Ainda sobre Raposa Serra do Sol

 

 

Como informei em meu último artigo nesta coluna, durante o mês de novembro eu estaria ausente, participando de uma expedição à Terra Indígena (TI) Kayapó, no sul do Pará. Antes de partir, porém, deixei este texto, no qual gostaria de corrigir uma observação que fiz sobre outra TI, a Raposa Serra do Sol, na edição do Correio da Cidadania de 25 de outubro. Diante da perspectiva de o exército brasileiro participar da retirada dos plantadores de arroz que ainda permanecem nesta última, escrevi que, “apesar de ter sido a favor da demarcação em área contínua de Raposa Serra do Sol em seu desenho inicial, gostaria que este processo fosse feito com mais vagar e cautela”.

 

Respondendo a este artigo, o ex-presidente da Funai, Márcio Santilli (Instituto Sócio-Ambiental), observou na sessão de cartas do Correio que os poucos arrozeiros que resistem em se retirar da TI são grileiros que a invadiram após a sua identificação oficial. Lembrou ainda que os limites identificados para a terra indígena foram publicados em 1993 no Diário Oficial da União e que esta demarcação já levou mais de dez anos. E concluiu que a retirada dos invasores é “prá lá de urgente”, sendo sua protelação a responsável “pela persistência de conflitos, com mortes”.

 

Concordo. Eu soube também, recentemente, pelo professor José Ribamar Bessa (da UERJ/UFF/UNIRIO), que são apenas sete famílias de plantadores de arroz ainda na terra indígena. Mais: apesar de invasoras, já foram indenizadas. Realmente, parece que não é mais o caso de agir com “vagar”, mas mantenho-me pela “cautela” e com a opinião de que sejam esgotadas as possibilidades razoáveis de diálogo e planejamento (envolvendo vários setores da sociedade), antes do uso da força.

 

Também comentou o artigo, em carta ao Correio, a bióloga Maria Luisa Jorge, amiga e colega da época da graduação na USP, que acompanhou parte da minha pesquisa de doutorado na Terra Kayapó. Para ela, é absurda a incompetência do governo, das universidades e de ONGs quanto à desmistificação de velhos preconceitos contra os índios, como o de que seriam preguiçosos, ladrões. Enfim, que cabe a estas entidades mostrar que os índios e as terras indígenas não são entraves ao desenvolvimento do Brasil, mas que, muito pelo contrário, pela sua importância para a conservação, prestam um grande serviço ao país (aqui, incorro admitidamente no risco de acreditar que um fim - o de preservar a Amazônia - justifica um meio – a criação de TIs - que não se propõe explicitamente a este fim e que inclusive a longo prazo não tem garantias).

 

Realmente, Malu, estamos muito mal nesta tarefa. A base de pesquisas do Pinkaití, na Terra Kayapó (*), que imaginamos poderia servir a este propósito (de divulgação da importância das terras indígenas e da conservação), reunindo pesquisadores de várias partes do Brasil e do mundo, está semi-esquecida. Pelas dificuldades de financiamento e a burocracia, que quase impedem o desenvolvimento de pesquisa científica em terras indígenas, está praticamente largada aos bichos. Espero poder juntar-me a eles pelo menos por um ou dois dias durante esta viagem. E, se tudo der certo, plantar umas novas mudas de coqueiro para matar a sede dos estudantes que um dia venham a trabalhar por lá.

 

(*) A base é, fundamentalmente, uma casa com estrutura para receber muitos estudantes e pesquisadores simultaneamente. O diferencial da base do Pinkaití, construída em uma clareira na mata contínua, perto do Riozinho, a cerca de 10 km rio-acima da aldeia Aukre, é estar absolutamente distante de qualquer ocupação humana - daí seu valor para a pesquisa,  divulgação e conservação da biodiversidade.

 

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

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