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Ocupação “Sonho Real”: 11 anos se passaram Imprimir E-mail
Escrito por Frei Marcos Sassatelli   
Sexta, 19 de Fevereiro de 2016
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Escrevi diversos artigos sobre a Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial, em Goiânia, que podem ser acessados na internet.

 

O dia 16 de fevereiro de 2005 tornou-se o símbolo da maior barbárie humana de toda a história de Goiânia: um verdadeiro massacre praticado com requintes de crueldade. Fazer a memória dos principais fatos dessa barbárie renova a nossa esperança num “outro mundo possível”.

 

Retomo alguns dados do artigo de fevereiro de 2015 “Parque Oeste Industrial: 10 anos de impunidade” e faço algumas reflexões.

 

À época, apesar de o governador Marconi Perillo ter prometido publicamente que não iria mandar retirar as famílias da Ocupação “Sonho Real” e que estava decidida a desapropriação da área, de 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h, a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação de reintegração de posse, realizando a cinicamente chamada "Operação Inquietação", que foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral, gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os moradores da Ocupação e provocou traumas psicológicos nas crianças.

 

Após a “Operação Inquietação”, no dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira operação militar de guerra, também cinicamente chamada "Operação Triunfo". Em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégicos (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número dos mortos e feridos seja bem maior)! Que iniquidade!

 

Se na nossa sociedade houvesse um mínimo de justiça, os responsáveis por essa barbárie - o governador e seus colaboradores diretos - deveriam estar na cadeia.

 

Como já disse outras vezes, nessas operações militares criminosas, ilegais, inconstitucionais e imorais, todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o direito a vida, o direito à moradia, o direito ao trabalho, o direito à saúde, o direito à alimentação e à água, os direitos da criança e do adolescente, os direitos da mulher, os direitos dos idosos e os direitos das pessoas com necessidades especiais.

 

Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia - onde aconteceu também o velório de Vagner e Pedro num clima de muita indignação e sofrimento - cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir, ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra.

 

Nesse período, diversas pessoas, sobretudo crianças e idosos, morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do poder público do estado de Goiás e da prefeitura de Goiânia.

 

No dia 16 do mês corrente, a barbárie do Parque Oeste Industrial completou 11 anos de impunidade. Que vergonha para Goiás! À época, o principal responsável por essa barbárie foi o governador Marconi Perillo, o mesmo que hoje - de maneira cínica, arrogante, demagógica e ditatorial - quer impor as assim chamadas “Organizações Sociais” (OSs) na gestão da Saúde e da Educação Públicas, mesmo que a grande maioria dos agentes da saúde, dos educadores, dos estudantes, dos movimentos populares urbanos e rurais, dos sindicatos e da sociedade civil organizada seja contra.

 

Atualmente, em Goiás, defender a educação pública de qualidade é crime e caso de polícia. No início da noite do dia 15 deste mês (depois de um ato público na parte da manhã e depois que a Secretaria da Educação tinha sido desocupada no início da tarde) 40 pessoas ocuparam novamente a Secretaria para protestar contra as OSs. O governador Marconi Perillo mandou a tropa de choque da Polícia Militar para - com o apoio do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Grupo de Radiopatrulha Aérea (Graer) - desocuparem o prédio da Secretaria. A Polícia levou 18 manifestantes maiores de idade e 13 menores para a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas (Draco). Durante a Operação, representantes da OAB-GO foram impedidos de entrar no prédio.

 

Em seguida, os 13 menores foram levados para a Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais (Depai) e liberados no mesmo dia; os 18 maiores de idade foram levados para a Delegacia de Investigações Criminais (Deic) e liberados dois dia depois. Absurdo!

 

Por fim, lembremos do governador Marconi Perillo - o principal responsável da barbárie do Parque Oeste Industrial - que poderá escapar da “justiça” humana, mas não escapará da justiça divina, que nunca prescreve. Aguarde!

 

Ainda a respeito do Parque Oeste Industrial, renovo o pedido (já feito anteriormente), que é, ao mesmo tempo, uma advertência: não adquiram apartamentos nos empreendimentos imobiliários, localizados no terreno onde existia a Ocupação “Sonho Real”. Ninguém pode ser feliz num apartamento construído em cima de um terreno ensopado de sangue inocente dos pobres, por causa da ganância dos ricos e para fins de especulação imobiliária. É um terreno que só voltará a ser abençoado por Deus se for desapropriado por interesse social e utilizado para a realização de obras (como hospital, escola, moradia, área de lazer) em benefício dos trabalhadores.

 

“Vivemos - diz o Papa Francisco - em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... Mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que as ocupações pobres são marginalizadas ou, pior, quer-se erradicá-las! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando barracos, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje” (discurso de Francisco aos movimentos populares, Roma, outubro de 2014). Meditemos!

 

O “Sonho Real” está vivo! Ele continua! É o Sonho da sociedade do bem viver! É o Sonho de Jesus de Nazaré! É o Sonho do Reino de Deus na história!

 

Leia também:

16 de fevereiro de 2005: uma data que não pode ser esquecida

 

 

Fr. Marcos Sassatelli, frade dominicano, é doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), professor aposentado de Filosofia da UFG.

 

 

 

 

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