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Fórum Social Temático de Porto Alegre de 2016: uma avaliação possível Imprimir E-mail
Escrito por Chico Whitaker   
Terça, 02 de Fevereiro de 2016
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Terminado o Fórum Social Temático (FST) de 2016 em Porto Alegre, entramos na temporada das avaliações, cada uma necessariamente marcada pelas preocupações de quem as faça e pelo modo e o lugar de sua participação no evento. Como é o caso desta.

 

As primeiras que estão chegando não poderiam deixar de ser elogiosas, e até entusiasmadas: acaba de ser vivida a emoção sempre provocada por Fóruns Sociais, desde a festiva marcha inicial que reúne mais gente do que os que participarão do evento em seguida. Essas primeiras avaliações falam mais do que aconteceu de positivo, valorizando decisões acertadas. Como quanto à inclusão, nas atividades deste Fórum, de temas e organizações que tinham dificuldade de nele entrar.

 

De fato, nos primeiros anos a partir de 2001 os participantes de Fóruns Sociais eram em maior número de classe média e intelectuais. Seu perfil começou a mudar no Fórum Social Mundial (FSM) da Índia, em 2004, com 20.000 “intocáveis” entre os 120.000 participantes. O Fórum Temático de Porto Alegre deste ano seguiu nessa direção, abrindo mais espaço para movimentos populares ou discriminados na sociedade, como os de negros, de jovens do hip-hop, de portadores de deficiências, de artistas populares. Como o evento foi organizado em plenárias mensais abertas, eles opinaram na sua própria preparação, ao lado de sindicalistas, movimentos de mulheres, de estudantes e outros.

 

É bom começar o portal das avaliações com esse sopro de esperança, apoiada no tradicional clima de alegria dos Fóruns Sociais. Nossa luta pela construção do outro mundo possível enfrenta um real aumento da dominação do mundo pela lógica capitalista. Precisamos nos animar mutuamente. Mas não podemos nos enganar a nós mesmos. Quando se pretende chegar a algum resultado a avaliação tem que ser objetiva. Os acertos têm que ser registrados, mas também os erros, para não os repetirmos.

 

No entanto, não precisamos apontar para culpados de erros cometidos, uma prática que divide. A tendência tradicional da esquerda, que a enfraquece, é a multiplicação de divisões, que a levam até a se enganar de inimigo. E um dos objetivos do FSM é exatamente ajudar a superar essa tendência.

 

Nas avaliações de Fóruns Sociais temos também de situá-los no processo do Fórum Social Mundial. Sejam eles locais, nacionais, regionais, mundiais ou temáticos, eles fazem parte desse processo, como instrumento internacional na luta pela superação do neoliberalismo. Os Fóruns Sociais não são franquias a serem controladas por proprietários. Mas num esforço coletivo corresponsável toda lição deve ser considerada. Este acúmulo refletido de experiências é, aliás, um dos objetivos do Conselho Internacional do FSM, que, no entanto, ainda não encontrou o melhor modo de dar essa contribuição, nos 15 anos em que dura o processo. Mas sua reestruturação está em curso, felizmente.

 

Falhas logísticas

 

Esta questão dos 15 anos do FSM merece atenção, numa avaliação mais crítica do Fórum Temático de Porto Alegre de 2016. Seu objetivo era fazer um balanço dessa já incrivelmente longa história. Mas eu pelo menos não consegui ver um claro fio condutor, em torno desse tema, nas atividades nele realizadas. Houve algumas e até falas a respeito em plenárias. Mas não se conseguiu articulá-las entre si, para aprofundar as análises mais além de eventuais aplausos, apesar da presença de muita gente de outros países que vem participando do processo.

 

É certo que algumas das decisões tomadas dificultaram a obtenção do resultado pretendido, a partir do próprio cartaz de sua divulgação. Nele, assim como nas camisetas e nos impressos, aparecia um grande título: “Fórum Social Mundial 15 anos”; e em letras modestas um pequeno lembrete, lido somente pelos mais atentos:  FSTemático 2016 Porto Alegre...

 

O objetivo parecia ser mais de comemoração do que de avaliação. Não é de estranhar que tanto jornalistas como os taxistas da cidade, tradicionais beneficiários diretos dos grandes afluxos de “turistas”, perguntavam se aquele era o famoso Fórum Social Mundial que finalmente “voltava”, ainda que menor, para Porto Alegre.

 

A meu ver não se conseguiu fazer o balanço tão necessário, em tempos em que se fala mais da crise do FSM do que de seu avanço, apesar de tantos Fóruns Sociais se multiplicando pelo mundo. Foi pena porque se perdeu uma oportunidade que não sei quando surgirá de novo. A falha foi coletiva, de todos que nos empenhamos em organizá-lo, talvez por falta de clareza quanto aos próprios objetivos do FST. Eu a assumo também, apesar de ter dado somente uma pequeníssima contribuição à sua organização.

