O desafio das esquerdas começa por sair da “venezuelização” que se apresenta

 

 

 

A “venezuelização” no horizonte da polarização que se exacerba no cenário nacional será materializada nos atos pró e anti-Lula/Dilma/PT marcados para acontecer no decorrer deste mês de março por todo país. Esse processo já pode ser visto nas cenas de conflito entre os dois polos em São Bernardo do Campo ou no aeroporto de Congonhas na fatídica sexta-feira passada (4/3) em que o ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente a prestar depoimento na Polícia Federal a pedido do juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato desde 2014.

 

Quando me refiro à “venezuelização” não quero dizer que o Brasil vai virar uma

Venezuela, por mais que a dependência do petróleo possibilite possíveis comparações com o país vizinho que definha sob o outrora glorioso e saudado regime chavista. Quero me referir a uma intensificação da polarização que tem tudo até mesmo para deflagrar violência entre pessoas que compõem ambos os polos que se formam, a saber: a defesa de um governo que acabou antes do fim, de um lado, e dos que querem derrubá-lo, de outro.

 

Todo esse cenário está de acordo com o que prontifica o “deus mercado” na figura do capital financeiro que comanda a pressão sobre o governo Dilma mais do que qualquer grupo político. A miséria da situação em que nos encontramos está no fato de que nenhum dos polos em questão possui um projeto de país inserido globalmente, mas tão somente vai atender ao que o capital financeiro ditar, sem qualquer variação que possa ser digna de uma opção pelo “menos pior”, ou seja, reformas trabalhistas e previdenciária e volta da CPMF, sem falar no aprofundamento do ajuste fiscal.

 

A radicalização de ambos os polos pode ser vista nas repetidas “ameaças” de “unfollow de esquerda” nas redes sociais ou nas cobranças de posicionamento de quem só surge nos momentos drásticos para defesa de Dilma e Lula (silenciando sobre tudo o mais) no auge das reações sobre a condução coercitiva espetacularizada (da qual discordo) do ex-presidente no meio da manhã da última sexta. Essas posturas refletem a “venezuelização” a que me refiro. Uma curtida poderia ser fatal para o tribunal íntimo da exclusão da diferença que nos fecha cada vez mais nas nossas privacidades e conveniências em clubes, o que seria no fim a morte da política.

 

As recorrentes comparações com Vargas e Jango para sinalizar o receio de um golpe que não virá, pois já foi dado pelo próprio PT (basta ver Belo Monte, a ocupação militar da Maré, o acordo com a Samarco – Vale/BHP, entre tantos exemplos de arbítrio que podem ser listados), mostram que a “venezuelização” é a última cartada do PT, em especial de Lula, que fica cada vez mais acossado pela operação Lava Jato.

 

Aliás, depois do seu interrogatório, Lula fez um discurso carregado de emoção, mas com reduzido conteúdo político propositivo, apenas para se defender como uma jararaca e anunciar que está no jogo para as próximas eleições, como se isso fosse uma grande novidade. Está dado o jogo para 2018, caso Dilma sobreviva na cabeça da república: se Moro não conseguir comprovar o que aponta (que Lula é o chefe da quadrilha do petrolão), o ex-presidente se cacifa desde já para concorrer como favorito, tanto que pretende começar a viajar pelo país a partir de abril.

 

Mas o que isso quer dizer para as esquerdas em toda sua multiplicidade e fragmentação, que nem são atributos exclusivos do contexto brasileiro? É hora de quem se pensa à esquerda só olhar pro espelho ou vamos lidar com quem pensa diferente, às vezes tão próximo, pois não estou aqui nem falando do execrável Bolsonaro, que deve mesmo estar gozando com todo esse circo? Se tanto medo do outro também nos leva à crise política atual, vamos dar sustentação à polarização ou romper com ela para poder cuidar do que nos interessa, ou seja, as pautas, contaminando boa parte da sociedade que não se reconhece na polarização?

 

É a escolha que temos a fazer para mudar efetivamente a partir de agora e de cada um. Da minha parte, não vou tratar a política como um campeonato onde inevitavelmente, no final das contas, quem perde somos sempre nós que brigamos embaixo. Não existe um muro para ficar em cima e não há tempo a perder para nos organizarmos em torno de pautas e as personalidades que se virem, mesmo que sejam mitos – que podem muito bem se reerguer, ainda que sequer tenham tocado o chão.

 

Por fim, me parece que quem "tem que" escolher entre dois lados está dominado e sem capacidade de resistência. Está literalmente rendido. Para não ficar dúvida: a resistência não é escolher um lado entre os que se fabricaram na polarização mais recente (PT/Lula/Dilma/esquerda X Moro/PSDB/golpistas/direita), mas criar um lado, o que é bem difícil e opera no longo prazo.

 

A maneira de enfrentar esse conluio Estado/capital é pela sociedade - que não está organizada: eis o impasse em que estamos. Enfim, o nosso lado deve estar nas lutas por pautas que nos interessam e não na defesa de quem se lambuzou no poder e agora colhe os dividendos. Sobretudo neste momento, é preciso coragem!

 

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Marcelo Castañeda é sociólogo.

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