Brasil-EUA: o infundado desejo de projeção de poder

 

 

 

 

Nos primórdios do mandato de Dilma, o Brasil preocupava-se com a China, não com os Estados Unidos. O motivo decorria dos benefícios econômicos obtidos por Pequim por caminhos considerados por vezes inadequados, como a suspeita do emprego de dumping ou a desvalorização artificial da moeda - mesmo assim, o saldo comercial foi favorável a Brasília em 2010.

 

Aos olhos do Planalto, a compensação chinesa poderia ser no campo político, ao hipotecar apoio para o país adquirir presença permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando houvesse a ampliação das vagas.

 

Enquanto isso, Barack Obama no discurso do Estado da União comunicou a viagem a ser feita a três países sul-americanos: Brasil, Chile e El Salvador. Reforçou possivelmente sua postura a desistência, em dezembro de 2010, de Dilma de ir a Washington, ao concentrar-se ela na escolha dos integrantes do ministério da segunda administração.

 

De toda forma, a despeito do cancelamento, a Casa Branca via-a positivamente por declarações recentes ao Washington Post em que ela criticava de forma indireta a política externa pátria por abster-se de condenar a política de direitos humanos do Irã, país com o qual os Estados Unidos mantinham longo entrevero, nas Nações Unidas (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2010/12/03/AR2010120303241.html) .

 

Apesar de citado o Brasil no Estado da União poucos dias antes, a presidente ao dirigir sua mensagem ao Congresso Nacional no início de fevereiro, momento da abertura anual dos trabalhos parlamentares, não mencionou sua contraparte. Nos quatro parágrafos sobre política externa, apenas reiterou a obsessão onusiana do Planalto como confirmação de potência:

 

“Nossa participação nas forças da ONU – especialmente na Missão para a Estabilização do Haiti – é emblemática do nosso compromisso com a paz e a estabilidade democrática (...) Continuaremos defendendo a reforma dos organismos de governança mundial, em especial as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. É natural que um país como o nosso, que busca internamente ser cada vez mais justo, também sustente na esfera internacional a necessidade de democratização das relações entre os Estados nacionais” (http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/discursos/discursos-da-presidenta/apresentacao-da-mensagem-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-ao-congresso-nacional-por-ocasiao-da-instalacao-da-1a-sessao-legislativa-da-54a-legislatura )

 

A união entre brasileiros e estadunidenses ocorreu no agronegócio. Ambos se punham contra a regulamentação do preço das commodities agrícolas, proposta da França ao G-20 em janeiro daquele ano. A justificativa era prevenir a especulação com os alimentos, vista como fonte de instabilidade, haja vista a turbulência na África do Norte – Argélia e Tunísia. Sem solidariedade no tema, os franceses recuariam no encontro da organização.

 

Malgrado a aproximação no G-20, a expectativa da presença de Obama em solo pátrio em março não era tão boa, dado que não se aguardava o gesto de boa vontade à causa do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por conta de uma viagem à Ásia do mandatário estadunidense em novembro de 2010.

 

Nela, o dirigente foi incisivo em apoiar o pleito de Nova Déli. Em seguida, teria a mesma posição com Tóquio. As hipóteses para isso variavam: uma seria a incômoda desenvoltura da China naquele continente; outra, o fato de a Índia ser uma potência nuclear.

 

Enfim, ao invés de concentrar-se em questões econômicas, prementes por causa dos efeitos da crise mundial de 2008, o Planalto preferiu fantasiar sua projeção de poder, ao mirar na inatingível obtenção do ingresso no Conselho de Segurança como membro perpétuo.

 

 

Leia também:


Brasil-Estados Unidos: a balança inicial desfavorável na primeira gestão Dilma

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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