Uma experiência de micropolítica territorial afetiva: o Círculo de Cidadania do Bairro de Fátima e Vizinhanças

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Começou em março de 2015. No início era um vazio enorme decorrente da crise de representação e ausência de alternativas institucionais que tiveram nas eleições presidenciais de 2014 seu ápice. Em janeiro de 2015, na Espanha, o Podemos atraía as atenções do mundo como fenômeno partidário originado dos desdobramentos do movimento 15M (os “Indignados da praça”), com todas as contradições que isso pudesse ter. A base do Podemos eram os chamados Círculos que se espalhavam pelo país.

 

Foi quando um grupo relativamente diverso decidiu, num encontro no final de janeiro de 2015, empreender algo parecido no Brasil, que fosse ao mesmo tempo diferente do tradicional trabalho de base que gerou o PT em 1980 no Brasil. Dessa elasticidade e indefinição inicial surgiu a ideia dos Círculos de Cidadania. Neste artigo, vou tratar da experiência na qual me envolvi, que foi a única de caráter territorial no Rio de Janeiro, mas posso destacar que existe pelo menos outro Círculo atuando na cidade, o Laranja, referência ao uniforme dos garis.

 

Não conseguimos tomar a cidade com os Círculos, mas neste encontro do final de janeiro de 2015 provoquei uma amiga que estava presente e também morava no bairro para tentarmos estruturar um círculo na pracinha do bairro de Fátima. Inicialmente, iríamos para a praça a fim de conversar com pessoas que estivessem por lá.

 

Não sabíamos o que aconteceria, mas tínhamos um ponto claro: queríamos realizar ações locais com as pessoas que moram e gostam do bairro a fim de promover cidadania, uma ideia bem vasta. Fiz um pequeno chamado no Facebook e apareceram duas pessoas interessadas na ideia, depois mais duas para o happy hour que passou a acontecer em algum bar. Passamos a nos reunir toda terça, das 19h às 21h, para pensar ações e cada pessoa que participava foi atraindo mais gente.

 

Decidimos nos organizar em um grupo de Facebook com o nome Círculo de Cidadania do Bairro de Fátima e Vizinhanças que conta com cerca de 340 pessoas, algumas das quais nem moram no bairro, mas se interessam pelas ações e pela iniciativa. Esse grupo serviu para articular as ações que empreendemos desde então, mas são as reuniões presenciais que se configuram como espaço de deliberação e debate das pautas e questões que surgem. Neste período de quase um ano nós focamos em ações que nos aproximassem dos moradores.

 

As pessoas que compõem a ideia do Círculo têm como característica serem moradoras recentes do bairro, jovens, com alto nível intelectual, quase todos com mestrado e doutorado. Nossa maior conquista é quando pessoas que não têm esse perfil se aproximam e continuam.

 

Somos autônomos e independentes, não temos ligação com qualquer partido ou organização que nos centralize, nem mesmo o grupo que se reuniu em janeiro de 2014 que serviu de pontapé para essa ideia tomar forma. Não nos vemos como um grupo ou coletivo, mas como algo que acontece toda terça de 19h às 21h na pracinha do bairro de Fátima. Atualmente, contamos com a participação de algo entre 5 e 20 pessoas a cada reunião.

 

Nosso foco até então foram eventos que movimentaram a praça e nos apresentavam ao público do bairro, atraindo mais gente para os nossos encontros de terça. Encontros com muito afeto envolvido, em que a pauta é sempre definida no ato com quem está presente, dos quais desprendemos laços de amizade que vêm se estreitando ao longo desse tempo.

 

Entre os eventos que realizamos, destaco quatro: a Feira de Doação, no final de abril; o Cine Círculo, em meados de junho; a participação na tradicional festa agostinha do bairro; e o Sarau do Saci no final de outubro. Todos gratuitos, todos organizados coletivamente numa esfera de colaboração que fez com que muitas pessoas tivessem contato conosco e algumas delas passassem a participar das reuniões de terça. Esses eventos reuniram entre 80 e 300 pessoas.

 

A questão do engajamento é crucial para qualquer ação que se realiza atualmente. Para este ano de 2016, chegamos à conclusão de que precisamos ir além da realização de eventos. Por isso, na comemoração do nosso primeiro ano, estaremos realizando no dia 05/03 um mapeamento afetivo do bairro, a fim de envolver mais pessoas na identificação de questões locais que gerem futuras intervenções, engajando mais gente neste processo que se mostra plenamente sustentável.

 

Por fim, estou mostrando que o Círculo de Cidadania do Bairro de Fátima e Vizinhanças reflete uma micropolítica territorial afetiva porque se preocupa com um território específico (o bairro de Fátima) em questões micro, tais como o jogo de bola na praça dos jovens que não têm uma quadra, com sua base no afeto entre as pessoas que passam a se conhecer. Em tempos áridos de desesperança é um sopro de energia para vislumbrar que existem saídas no deserto. É possível.

 

 

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do PPGCom/UERJ

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