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A campanha de difamação contra a direção do IPEA Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Passarinho   
Sexta, 23 de Novembro de 2007
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Está em curso uma pesada campanha difamatória contra os novos dirigentes do IPEA – o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, órgão atualmente subordinado ao recém-criado Ministério de Assuntos Estratégicos, e presidido pelo economista Márcio Pochmann.

 

O pretexto para a orquestrada campanha foram mudanças de natureza administrativa, que começam a ser operadas no órgão, a partir da posse dos novos dirigentes do Instituto, que conta também com a participação de João Sicsú, assim como Pochmann, acadêmico dos mais qualificados, além de professor do Instituto de Economia da UFRJ.

 

Algo que seria absolutamente corriqueiro – inclusive com amplo amparo e exigência de normas administrativas e legais em vigor – passou a ser apresentado em veículos da grande imprensa como um triste exemplo de perseguição ideológica e cerceamento ao livre exercício analítico e de pesquisa que deveriam caracterizar o trabalho dos pesquisadores dessa instituição.

 

A campanha teve início no dia 15/11, em matéria assinada por Guilherme de Barros - "IPEA expurga economistas divergentes" -, na Folha de S.Paulo, em seu caderno Dinheiro, e sabe-se que foi instigada por dois ex-dirigentes do Banco Central e do Ministério da Fazenda, hoje ocupando cargos importantíssimos na direção de um grande banco, aparentemente ainda de capital nacional.

 

No dia 16, sexta-feira, Guilherme de Barros volta ao assunto, inclusive comentando o último artigo de Fábio Giambiagi, um dos economistas supostamente perseguidos. Nesta edição da Folha, Elvira Lobato faz entrevista com Pochmann – que naturalmente rejeita a versão apresentada pelo jornal no dia anterior:

 

“O termo usado no texto da Folha, para mim, é uma ofensa. Tenho mais de duas décadas de atividade acadêmica. Sou polemista, gosto da polêmica. Significaria que, ao ocupar um cargo público, eu estaria estabelecendo a censura, o monopólio. Eu também tenho críticas à política econômica. Tenho me manifestado contra a política de juros. Meu papel no Ipea é garantir pluralidade e dar transparência a diferentes visões. Não estou lá para organizar o consenso, mas para organizar o dissenso”.

 

Elvira Lobato também ouviu Gervásio Rezende, outro dos economistas supostamente injustiçados, que alega que seus estudos - contestando a existência de trabalho escravo no meio rural - teria desgostado o governo e seria o motivo para o seu afastamento. Elio Gaspari no domingo, na coluna que publica no O Globo e na própria Folha, volta ao assunto - "O comissariado vai mal no IPEA" - e Miriam Leitão (O Globo) e Cristiano Romero (Valor Econômico), nas respectivas edições de 21/11, também atacam Pochmann e Sicsú. O Valor Econômico nesse dia também dedica um editorial ao assunto, acompanhando o que já havia ocorrido com o próprio O Globo e com o jornal O Estado de S. Paulo.

 

As matérias produzidas também induzem o leitor a acreditar que está em curso uma caça às bruxas no IPEA, que nem no período da ditadura teria ocorrido, a partir de opiniões que teriam sido buscadas junto a outros economistas. Sabe-se, contudo, que ao menos em dois casos – em relação aos economistas João Paulo dos Reis Veloso e Reinaldo Gonçalves – suas opiniões não foram reproduzidas pelos jornalistas que os ouviram, na medida em que não corroboraram com a versão que interessava de ser divulgada.

 

O fato é que havia dois funcionários aposentados do IPEA, Gervásio Resende e Regis Bonelli, que tinham sala e utilizavam recursos públicos para desenvolvimento de atividades no interior da Instituição, sem qualquer vínculo formal com a casa. Consultados os órgãos internos de controle, inclusive a Procuradoria da Advocacia Geral da União, no IPEA, foi notificada à Diretoria do Instituto a situação totalmente indevida.

