As alternativas energéticas ameaçam o futuro

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Pertence aos que se dedicam ao pensamento refletir sobre os destinos da sociedade em que vivem e, ousadamente, também os destinos do planeta e da humanidade. Digo isso a propósito do novo estado da Terra produzido pelo aquecimento global, a esta altura irrefreável. A grande maioria não se dá conta das conseqüências que advirão de tal verificação empiricamente comprovada.

A primeira constatação que importa fazer é: o aquecimento precisa ser qualificado. Não basta dizer que é andrópico, vale dizer, produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica e do agronegócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso.

A segunda constatação, por mais desafiadora que seja, é singelamente esta: como está não dá mais para continuar. Somos obrigados, se queremos salvar o planeta e a humanidade, a imaginar e a inventar um outro modo de conviver, de produzir para toda a comunidade de vida, de distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e de tratar os dejetos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de "um modo sustentável de viver" porque o vigente, como foi comprovado matematicamente, não é mais sustentável para 2/3 da humanidade. Isto quer dizer: todas as alternativas energéticas que se estão tomando na construção de uma Arca de Noé salvadora do sistema imperante escamoteiam o cerne da questão. Elas, tomadas em si, não nos salvarão do dilúvio. Dentro de dezenas de anos vão mostrar sua ineficácia, o que vai provocar a maldição da humanidade sobre a nossa geração. Dir-se-á: "vocês foram alertados e sabiam, mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir o curso que lhes dava vantagens".

O memorando Bush-Lula prevê uma produção massiva de etanol, seja de cana (Brasil) seja de milho (EUA). Atualmente o Brasil produz 17,5 bilhões de litros de álcool. Com a utilização de 90 milhões de hectares agricultáveis poderá chegar a produzir 110 bilhões, podendo controlar 50% do mercado mundial. É incompleta a afirmação que é uma energia limpa. É limpa apenas no uso em carros. Mas em seu processo de produção é poluente porque inclui os fertilizantes, o transporte, a estocagem, as máquinas e a liberação de nitrogênio que contamina poderosamente as águas e, transformado em ácido nítrico, produz chuvas ácidas, danosas para as florestas. Oxalá não ocorra no Brasil o que ocorreu na Malásia: 87% de desflorestamento, expulsões de camponeses e terras roubadas à produção de alimentos.

Para nos salvar importa redesenhar todo o processo produtivo, adequado a cada ecossistema, valorizando tudo o que a humanidade inventou para sobreviver, dos sistemas agropastoris e agroecológicos até a moderna nanotecnologia, com sua imensa possibilidade de resfriar o planeta.


Leonardo Boff é Teólogo da Libertação, escritor, professor e conferencista, doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique (Alemanha), professor de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior.

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Comentários   

0 #3 Uma mudança de paradigmasFlávio Flora 30-11-2007 20:57
Jorge,
o universo é eterno, mas não é estático. Tem seus ciclos de mudanças, que alcançam a via Lactea, nosso sistema solar e a Terra, particularmente. O Homem é, certamente, um grande contribuinte das mudanças climáticas, mas é o Sol o maior responsável pelas alterações. Faz parte da evolução do cosmos, essa exíração magnética.
Não há negar que a Terra, por isso, está a passar por um processo de transformação em que as variações climáticas são apenas efeitos de um evento maior.
Só não podemos ser como os vizinhos de Noé, que não subiram na sua Arca, porque achavam que ele mistificava sobre o dilúvio.
O que os cientistas de renome omitem ou desconsideram é o que a Terra mostra, nas geleiras, no Ártico, na Antartica, na Patagônia, na Nova Zelândia, nos Andes.
Na região onde moro (oeste de Minas Gerais), vai tornando-se comum as tempestades com colunas de vento que torcem o que encontramn pela frente, deixando uma linha destruição. Não se tem notícias de que isso tivesse ocorrido em outras épocas. Terremotos intensos por todas partes. Quem acha que não está acontecendo, está iludido. Quem acha que o problema é do homem, também está, e também aqueles que acham de se preocupar com as necessidades da sociedade de consumo e a economia. Todos precisamos mudar ou ajustar nossos paradigmas.
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0 #2 energia limpa ou enganosa?Maria Saléte Zanchet 27-11-2007 07:58
Também essa ilusão de "energia limpa" precisaria ser desfeita. Quantos veículos circulam exclusivamente com álcool? O álcool anidro é misturado com a gasolina e o custo do combustivel segue preços internacionais. Sem falar no duplo desgaste dos carros com motor flex.
Parece-me que essa propaganda só favorece aos industriais paulistas, que dominam a produção de cana-de-açúcar.
É sempre oportuno lembrar que a produção de álcool veio como reação aos baixos preços enfrentados pelo açúcar nos anos 70/80 do último século.
No Paraná, entre a safra 96/97 e a safra 04/05, a produção de cana-de-açúcar cresceu em volume, porém o valor bruto da produção decresceu cerca de 17%, passou de 973 milhões de reais para 802 milhões. A situação dos trabalhadores migrantes é cada vez mais dramática. Perdem trabalhadores, perdem produtores, perde meio-ambiente. Onde está o benefício desta energia limpa?
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0 #1 impostura cientificaJorge Figueiredo 27-11-2007 06:36
Neste artigo Leonardo Boff deixou-se levar pela mistificaçao do aquecimento global. Trata-se da maior impostura cientifica da historia, digna de figurar no livro de Sokal. O dito aquecimento global e' apenas uma hipotese (nao confirmada) -- nao e' sequer uma teoria e muito menos um facto. Sugiro que leia artigos de cientistas serios como Marcel Leroux, Rui Moura e outros que se contrapoem aas balelas do IPCC.
E' extraordinario que no momento em que a humanidade enfrenta problemas energeticos serissimos e uma crise financeira de proporçoes colossais estejamos a nos preocupar com jogadas diversionistas como a das ditas alteraçoes climaticas (que sempre existiram no nosso planeta). Sera' para criar o medo de um falso problema a fim de esconder os problemas verdadeiros?
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