 

Foi pena também porque estamos apostando no sucesso do próximo Fórum Social Mundial em Montreal, Canadá – o primeiro a se realizar no Hemisfério Norte - e estava em Porto Alegre toda uma delegação de seu coletivo facilitador. Esperemos que a falta do balanço não a impeça de ver os erros a evitar e de avançar a partir dos acertos.

 

Outro aspecto a avaliar negativamente no FST de Porto Alegre foi o modo de organizá-lo. Além dos eventos culturais, já tradicionais nos Fóruns - que ainda não se conseguiu fazer com que sejam mais do que entretenimento - havia dois tipos de atividade: umas ocupando grosso modo as manhãs – as atividades autogestionadas, em tendas ou salas – e outras ocupando as tardes, com diferentes tipos de plenárias em grandes auditórios.

 

Eu tive a oportunidade de participar de duas oficinas e fazer uma pequena intervenção numa terceira, que tratava do próximo Fórum no Canadá.

 

A primeira, sobre a questão nuclear, proposta pela minha própria organização, foi muito interessante, com 45 pessoas debatendo bastante o que se disse em duas curtas palestras e até articulando iniciativas internacionais.

 

Precisamos de um balanço

 

Já a segunda serviu bem para mostrar que não se deu tanta importância, neste FST, ao balanço do processo do FSM. Proposta por membros do Grupo de Trabalho do Conselho Internacional encarregado de propor a reestruturação desse Conselho e pelos organizadores do Fórum no Canadá, essa oficina era voltada especificamente para os 15 anos do FSM. Éramos, no entanto, nem mesmo 15 pessoas, num rápido fim-de-manhã-começo-de-tarde, numa salinha perdida no vasto “território” do Fórum – na verdade um conjunto de bairros centrais da cidade...

 

Para as sessões das tardes, chamadas talvez indevidamente de assembleias de convergência, adotou-se um procedimento arriscado: nas reuniões mensais abertas de organização, em que todos podiam opinar sobre seus conteúdos, cada participante tratou naturalmente de alocar um representante da sua organização, movimento ou partido em alguma das mesas. Digo procedimento arriscado porque se fala que uma das razões da descontinuidade do Fórum Social Europeu foi esse modo de organizar suas plenárias, que trouxe para dentro dele a disputa competitiva própria à luta partidária e à lógica do capitalismo.

 

Como os temas discutidos em Porto Alegre eram amplos, houve a possibilidade de abrir espaço, nessas sessões, com tempo de fala necessariamente mais flexível, até a ministros de governo e presidentes de partidos, além dos intelectuais mais conhecidos. Houve então sessões vibrantes – pelo que pude ver no final de uma delas, a que pude assistir. Mas se havia algum fio condutor, ele com isso naturalmente se esfarelou.

 

Fui convidado a participar também desse tipo de atividade - sem o pedir, e portanto de cima para baixo - para falar dez minutos na sessão sobre o futuro do FSM, na última tarde. No grande auditório havia pelos menos 400 pessoas dispostas a ouvir – podendo se exprimir somente por palmas e eventuais vaias - em torno de 12 oradores.

 

Cada um estava livre para levar o recado de sua luta específica, ligando-a ou não ao futuro do FSM. Chegada a minha vez, quase ao final, tentei falar do avanço da dominação do capitalismo – com seu “mercado”, seus “investidores” e suas operações financeiras, os governos que submete, seus Fóruns como o de Davos, sua máquina enlouquecida de produção – o que torna a construção de outro mundo cada vez mais “necessária” e cada vez mais “urgente”.

 

Felizmente consegui falar do tema da mesa ao final dos 10,05 minutos que me foram concedidos, dizendo pelo menos que a grande tarefa do processo do FSM, hoje, assim como dos nossos movimentos e partidos, talvez seja a de travar a “batalha da comunicação”, para acordar o mundo antes que caiamos todos no precipício da guerra e do desastre ecológico...

 

Mas, bem evidentemente, era difícil fazer com que as atividades autogestionadas das manhãs e as plenárias da tarde se conversassem durante o Fórum, menos ainda sobre o que seria o balanço do FSM. Até porque sua distribuição em múltiplos espaços da cidade não o facilitava. Não havia nenhuma lógica perceptível explicando porque se situavam nos lugares em que se situavam, a não ser a da dimensão dos espaços disponíveis. E não havia nenhuma estrutura ligando-as entre si, às sessões da tarde e ao tema do Fórum. A não ser o ônibus que nos conduzia de um lugar para outro...

 

Retrocesso

 

Pode-se dizer que isto constituiu, na verdade, um certo retrocesso na metodologia dos Fóruns. Depois do Fórum de 2004 na Índia, realizado dentro de uma só área, mas disperso quanto às temáticas abordadas, procurou-se facilitar eventuais articulações concentrando todas as atividades numa só área e aproximando fisicamente aquelas que tinham temáticas convergentes. Como lição não aprendida de Fóruns já realizados não deixa de ser preocupante, mas já impossível de se voltar atrás, o fato de o próximo FSM no Canadá estar sendo organizado também de forma um pouco dispersa na cidade.