 

Por outro lado, por força de um convênio de cooperação técnica em vigor até o dia sete de dezembro desse ano, entre o IPEA e o BNDES, desenvolviam atividades na instituição os funcionários do BNDES, Fabio Giambiagi e Otavio Tourinho. Esses técnicos não pertencem aos quadros do IPEA e nem foram cedidos ao IPEA, em tempo algum. Entretanto, atuavam como se fossem quadros da própria instituição, sendo que Giambiagi era o responsável inclusive pelo chamado Grupo de Acompanhamento Conjuntural do órgão. É importante destacar que o trabalho previsto no convênio refere-se a uma pesquisa sobre o papel do BNDES no financiamento do desenvolvimento. Há inúmeras dúvidas com relação ao trabalho que de fato esses técnicos do BNDES efetivamente desempenhavam dentro do IPEA. Contudo, em relação a esse ponto, Márcio Pochmann em entrevista deixou muito claro o que espera:

 

"Eles têm que entregar o relatório (referente às conclusões da pesquisa), pois tem dinheiro publico envolvido. Somos republicanos. Temos de agir dentro das normas. Se as pessoas saem de um lugar para outro com um objetivo, esse objetivo tem que ser cumprido".

 

As razões que levaram com que os fatos que ocorrem dentro do IPEA viessem a ser profundamente manipulados e deformados, pelas matérias publicadas e aqui mencionadas, relacionam-se aos posicionamentos que Márcio Pochmann e João Sicsú têm assumido frente ao debate sobre a política econômica. Ambos são críticos contundentes das políticas pretensamente de austeridade fiscal, preconizadas especialmente pelos banqueiros e economistas relacionados aos interesses do mercado financeiro. Pretensamente de austeridade fiscal, pois esses defensores da ordem imposta por Lula e pelo Banco Central conseguem construir um silêncio sepulcral em relação à irresponsável política monetária, principal fator de desequilíbrio das contas públicas. Ao invés de se oporem à orgia de gastos que o pagamento de juros provoca e à forma como a dívida pública é gerida, são críticos que preferem denunciar uma suposta irresponsabilidade nas despesas de manutenção da máquina pública, nos gastos sociais ou em uma excessiva generosidade na concessão de benefícios previdenciários e nos programas de transferência de renda aos mais pobres. Mesmo depois de nomeados para os cargos que agora ocupam, Pochmann e Sicsú têm continuado a alertar em seus artigos para a iniqüidade de uma política – em curso no atual governo – que a rigor transfere renda dos mais pobres para os mais ricos. Ambos têm também deixado claro que caso queiramos atingir níveis satisfatórios de crescimento econômico e de distribuição da renda nacional, o papel do Estado brasileiro é fundamental, inclusive chamando a atenção para a sua diminuta dimensão, frente às suas imensas responsabilidades e em comparação aos países desenvolvidos.

 

Esses, na verdade, são os “pecados” desses atuais dirigentes do IPEA. Contrariam aos interesses dos banqueiros e financistas, que não querem e não podem permitir que a atual política econômica seja criticada. Contam, para tanto com a cobertura facciosa, orquestrada e irresponsável com que esses setores da imprensa atuam. Cristiano Romero, articulista do jornal Valor Econômico, intitulou o seu artigo do dia 21 de novembro como “IPEA: o alvo é a política monetária”. Nele, afirma que “a expulsão de quatro renomados economistas do IPEA é parte de um movimento maior que vem ocorrendo há algum tempo dentro do governo”. Quis se referir ao fato de economistas considerados desenvolvimentistas – como é o caso de Pochmann e Sicsú – estarem ocupando cargos públicos no governo Lula. Além de mentir – a “expulsão” de economistas no caso do IPEA só pode existir na cabeça de quem quer confundir e manipular os fatos –, o jornalista deixa claro quem de fato exerce a discriminação ideológica e o patrulhamento político.

 

E evidencia que o alvo da campanha difamatória em curso é a defesa intransigente da “galinha dos ovos de ouro”: a política monetária que garante a bancos e instituições financeiras os lucros astronômicos e indecentes que os seus balanços revelam.

 

 

Paulo Passarinho é economista.

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Última atualização em Sexta, 18 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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