2016: a agonia do modelo e suas consequências

 

 

 

 

O ano de 2016 mal começou e as perspectivas são de manutenção e aprofundamento das crises abertas em 2015.

 

No âmbito da crise política, embora 2015 tenha acabado com um certo esvaziamento da tese do impeachment, este ano começa com a Operação Lava Jato disparando tiros diretamente contra o ex-presidente Lula.

 

Sejam verdadeiras ou não as acusações, o fato é que o promíscuo caminho do balcão de negócios entre alta cúpula do partido e do governo com as empreiteiras, além de ter destruído moralmente o PT, vão manter em alta a crise política, o desgaste e o “empurra-empurra” entre governo, partido e instituições.

 

Entre outras razões, porque Eduardo Cunha dá demonstrações de força na volta do recesso parlamentar e sinaliza que vai resistir, e muito, aos justos clamores pelo seu afastamento.

 

Mas é possível que não venham desta crise os principais focos de tensões e instabilidade no ano.

 

O início de 2016 mostrou, já de forma dramática, que vamos a um aprofundamento e agravamento das crises econômica e social. Já era evidente o esgotamento do modelo de suposto neodesenvolvimentismo, especialmente com a recessão estabelecida em 2015, o início do ajuste do segundo mandato do governo Dilma e os crimes e desastres socioambientais, como o da Samarco em Mariana, entre outros fatores; 2016 parece ser o da agonia, quando se projeta um segundo ano consecutivo de dura recessão, colapso nos serviços públicos, manutenção da política de ajuste neoliberal e retirada de direitos.

 

São vários os fatores que indicam o aprofundamento da crise econômica. Os primeiros deles são externos: a desaceleração relativamente rápida da economia chinesa com abalos importantes no mercado de ações e a queda drástica no preço das commodities, especialmente petróleo e minério de ferro.

 

De outro lado, a instabilidade política e econômica no Brasil, a alta dos juros no mercado norte-americano e a valorização do dólar sinalizam uma perspectiva de grande fuga de capitais em 2016 e queda de investimentos.

 

Dessa forma, o ano de 2016 começou com números assustadores no Brasil em relação a desemprego, queda da produção industrial, inflação, queda da renda do trabalhador, inadimplência.

 

A perspectiva do ano é fechar com quase 10 milhões de desempregados – já são neste momento 9,1 milhões (dados do IBGE) -, com inflação em alta, como se viu em janeiro no preço dos alimentos e das tarifas públicas, e queda na renda (rapidamente corroída pela inflação), num país que já tem 59 milhões de inadimplentes (dados da Serasa Experian).

 

Tensão social e lutas de resistência

 

Este cenário permite um diagnóstico de muita turbulência, tensão e possivelmente muitas lutas sociais.

 

A resposta do governo Dilma não será nenhuma inflexão ou virada na sua política econômica, entre outras razões porque para continuar a esvaziar a tese do impeachment a lógica é de mais concessões ao grande capital. Que ninguém se iluda com medidas ultrapontuais, como a não elevação da taxa de juros na última reunião do Banco Central.

 

Nem precisa, pois os patamares de arrocho na economia já são altíssimos nos últimos anos, como, por exemplo, as altas de juros, que contribuíram para os mais de 500 bilhões de reais acrescidos na dívida pública em 2015, para o estrangulamento do crédito, para a inadimplência e queda do consumo.

 

Onde se verifica mais nitidamente o sentido de aprofundamento do ajuste da parte do governo Dilma é a retomada com força da pauta da reforma previdenciária, uma das exigências centrais do grande capital.

 

Outro exemplo? O dramático colapso nos serviços públicos. As explosivas epidemias de dengue, ao lado da Chikungunya e do Zika, ajudam a revelar o sucateamento da saúde pública, o despreparo, a falta de investimentos em recursos materiais e humanos, o flagelo que significa o atendimento em um hospital público.

 

Um parêntese. As epidemias que assolam o país revelam também outros dois desastres: o enorme atraso do saneamento público (a principal razão pelo alastramento e ampliação de epidemias e novas doenças, e não o mosquito), e os fatores “humanos”, que contribuem decisivamente com as mudanças climáticas e o aquecimento global, dentre os quais o Brasil com seu modelo predatório-extrativista tem dado uma enorme contribuição.

 

Alguns cenários e perspectivas

 

Se é certo que as eleições municipais deste ano que deverão ser um dos afluentes a canalizar o mau humor e insatisfação popular, este aprofundamento de crises pode ser um desaguadouro de muitas e novas lutas sociais.

 

Lembremos que 2015 foi marcado também por muitas lutas como greves, ocupações urbanas, protestos como o as passeatas e marchas de mulheres, a luta estudantil, como a vitoriosa onda de ocupações de escolas secundárias em São Paulo contra o governo Alckmin, alastrada pelo estado de Goiás etc.

 

Este ano começou com representativas manifestações contra o aumento de tarifas em diversas capitais, greves contra demissões e por melhores salários, como dos aeronautas e aeroviários. Esta dinâmica geral de multiplicidade de lutas e atores sociais é um traço desde as jornadas de junho.

 

A ofensiva do capital pela retirada de direitos vai também se intensificar ao lado da brutalidade da repressão, pois em tempos de crise é sempre esta a resposta dos dominantes, e com inestimável contribuição (para eles) do governo Dilma e do PT, com sua política macroeconômica e covardia diante das pressões da direita tradicional.

 

As crises econômica e social naturalmente incidem sobre os rumos da crise política, embora os impasses institucionais permaneçam e caminhem para as “soluções” eleitorais.

 

A tendência mais geral para as eleições de 2016 é que a onda de desgaste com o governo Dilma e contra o PT favoreça, em geral, as candidaturas mais à direita. Mas de outro lado a crise geral, política e econômica, compromete e fragiliza todo tipo de governo, inclusive os da base da direita tradicional, que não estão fora dos escândalos de corrupção e nem dos efeitos da crise econômica e nos serviços públicos.

 

Portanto, uma frente de partidos da esquerda socialista poderá, no terreno das eleições, fortalecer e ampliar uma alternativa de esquerda ao caos que se avizinha desta agonia do modelo.

 

O mais importante será apostar que uma nova onda de lutas sociais de resistência seja forte o suficiente para impedir o avanço da retirada de direitos e contribua para a construção de uma outra alternativa de país, forjada também no calor das lutas sociais.

 

 

Fernando Silva é jornalista e membro do Diretório Nacional do PSOL.

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