Estados Unidos e as inesperadas candidaturas à presidência

 

 

 

 

 

As prévias presidenciais norte-americanas têm chamado bastante atenção do eleitorado, em função do inesperado destaque de aspirantes outrora considerados folclóricos até não muito tempo, em ambos os espectros políticos. À esquerda, sobressai o democrata Bernie Saunders; à direita, emerge o republicano Donald Trump.

 

A aclamação dos ‘dinastas’ como Hillary Clinton ou Jeb Bush, aguardada como natural por muitos em seus respectivos agrupamentos, não chegou até o momento para nenhum deles. Situação surpreendente é o afastamento cada vez mais rápido do ex-governador da Flórida da preferência dos eleitores.

 

No Partido Democrata, o veterano senador de Vermont pode pronunciar o substantivo socialismo, sem que haja por parte dos saudosistas do macarthismo estrilos de longo alcance na opinião pública.

 

Na realidade, a visão de mundo do parlamentar associa-se ao êxito da consolidada política econômica dos países escandinavos, de feitio socialdemocrata, em torno da qual nenhuma outra grande potência conseguiu colocar-se acima, a despeito de maior riqueza ou de desenvolvimento científico, como é o caso dos próprios Estados Unidos;

 

No Republicano, o empresário e longevo apresentador de o Aprendiz manifesta-se através de falas bastante controversas, porém de resultado midiático quase imediato, sem que ocorra a ele nenhum tipo de restrição de porte.

 

Na prática, a cada declaração polêmica refutada de maneira geral por organizações da sociedade civil, ele adquire mais tempo para comentários junto aos meios de comunicação, nos quais ele calibra o teor de acordo com o grau de repercussão negativo da primeira manifestação.

 

Em uma avaliação preliminar, a sustentação do voo de cruzeiro dos dois diversos pretendentes à titularidade da Casa Branca demonstra a insatisfação da sociedade com os políticos considerados tradicionais, ou seja, com aqueles cujo comportamento se associa ao hoje desfavorável, ainda que não reconhecido pela elite, status quo dos Estados Unidos.

 

Embora seja o principal vetor de atração dos imigrantes do globo, o país já não desfruta do magnetismo de décadas passadas, momento em que as pessoas fixavam a atenção na materialização do chamado sonho americano, isto é, na possibilidade de alcançar o sucesso, malgrado a condição social de origem.

 

Nas próximas semanas, é possível que os dois aspirantes à presidência sejam forçados a pousar, em decorrência da estrutura do sistema partidário estadunidense. Campanhas são muito dispendiosas e os candidatos necessitam, dada a extensão do território norte-americano, de milhares de colaboradores, nem sempre voluntários, e de uma infraestrutura de alcance geográfico bem diversificada – os sete maiores colégios representam bem isto, ao atingir 209 votos dos 538 disponíveis: Califórnia (55 votantes), Texas (38), Nova York (28), Flórida (28),  Illinois (20), Pensilvânia (20) e Ohio (18).

 

Ao chegar-se lá, favorecer-se-iam os disputantes bem encaixados no padrão costumeiro, ou seja, os distantes dos extremos, em especial do da esquerda, uma vez que o pêndulo político desloca-se com o passar do tempo cada vez mais para a direita – postura amenizada através da semântica pelos maiores meios de comunicação, ao se referir ao fenômeno como mero ajuste do ‘centro’ ou do posicionamento de uma suposta moderação.

 

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

 

 

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