Passando a pensar especificamente no futuro do FSM, houve gente que considerou também que eram excessivamente diversificados os temas autogestionados neste Fórum. Isto coloca uma questão quanto à própria natureza e abertura dos Fóruns Temáticos.

 

Os Mundiais são necessariamente abertos às propostas de discussão de seus participantes, em atividades autogestionadas, para que neles emerjam, de baixo para cima, os temas e preocupações dos seus participantes. O mesmo princípio tem sido adotado nos locais, nacionais e regionais, qualquer que seja sua dimensão. O que caracterizaria um Fórum Social Temático, sempre também com atividades autogestionadas, seria exatamente a estruturação das mesmas em torno do tema que o define.

 

O convite à participação para Fóruns Sociais Temáticos teria, então, de ser tão aberto como nos outros, para que comportem uma igual diversidade de debates? Ou os Temáticos deveriam se ater a atividades em torno do “tema” do Fórum, interligadas em “eixos” de discussão? O surgimento desse novo tipo de Fórum criou para nós, portanto, um novo desafio, quanto ao modo de montá-lo sem passar a organizá-los de cima para baixo, o que exigiria um tipo especial de preparação.

 

Neles até cabe discutir a questão da Declaração Final, dependendo da abertura que seja dada à participação no mesmo. Na lógica do respeito à diversidade, expressa na Carta de Princípios do FSM, tanto o Fórum Social Mundial como os locais, nacionais e regionais não podem terminar com uma Declaração Final única, qualquer que seja sua dimensão. Ela é na verdade impossível, e passível de manipulação de cima para baixo, dada exatamente a diversidade dos participantes e a multiplicidade dos temas abordados.

 

Os objetivos desses Fóruns não são os mesmos de um movimento unificado, mas, sim, o reconhecimento mútuo dos seus participantes em sua heterogeneidade, o surgimento de novas denúncias, propostas, convergências e alianças. Neles o que se tem de fazer é abrir espaço para o máximo possível de Declarações Finais, de todas as articulações existentes anteriormente a ele, que tenham vindo participar, e das que nele tenham nascido.

 

Mas os Fóruns Sociais Temáticos são, em si mesmos, articulações em torno de um tema. Caberia que tivessem uma Declaração Final única ou pelo menos principal, sobre seu próprio tema? O problema passa a ser outro: como redigi-la e como submetê-la à aprovação de todos? Novos desafios e novos riscos, que talvez possam ser superados com o método da decisão por consenso usada no Conselho Internacional do FSM.

 

Conclusão

 

Permito-me terminar esta avaliação relatando uma surpresa que tive, já de volta a São Paulo. Busquei na Internet o site do FSM de Montreal escrevendo FSM2016, e fui levado diretamente a outro site: www.pt.org.br/tag/fsm2016. E através dele constatei que no sábado pela manhã, em que eu supunha que o Fórum já tinha terminado, foi realizada uma “Assembleia dos Movimentos Sociais”, que não vi no programa. E que ela se autodenominou “assembleia de encerramento” do Fórum de Porto Alegre, divulgando uma carta compromisso intitulada o “Fórum Social Temático repudia impeachment”.

 

Nada melhor para confundir ainda mais quem não participa diretamente dos Fóruns Sociais, que segundo sua Carta de Princípios é autônomo em relação a partidos e governos. Como explicar, a pessoas interessadas em inovações políticas, a denominação desse site e o conteúdo da mensagem que divulgou, que, aliás, nem de longe se refere ao objetivo mesmo do FST, que era um balanço do FSM?

 

Trata-se na verdade de iniciativas que se situam ainda dentro de uma velha discussão: o FSM é um espaço ou um movimento? E de mais uma tentativa dos organizadores dessa “Assembleia” de se apresentarem como a voz do FSM, divulgando uma Declaração Final em seu nome, preocupados em que os participantes dos Fóruns não voltem para casa sem uma orientação para sua militância.

 

Mas cabe refletir com os interessados sobre a real dificuldade de se escapar da lógica do capitalismo, onde são valores absolutos a competição (que nos divide se a preferirmos à cooperação) e a publicidade (que estimula o consumismo para que a máquina de produção capitalista não pare e os lucros não deixem de crescer por falta de compradores para seus produtos).

 

Até que consumidores ou competidores a denunciem, esta usa sempre que pode a chamada propaganda enganosa, que faz “o gato passar por lebre”. É pena que a esquerda caia por vezes nessa tentação em sua luta política. Não chegamos até a entregar a direção das campanhas eleitorais a marqueteiros, especializados em enganar incautos, que servem a quem lhes pague mais?

 

 

Chico Whitaker, arquiteto, é membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz e milita na Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares.

 

 

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Última atualização em Sábado, 13 de Fevereiro de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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