esgotaram-se como via legítima para qualquer projeto popular no Brasil.

 

Neste quadro, me dê uma razão para sensibilizar-me com a indignação de Lula...

 

 

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Última atualização em Sábado, 02 de Abril de 2016
 

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