É possível cultivar otimismo com as crises?

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Não esperem aqui um projeto de saída das crises que nos governam. Se conseguir estabelecer um ponto de partida para a discussão que envolva atores individuais e coletivos na ação de construir um projeto, que não seja saída mas alternativa, me dou por satisfeito. Escrevo este breve ensaio como contraponto ao senso de oportunidade que a presidente Dilma Rousseff (PT) declara acerca da crise que nos aflige a todos, ainda que considere um equívoco a sua pronúncia no singular.

 

Este contraponto se faz válido porque a presidente não consegue se desvencilhar do receituário previsto pelo capital financeiro, que nos enreda em um contexto de aumento do desemprego, desindustrialização, juros bancários nas alturas, endividamento crescente do país, inflação e recessão. Este é o cenário que temos hoje. Podemos acrescentar catástrofes ambientais que proliferam ou metrópoles cada vez mais degradadas e segregadas.

 

Negar ou simplesmente transferir para o povo, de forma individual, a responsabilidade de solucionar essas crises não vai nos levar a um lugar melhor do que já estamos, pelo contrário. Defenderei aqui que para lidar com otimismo ou inovar na relação com as crises precisamos de um projeto coletivo alternativo e democrático que tenha como protagonista uma sociedade civil a ser constituída em múltiplas escalas.

 

Primeiramente, é preciso acordar para o sentido das crises que vivemos. Trata-se de um fenômeno multiescalar, que transita do local ao global, e pluritemático – política, econômica, urbana, ambiental. Não se trata de uma crise a ser superada pois, no momento atual em que o capitalismo se configura como um biopoder que empreende suas estratégias de dominação a todas as esferas da vida, essa pluralidade de crises em múltiplas escalas é a forma pela qual o sistema opera. Portanto, resolver as crises passa pela superação deste sistema e isso parece ser objetivo de um longo trabalho. Mas, se estamos longe da revolução redentora, quais brechas temos?

 

Sem desprezar as demais dimensões envolvidas, mas a questão política se coloca como eixo mais adequado de reflexão para pensar a constituição da democracia como ponto de partida mais fértil no enfrentamento às crises em pauta. E por constituição da democracia quero destacar, de forma bem simples, a capacidade que cada um de nós tem de decidir o que faremos com os nossos destinos. Quanto maior tal capacidade, mais democracia em jogo.

 

Assim, sinalizo a necessidade de romper com os conluios Estado/mercado que atravessam as múltiplas escalas do local ao global. O que proponho é que a sociedade possa compor, inicialmente, um contraponto ao que hoje parece fechado às negociatas entre atores empresariais e estatais.

 

Cabe destacar a iniciativa de Varoufakis, ex-ministro grego, em relação à Europa para sinalizar que, se em um território de democracias burguesas tidas como amadurecidas estas crises se instauram, como pensar democracia no Brasil, um país que ainda atravessa sua redemocratização? Para isso, precisamos de um projeto alternativo que reflita uma consciência coletiva capaz de forçar a abertura da democracia representativa, em crise derivada do fechamento do campo político em sua relação com o mercado.

 

A constituição da democracia que passe a engajar as pessoas em um projeto coletivo que reflita as diversas pautas e facetas da crise, que force o poder constituído a consultar as pessoas que julga dominar na tomada de decisões que afetem a todos, é a proposta que podemos tecer no âmbito da sociedade civil, aberta aos contatos institucionais que nos sejam caros e estratégicos para fomentar a participação de muitos na construção dos seus destinos.

 

Por fim, o desafio passa a ser articular tal projeto globalmente, a partir dos locais em um horizonte de longo prazo. Este movimento está sendo semeado, aparece fragmentado, algo como uma demanda latente e necessária para canalizar a indignação frente a uma política institucional e representativa que não nos representa, uma crise econômica e urbana que afeta apenas os de baixo, e uma crise ambiental que afeta a todos. Os problemas são parecidos no mundo todo, mesmo que haja peculiaridades locais importantes a serem respeitadas. A globalização oferece esse terreno comum a nos unir. Não temos tempo a perder e não temos todo o tempo do mundo.

 

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do PPGCom/UERJ

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